Seguidores

sábado, 28 de dezembro de 2013

“Esperança” – Mario Quintana

FELIZ ANO NOVO A TODOS!


Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

(Mario Quintana)


Leia também:
"Canto de Natal" - Manuel Bandeira
"Perguntas à Língua Portuguesa" - Mia Couto
“O médico e o monstro” – Paulo Mendes Campos

Escritores falecidos em 2013

Escritores falecidos em 2013

A homenagem do blog “Veredas da Língua” a alguns grandes escritores luso-brasileiros que nos deixaram em 2013. Lembremo-nos das palavras de Machado quando da morte de José de Alencar:

E ao tornar este sol, que te há levado,
Já não acha a tristeza. Extinto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacável e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...







António Ramos Rosa – poeta português (1924–2013)








Domingos Paschoal Cegalla – escritor e gramático brasileiro (1920–2013)








João de Scantimburgo – escritor e jornalista brasileiro (1915–2013)









Luiz Paulo Horta – escritor e jornalista brasileiro (1943–2013)










Tatiana Belinky – escritora russa radicada no Brasil (1919 – 2013)







Torquato da Luz – poeta português (1943 – 2013)







Urbano Tavares Rodrigues – escritor e ensaísta português (1923 – 2013)




quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

FGV – 2012 – Prova de Língua Portuguesa, Literatura e Interpretação de Textos

FGV – 2012 – Prova de Língua Portuguesa, Literatura e Interpretação de Textos


ps. foi mantida a numeração original da prova.

16 Leia atentamente este breve texto de Millôr Fernandes, constituído de um título e de apenas duas frases:

Reflexão Pós-Muro
Derrubar os heróis é fácil. Difícil é destruir os pedestais.

A correta leitura desse texto permite afirmar que,

A a partir de um determinado fato histórico, o autor transmite uma mensagem em tom proverbial.
B se os verbos “derrubar” e “destruir” trocarem de posição nas frases, o texto passará a constituir um paradoxo.
C com base na observação do cotidiano, o autor afirma que a queda dos mitos traz como
consequência o fim das ideias que os acompanham.
D por não haver relação de sentido entre o título e as duas frases seguintes, o texto pode ser considerado um exemplo de nonsense.
E ao contrário do que ocorre com a palavra “heróis”, o termo “pedestais” deve ser entendido apenas em seu sentido literal.

Texto para as questões de 17 a 22

Leia o seguinte texto sobre a ópera O Guarani, de Carlos Gomes:

Desde a chegada à Europa, Carlos Gomes idealizava o projeto de uma obra de maior vulto, que precisaria ser enviada ao Brasil como contrapartida pela bolsa recebida do governo. A essa altura, seus biógrafos relatam que, com saudades do Brasil, Gomes passeava sozinho pela Piazza del Duomo, quando ouviu o anúncio de um vendedor ambulante: “Il Guarany, Storia del Selvaggi del Brasile”. Tomado de susto pela coincidência, conta-se que comprou ali mesmo a tradução do livro de Alencar, certo de que aquele era um sinal: sua nova obra deveria se voltar às origens. A narrativa serve bem à construção dos mitos em torno do compositor, mas o fato é que não há registro oficial algum do episódio, pelo contrário: cartas e documentos mostram que, ao partir para a Itália, Carlos Gomes já pensava em “O Guarani” como tema para uma nova obra. Se ele comprou uma versão italiana do romance foi apenas para facilitar o trabalho do libretista Antonio Scalvini.
O romance de José de Alencar tinha todos os ingredientes de um bom libreto: o triângulo amoroso, a luta entre o bem e o mal e cenas dramáticas e visualmente fortes. No dia 2 de dezembro de 1870, o escritor José de Alencar caminhou pelas ruas do Rio de Janeiro até o Teatro Lírico a fim de acompanhar a estreia brasileira da ópera baseada em seu romance mais famoso, publicado em 1857. Ao fim do espetáculo, a intensa ovação não foi suficiente para fazer o escritor esquecer algumas restrições com relação à adaptação. Anos depois, em suas memórias, ele se resignaria:
“Desculpo-lhe, porém, por tudo, porque daqui a tempos, talvez por causa das suas espontâneas e inspiradas melodias, não poucos hão de ler esse livro, senão relê-lo – e maior favor não pode merecer um autor”. Alencar não estava errado. A ópera não apenas ajudou a manter viva a fama do romance como se tornou símbolo máximo da obra de seu compositor.

Coleção Folha Grandes Óperas. São Paulo: Moderna, 2011. Adaptado.

17 Segundo o autor do texto, a

A divulgação das cartas de Carlos Gomes acabou desmentindo que ele tivesse adquirido, na Europa, a versão italiana do romance de José de Alencar.
B utilização de O Guarani em italiano, por parte do libretista da ópera de mesmo nome, deve ser considerada somente uma hipótese.
C estrutura dos libretos de ópera foi utilizada por Alencar para criar o enredo do romance O Guarani.
D tradução para o italiano do romance O Guarani, feita a pedido do próprio Alencar, serviu como um aviso para que Carlos Gomes compusesse sua ópera.
E reação do público à ópera de Carlos Gomes, em sua estreia no Rio, acabou referendando as críticas que lhe dirigira José de Alencar.

18 O mencionado triângulo amoroso de O Guarani, de José de Alencar, é composto pelas personagens:

A Peri, Cecília e Álvaro.
B D. Diogo, Isabel e D. Antônio.
C D. Antônio, Dona Lauriana e Loredano.
D D. Antônio, Isabel e Dona Lauriana.
E Peri, Cecília e Isabel.

19 Voltar “às origens” (L.6) tendo como base o romance O Guarani, de José de Alencar, significa, para Carlos Gomes, retomar

A o livro que dá início à história do romance brasileiro, inaugurando a prosa de ficção em nossas Letras.
B a figuração de uma gênese do Brasil, que conjuga elementos históricos, ficcionais e mitológicos.
C o texto inaugural do Indianismo, estética fundadora de uma sensibilidade autenticamente nacional.
D as matrizes da arte operística, constituídas elas próprias de materiais épicos, líricos e dramáticos.
E a tradição operística brasileira, que já durante o Arcadismo mineiro produzira óperas de enredo indianistas.

20 Um aspecto marcadamente ideológico do Indianismo Romântico brasileiro consistiu em

A reforçar o estereótipo do índio como selvagem canibal.
B elidir a participação do negro na formação do Brasil.
C incentivar o antilusitanismo, tal como fez Alencar em O Guarani.
D representar preferencialmente a colonização como um processo cruento de genocídio.
E obliterar a contribuição europeia para a criação da literatura brasileira.

21 Os dois-pontos que aparecem depois das palavras “sinal” (L. 6) e “libreto” (L. 11) servem para introduzir

A duas citações com finalidade comprobatória.
B uma ressalva e uma síntese, respectivamente.
C uma explicação e uma enumeração, respectivamente.
D duas orações em discurso direto.
E dois enunciados de natureza consecutiva.

22 Tendo em vista o contexto, o comentário que NÃO se aplica ao trecho sublinhado é:

A “uma obra de maior vulto” (L. 1): funciona como uma expressão intensificadora.
B “A essa altura, seus biógrafos relatam” (L. 2 e 3): dá ideia de tempo e não de espaço.
C “registro oficial algum” (L. 7): posposto ao nome a que se refere, esse pronome tem seu sentido invertido.
D “daqui a tempos” (L. 17): no português atual, deveria ser substituído por “há”.
E “não poucos hão de ler esse livro” (L. 18): trata-se do presente do indicativo do verbo “haver”, mas com ideia de futuro.

23 Leia a seguinte indagação, formulada por um crítico e historiador da literatura brasileira:

Não será esse livro uma alegoria do Brasil ou um Brasil em miniatura, com sua mistura de raças, o choque entre brancos, negros e mulatos, a natureza fascinadora e difícil, o capitalismo estrangeiro postado na entrada, vigiando, extorquindo, mandando, desprezando e participando?

Antonio Candido. Adaptado.

O livro a que se aplica a indagação do crítico é

A Iracema.
B Memórias de um sargento de milícias.
C O Ateneu.
D O cortiço.
E Vidas Secas.

24 O próprio Machado de Assis reconhecia que sua obra literária possui duas fases distintas. Observando-se as características principais das obras que integram essas fases, verifica-se que, para a passagem de uma fase à outra, foi decisivo o fato de que o escritor tivesse

A abandonado a leitura de obras estrangeiras, voltando-se para a realidade nacional.
B rompido com a filiação católica de sua juventude.
C perdido a ilusão de que fosse possível reformar a mentalidade das elites brasileiras.
D aceito a influência do Positivismo de Augusto Comte e Benjamin Constant.
E aderido ao movimento abolicionista e ao Partido Republicano recém-fundado.

Texto para as questões de 25 a 28

Em uma entrevista, para a pergunta “Quais as principais marcas autorais de Glauber?”, o crítico Ismail Xavier deu a seguinte resposta:

- Glauber inventou um estilo feito de tensões, de convivência de contrários, o que gerou a constante referência ao seu cinema como barroco. A vontade de uma percepção totalizante sempre conviveu com a sensibilidade aguda para a força e o sentido dos detalhes. O grande teatro da política se expressava por meio de esquemas, condensações alegóricas, recurso peculiar ao mito para figurar a história. Em contrapartida, porque cineasta moderno, ele não podia congelar o tempo em chaves já conhecidas, e seu corpo a corpo com um mundo em processo exigiu movimentos exploratórios, incertos, um mergulho sem medo na esfera dos afetos e das pulsões. Sua representação da política envolveu sempre o embate dos corpos, olhares, emoções, aquela constelação de impulsos presentes nos momentos decisivos. Seu trabalho com o gesto define muito bem as diferenças entre Sebastião e Corisco em Deus e o Diabo..., e também a diferença entre o carisma de Diaz e o de Vieira em Terra em Transe, ou o surpreendente movimento de expansão e gesto largo, o lado agressivo, autoritário, do intelectual Paulo Martins.
Entre a exacerbação do gesto e a vontade de equacionar as relações dentro de um espaço limitado, temos uma ambivalência que é constitutiva do estilo presente desde Pátio (1959), primeiro curtametragem de Glauber. Lá, a encenação é em campo aberto, junto à natureza, mas os personagens se movem em um tabuleiro de xadrez. O ar livre amplia o horizonte, mas a encenação se dá no espaço demarcado, verdadeiro palco onde apenas dois atores tecem o drama pela posição recíproca dos corpos, sem fala. Se a cena é figurada e a ação dos humanos desemboca no transe, por outro lado, está lá presente uma relação com o mundo pautada pela instabilidade, pela procura que faz o telespectador sentir a câmera. O drama inscreve-se na forma, na tensão da duração do plano e a montagem, como era próprio do cinema moderno. A câmera em movimento ora está em conjunção, ora em disjunção com a ação dos atores. O que vemos e ouvimos em Pátio vai se desdobrar e se complicar ao longo da obra, dentro dessa tensão entre espaço aberto e demarcação, entre a impostação teatral e a agilidade de câmera notável, uma câmera na mão que apalpa corpos e superfícies. O olhar de Glauber é táctil, embora a moldura de sua representação seja alegórica.

www.revistacult.com.br- no. 155. Adaptado.

25 No texto, “tabuleiro de xadrez” (L. 15) é uma metáfora da ideia contida na expressão

A “movimento de expansão” (L. 11).
B “exacerbação do gesto” (L. 12).
C “natureza” (L. 14).
D “horizonte” (L. 15).
E “espaço demarcado” (L. 15 e 16).

26 A palavra ou expressão do texto que sintetiza o caráter barroco que costuma ser atribuído aos filmes de Glauber Rocha é

A “contrapartida” (L. 5).
B “chaves já conhecidas” (L. 5).
C “embate dos corpos” (L. 7 e 8).
D “ambivalência” (L. 13).
E “encenação” (L. 14).

27 Em sua análise, o crítico se vale do recurso da sinestesia, ou seja, da junção de planos sensoriais distintos, no trecho:

A “Glauber inventou um estilo feito de tensões”.
B “recurso peculiar ao mito”.
C “um mergulho sem medo na esfera dos afetos e das pulsões”.
D “a ação dos humanos desemboca no transe”.
E “O olhar de Glauber é táctil”.

28 Considere as seguintes afirmações sobre os elementos linguísticos indicados:

I “Em contrapartida” (L. 4 e 5); “por outro lado” (L. 17): ambas as expressões estabelecem o mesmo tipo de relação no texto.
II “que faz” (L. 18); que apalpa corpos e superfícies (L. 23): a palavra “que” funciona como sujeito, nos dois casos.
III “ora em disjunção”: (L. 20): por meio da elipse, evita-se, nesse trecho, a repetição do verbo.
IV “embora a moldura (...) seja alegórica” (L. 23 e 24): se o conectivo sublinhado for substituído por “sem que”, não haverá alteração de sentido.

Está correto apenas o que se afirma em

A I e IV.
B II e III.
C I, II, e III.
D II e IV.
E I, III e IV.

Texto para as questões 29 e 30

Poema do Jornal

O fato ainda não acabou de acontecer
E já a mão nervosa do repórter
o transforma em notícia.
O marido está matando a mulher.
A mulher ensanguentada grita.
Ladrões arrombam o cofre.
A polícia dissolve o meeting.
A pena escreve.
Vem da sala de linotipos a doce música mecânica.

Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia.

29 Dentre os traços próprios do Modernismo indicados abaixo, o único que o poema de Drummond NÃO apresenta é:

A registro enfático da velocidade.
B expressão da simultaneidade dos acontecimentos.
C apego aos aspectos do cotidiano.
D ruptura dos limites entre prosa e poesia.
E paródia da poesia parnasiana antecedente.

30 Um leitor da poesia brasileira reconhecerá no poema de Drummond as marcas da influência de dois predecessores ilustres, a saber,

A Manuel Bandeira e Mário de Andrade.
B Mário de Andrade e Murilo Mendes.
C Manuel Bandeira e Murilo Mendes.
D Oswald de Andrade e João Cabral de Melo Neto.
E Oswald de Andrade e Vinicius de Moraes.


PREPARE-SE PARA OS PRINCIPAIS VESTIBULARES DO PAÍS. ADQUIRA AGORA MESMO O PROGRAMA 500 TEMAS DE REDAÇÃO!

https://www.facebook.com/Veredas-da-L%C3%ADngua-229251657086673/

Leia também:

FUVEST 2004 – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa
FATEC 2012 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa
Mackenzie 2012 – 2º Semestre – Prova de Língua Portuguesa
UNESP 2010 – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa
FUVEST 2011 – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa
UNESP 2012 – 1º Fase – Prova de Língua Portuguesa

Tema de Redação – FGV – 2012 – Administração

Tema de Redação – FGV – 2012 – Administração


Leia o seguinte texto, escrito em 1942, e reflita sobre sua atualidade.

Analisem-se os elementos da vida brasileira contemporânea: “elementos” no seu sentido mais amplo, geográfico, econômico, social e político. O passado, o nosso passado colonial, aí ainda está, e bem saliente; em parte modificado, é certo, mas presente em traços que não se deixam iludir. No terreno econômico, por exemplo, pode-se dizer que o trabalho livre não se organizou ainda inteiramente em todo o país. O mesmo poderíamos dizer do caráter fundamental da nossa economia, isto é, da produção extensiva para mercados no exterior. No terreno social, a mesma coisa. Salvo em alguns setores, as nossas relações sociais, em particular as de classe, ainda conservam um acentuado cunho colonial. Na maior parte dos exemplos, e do conjunto, atrás daquelas transformações que às vezes nos podem iludir, sente-se a presença de uma realidade já muito antiga, que até nos admira de aí achar e que não é senão aquele passado colonial.

Caio Prado Júnior. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1981. Adaptado.

Você julga que as afirmações do autor continuam válidas nos dias de hoje?

Redija uma dissertação argumentativa discutindo as ideias contidas no texto acima. Ao discutir se o passado colonial se manifesta na realidade brasileira atual, cite fatos e argumentos que estejam relacionados com os seguintes aspectos:
1. geográfico;
2. econômico;
3. social;
4. político.

Em sua redação, deixe explícito seu ponto de vista sobre a tese defendida pelo autor.

Instruções:
- A redação deverá seguir as normas da língua escrita culta.
- O texto deverá ter, no mínimo, 20 e, no máximo, 30 linhas escritas.
- Textos fora desses limites não serão corrigidos, recebendo, portanto, nota zero.
- A redação deverá ser apresentada a tinta e com letra legível.

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

PREPARE-SE PARA OS PRINCIPAIS VESTIBULARES DO PAÍS. ADQUIRA AGORA MESMO O PROGRAMA 500 TEMAS DE REDAÇÃO!

https://www.facebook.com/Veredas-da-L%C3%ADngua-229251657086673/

Leia também:


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

“Canto de Natal” – Manuel Bandeira


Canto de Natal

O nosso menino
nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
o nosso menino.
Mas a mãe sabia
que ele era divino.

Vem para sofrer
a morte na cruz
o nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
o humano destino:
Louvemos a glória
de Jesus menino.

(Manuel Bandeira)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

"Perguntas à Língua Portuguesa" - Mia Couto
Jorge de Sena - Poemas
"Dialogando com o público leitor" - João Ubaldo Ribeiro

sábado, 21 de dezembro de 2013

Texto: “Perguntas à Língua Portuguesa” – Mia Couto

Perguntas à Língua Portuguesa

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. 
"Sisters and a book". Iman Maleki.
Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, exceto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste subúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

– Se  pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
– No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
– A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
– O mato desconhecido é que é o anonimato?
– O pequeno viaduto é um abreviaduto?
– Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
– Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
– Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
– Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
– O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
– Onde se esgotou a água se deve dizer: “aquabou”?
– Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
– Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
– Mulher desdentada pode usar fio dental?
– A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
– As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: “finanças”?
– Um tufão pequeno: um tufinho?
– O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
– Em águas doces alguém se pode salpicar?
– Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
– Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
– Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
– Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

(Mia Couto)


Leia também:

Jorge de Sena - Poemas