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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Texto: "Calunga" - Jorge de Lima

Calunga


      As primeiras chuvas tinham feito poças ao redor da casa, tinham enchido os barreiros onde os sapos-cururus badernavam. Lula saiu com a lâmpada para ver os sapos cantar. Os seus passos possuíam essa orientação maravilhosa, meio trôpega mas certa, dos passos dos sonâmbulos. Os insetos despertados pela luz vieram rodar em torno da lâmpada. Vieram borboletas escuras, besouros, baratas-d’água, mosquitos. O homem estranho com sua lâmpada parecia ter um mundo luminoso na mão, em redor do qual uma população alada formigava. Parou à beira dum barreiro. A saparia espantada mergulhou na água suja. O coro esquisito ficou mudo de repente. O homem de alma mudada pela doença parou, esperando, sentado no chão frio.
      Estava imóvel como a superfície do barreiro. A lâmpada embaciada pelo hálito da noite entretinha agora uns poucos insetos fanáticos da luz. Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridade. Engoliu um mosquito, baixou a cabeçorra, tragou um cascudinho, mergulhou de novo e, bum-bum, soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes o barreiro ficou sonoro como um convento de frades. Vozes roucas, foi-não-foi, tam-tans, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. Lula estava realmente num outro mundo, que era o mundo noturno de sua ilha, confinado, sonoro, povoado de vozes e de seres que não se viam durante o dia. 
      Daí a pouco, dentro da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes como dois vaga-lumes. Um sapo-cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximaram mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir, previa o perigo porque emudecera mas já não podia andar, imobilizado, os olhos feíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fina do réptil arreganhou-se desmesuradamente, envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil, entregando-se à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E num minuto as perninhas do cururu lá se foram ainda vivas para as entranhas famintas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. Surgiu uma outra cobra e segurou outro compadre sapo, deglutia-o porém com protestos apenas suaves do bicho que gemia uma coisa diferente de seu bum-bum habitual, agora mais canto, com uns tons de resignação diante da força do mais poderoso.

(Jorge de Lima, trecho do romance "Calunga")

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ALPHONSUS DE GUIMARAENS – O SOLITÁRIO DE MARIANA

ALPHONSUS DE GUIMARAENS – O SOLITÁRIO DE MARIANA

- Nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870, e faleceu em Mariana (MG), em 1921.
- Formou-se em Direito, trabalhando posteriormente como juiz na cidade de Mariana, onde ficaria até a sua morte. Recebeu o apelido de “O solitário de Mariana” devido ao estado de isolamento a qual se submeteu quando lá viveu.
- Foi um dos maiores poetas do Simbolismo brasileiro.
- Típico representante simbolista, tendo em sua poesia as características marcantes dessa escola literária: o misticismo, a sugestividade, a musicalidade, os aspectos vagos e nebulosos, a sonoridade, a espiritualidade.
- Entre seus temas preferidos figuram a morte da mulher amada, o amor, a morte, a solidão e a melancolia.
- Entre seus poemas mais famosos estão “Ismália” e “Hão de chorar por ela os cinamonos”, este feito em honra à sua falecida ex-noiva e prima Constança,
- É considerado o mais místico dos poetas simbolistas.

O poeta e professor Péricles Eugênio da Silva Ramos assim definia Alphonsus de Guimaraens:

"Sua poesia, dolorida e sepulcral, dá testemunho de um artista consciente, que se impressionou, para a vida e para a morte, com a perda de sua prima e noiva, Constança.
Lê-lo é ver uma cruz coberta com os panos roxos da Semana Santa, mas também contemplar o céu aberto num luar de lírios e de arcanjos”.

Os modernistas tinham profunda admiração pelo poeta. Mário de Andrade o visitou em Mariana, em 1919, e escreveu um artigo em que lamentava o claustro e o quase esquecimento do poeta:

“Não haverá no Brasil um editor que lhes agasalhe os poemas, tirando-os da escuridão? Não existirá a piedade dum povo bandeirante que vá descobrir nas Minas Gerais essa mina de diamantes castiços e lapidados, e deslumbre os da nossa raça com os tesoiros que Alphonsus guarda junto de si? Onde? quando o abre-te Sésamo dessa gruta encantada? ...”

Quando de sua morte, em 1921, mesmo o mais radical dos modernistas, Oswald de Andrade, reconhece a grandeza do poeta:

“Hoje que uma estuante geração paulista quebra nas mãos a urupuca de taquara dos versos medidos, a figura de Alphonsus de Guimaraens assume a sua inteira grandeza no movimento da boa arte nacional (...). A reação por ele iniciada contra a incultura e o atraso dos nossos principais poetas está sendo rigorosamente continuada (...). Poetas como ele honram não só uma geração como uma pátria.”

E ainda Manuel Bandeira, na década de 50, por ocasião da data de nascimento do poeta, escreve:

“Se fosse vivo, completaria hoje setenta e três anos. Se fosse vivo... Em verdade vivo ele está e cada vez mais no afeto e na admiração de todos os brasileiros”.



"Ismália", ilustração de Odilon Moraes
Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

(Alphonsus de Guimaraens)

                        Saudade

Uma mulher que por amar soluça,
Na torre da minha alma se debruça.

E despenha-se o luar na encosta do monte,
            Tranquilamente, como uma fonte.

            Dois ou três demônios familiares
Passam cantando, para voar logo após pelos ares.

E despenha-se o luar pela encosta do monte.
O monte fica defronte
Da torre da minha alma onde soluça
Essa mulher: e quando o sol entre as nuvens se embuça,
            Nas horas mortas dos crepúsculos tão vagos,
De azul, vestida como o céu, como o céu misteriosa,
            Ela abre os olhos imortais, como dois lagos...
            Virgem Piedosa !

E os sonhos passam, cisnes que  não cantam mais,
            No infinito dos seus olhos imortais,
            Abertos para a eternidade...

Pobre mulher, pobre Saudade!

(Alphonsus de Guimaraens)

Em teu louvor, Senhora, estes meus versos,
E a minha alma aos teus pés para cantar-te,
E os meus olhos mortais, em dor imersos,
Para seguir-te o vulto em toda a parte.

(Alphonsus de Guimaraens)

Árias e Canções

A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,

Que o rubro ocaso em onda ensanguentara,
Brilham do luar à luz celeste e clara.

Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,

Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.

E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!

Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.

(Alphonsus de Guimaraens)

Cantem outros a clara cor virente

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...

(Alphonsus de Guimaraens)

Hão de Chorar por Ela os Cinamomos...

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"


(Alphonsus de Guimaraens)


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Leia também:

António Gedeão - Poemas
"Memórias póstumas de Brás Cubas" - Machado de Assis
Florbela Espanca - Sonetos
"Calunga" - Jorge de Lima

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

UNIFESP 2011 - PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA

Prova de língua portuguesa - Vestibular UNIFESP 2011


LÍNGUA PORTUGUESA

Instrução: As questões 01 e 02 tomam por base o texto seguinte.

      A palavra bullying ainda é pouco conhecida do grande público brasileiro. De origem inglesa e ainda sem tradução no Brasil, é utilizada para qualificar comportamentos violentos no âmbito escolar, tanto de meninos quanto de meninas. Dentre esses comportamentos podemos destacar as agressões, os assédios e as ações desrespeitosas, todos realizados de maneira recorrente e intencional por parte dos agressores. É fundamental explicitar que as atitudes tomadas por um ou mais agressores contra um ou alguns estudantes, geralmente, não apresentam motivações específicas ou justificáveis. Isso significa dizer que, de forma quase “natural”, os mais fortes utilizam os mais frágeis como meros objetos de diversão, prazer e poder, com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e amedrontar suas vítimas. E isso, invariavelmente, produz, alimenta e até perpetua muita dor e sofrimento nos vitimados.

(Ana Beatriz Barbosa Silva. Bullying: mentes perigosas nas escolas, 2010. Adaptado.)

01. Segundo o texto,

(A) embora a palavra bullying ainda não seja muito familiar em nosso país, com o tempo ela se tornará quase natural para nós.
(B) os comportamentos violentos de garotos e garotas, em contexto escolar, têm recebido a denominação inglesa de bullying.
(C) mesmo ignorado pela maior parte das pessoas, o termo bullying designa um fenômeno que está sendo encarado com crescente naturalidade.
(D) a falta de uma tradução para a palavra inglesa bullying provoca dificuldades para qualificar comportamentos violentos na escola.
(E) somente a metade das manifestações violentas, na escola, qualificadas como bullying, apresenta motivações justificáveis.

02. De acordo com o texto,

(A) os estudantes mais fortes usam de sua prepotência e do constrangimento e intimidação dos mais frágeis, com o objetivo de se divertirem.
(B) as ações violentas, praticadas no ambiente escolar, são invariavelmente frequentes, involuntárias e motivadas por sofrimentos dos agressores.
(C) o sofrimento proveniente das manifestações violentas na escola pode demandar tratamentos dispendiosos, porém eficientes.
(D) em geral, as agressões sofridas pelos alunos não são gratuitas e possuem causas cada vez mais claramente identificáveis.
(E) a humilhação e o medo a que são submetidas as vítimas do bullying são consequências naturais da sociedade contemporânea.

03. Leia o texto.

      O cyberbullying é um problema crescente justamente porque os jovens usam cada vez mais a tecnologia. Ana, 13 anos, já era perseguida na escola – e passou a ser acuada, prisioneira de seus agressores via internet. Hoje, vive com medo e deixou de adicionar “amigos” em seu perfil no Orkut. Além disso, restringiu o acesso ao MSN. Mesmo assim, o tormento continua. As meninas de sua sala enviam mensagens depreciativas, com apelidos maldosos e recados humilhantes, para amigos comuns. Os qualificativos mais leves são “nojenta, nerd e lésbica”. Outros textos dizem: “Você deveria parar de falar com aquela piranha” e “A emo já mudou a sua cabeça, hein? Vá pro inferno”. Ana, é claro, fica arrasada. “Uso preto, ouço rock e pinto o cabelo. Curto coisas diferentes e falo de outros assuntos. Por isso, não me aceitam.”

(Beatriz Santomauro. Nova Escola, junho/julho 2010. Adaptado.)

Conforme o texto,

(A) o desenvolvimento da tecnologia extinguirá o problemas do cyberbullying entre os jovens.
(B) apenas os jovens que não frequentam a escola são perseguidos implacavelmente pela internet.
(C) Ana é vítima do cyberbullying porque tem gostos e interesses que seu grupo social não aprecia.
(D) os qualificativos enviados pelas colegas de sala a amigos comuns levaram Ana a usar preto e pintar o cabelo.
(E) a restrição do acesso ao MSN e o uso mais limitado do Orkut eliminam, significativamente, problemas de cyberbullying.

04. Leia o texto.

Dimitria cursava a oitava série no colégio e desapareceu durante as férias de julho de 2008. Segundo a polícia, a garota avisou que iria viajar em companhia do caseiro, mas
nunca mais foi vista. (...) De acordo com a polícia, [o caseiro] Silva disse que matou a menina porque era apaixonado por ela, mas ela não o correspondia.

(Folha de S.Paulo, 16.08.2010.)

No texto, há um erro gramatical. O tipo de erro e a versão que o corrige estão, respectivamente, em

(A) uso de conectivo – Silva disse no depoimento o qual matou a menina (...)
(B) uso de pronome – (...) porque era apaixonado por ela, mas ela não correspondia.
(C) uso de conectivo – (...) iria viajar em companhia do caseiro, porém nunca mais foi vista.
(D) uso de adjetivo – (...) porque era obcecado por ela, mas ela não o correspondia.
(E) uso de verbo – Dimitria frequentava a oitava série no colégio (...)

Instrução: Leia o texto para responder às questões de números 05 a 07.

      Nos últimos três anos foram assassinadas mais de 140 mil pessoas no Brasil. Uma média de 47 mil pessoas por ano. Uma parcela expressiva destas mortes, que varia de região para região, é atribuída à ação da polícia, que se respalda na impunidade para continuar cometendo seus crimes. São 25 assassinatos ao ano por cada 100 mil pessoas, índice considerado de violência epidêmica, segundo organismos internacionais. Se os assassinatos com armas de fogo são uma face da violência vivida na nossa sociedade, ela não é a única. Logo atrás, em termos de letalidade, estão os acidentes fatais de trânsito, com cerca de 33 mil mortos em 2002 e 35 mil mortes por ano em 2004 e 2005. Isto, sem falar nos acidentados não fatais socorridos pelo Sistema Único de Saúde, que multiplicam muitas vezes os números aqui apresentados e representam um custo que o IPEA estima em R$ 5,3 bilhões para o ano de 2002.
      A lista da violência alonga-se incrivelmente. Sobre as mulheres, os negros, os índios, os gays, sobre os mendigos na rua, sobre os movimentos sociais etc. Uma discussão num botequim de periferia pode terminar em morte. A privação do emprego, do salário digno, da educação, da saúde, do transporte público, da moradia, da segurança alimentar, tudo isso pode ser compreendido, considerando que incide sobre direitos assegurados por nossa Constituição, como tantas outras formas de violência.

(Silvio Caccia Bava. Le Monde Diplomatique Brasil, agosto 2010. Adaptado.)

05. Segundo o texto,

(A) as formas de violência mais difíceis de eliminar são aquelas relacionadas aos assassinatos e aos acidentes fatais de trânsito.
(B) os assassinatos com armas de fogo, nas periferias, constituem a face perversa da impunidade exercida pela polícia.
(C) nossa Constituição assegura direitos restritos aos negros, aos índios e aos gays e, assim, eles costumam também ser alvo de muita violência.
(D) como causa de mortalidade, os acidentes de trânsito são quase tão importantes quanto os assassinatos, no ranking da violência no Brasil.
(E) o conjunto das mortes pela violência – assassinatos, acidentes de trânsito e constrangimentos a vários grupos sociais – onera os cofres do Estado.

06. No período Uma parcela expressiva destas mortes, que varia de região para região, é atribuída à ação da polícia, que se respalda na impunidade para continuar cometendo seus crimes, as palavras sublinhadas referem-se, respectivamente,

(A) à palavra parcela e tem a função de sujeito; à palavra polícia e tem a função de sujeito.
(B) à palavra mortes e tem a função de sujeito; à palavra polícia e tem a função de sujeito.
(C) à palavra parcela e tem a função de objeto; à palavra polícia e tem a função de objeto.
(D) à palavra parcela e tem a função de objeto; à palavra ação e tem a função de sujeito.
(E) à palavra parcela e tem a função de sujeito; à palavra ação e tem a função de sujeito.

07. Considere as afirmações.

I. A falta de empregos, a baixa remuneração e o déficit habitacional raramente são compreendidos como forma de violência.
II. O não-oferecimento de educação, saúde e transporte público a toda a população também pode ser visto como uma forma de violência.
III. Uma briga de bar que resulta em morte é um ingrediente a mais a engrossar o caldo da violência no país.

As ideias apresentadas no texto encontram-se em

(A) I, apenas.   (B) I e II, apenas.   (C) I e III, apenas.   (D) II e III, apenas.   (E) I, II e III.

Instrução: Leia o texto para responder às questões de números 08 a 10.

      Por causa do assassinato do caminhoneiro Pascoal de Oliveira, o Nego, pelo – também caminhoneiro – japonês Kababe Massame, após uma discussão, em 31 de julho de 1946, a população de Osvaldo Cruz (SP), que já estava com os nervos à flor da pele em virtude de dois atentados da Shindô-Renmei* na cidade, saiu às ruas e invadiu casas, disposta a maltratar “impiedosamente”, na palavra do historiador local José Alvarenga, qualquer japonês que encontrasse pela frente. O linchamento dos japoneses só foi totalmente controlado com a intervenção de um destacamento do Exército, vindo de Tupã, chamado pelo médico Oswaldo Nunes, um herói daquele dia totalmente atípico na história de Osvaldo Cruz e das cidades brasileiras.
      Com o final da Segunda Guerra Mundial, o eclipse do Estado Novo e o desmantelamento da Shindô-Renmei, inicia-se um ciclo de emudecimento, de ambos os lados, sobre as quatro décadas de intolerância vividas pelos japoneses. Do lado local, foi sedimentando-se no mundo das letras a ideia do país como um “paraíso racial”. Do lado dos imigrantes, as segundas e terceiras gerações de filhos de japoneses se concentraram, a partir da década de 1950, na construção da sua ascensão social. A história foi sendo esquecida, junto com o idioma e os hábitos culturais de seus pais e avós.

(Matinas Suzuki Jr. Folha de S.Paulo, 20.04.2008. Adaptado.)

* Shindô-Renmei foi uma organização nacionalista, que surgiu no Brasil após o término da Segunda Guerra Mundial, formada por japoneses que não acreditavam na derrota do Japão na guerra. Possuía alguns membros mais fanáticos que cometiam atentados, tendo matado e ferido diversos cidadãos nipo-brasileiros.

08. O texto permite afirmar que

(A) o antigo e pernicioso sentimento de intolerância entre brasileiros e japoneses, cultivado há quatro décadas, recrudesce no pós-guerra.
(B) a ideia de um “paraíso racial”, cristalizada no mundo das letras, foi bastante benéfica para o desenvolvimento do país.
(C) a ideologia, de um lado, e o pragmatismo, de outro, criaram condições para uma fase de silêncio sobre a intolerância antinipônica.
(D) as motivações racistas do assassinato do caminhoneiro Pascoal pelo caminhoneiro Kababe, em 1946, desencadearam as hostilidades entre brasileiros e japoneses.
(E) a violência dos atentados da Shindô-Renmei reprimiu a intolerância dos brasileiros contra os japoneses.

09. No texto, as orações (...) que já estava com os nervos à flor da pele em virtude de dois atentados da Shindô-Renmei na cidade (...) e (...) que encontrasse pela frente (...) são exemplos, respectivamente, de oração subordinada adjetiva explicativa e subordinada adjetiva restritiva, porque:

(A) a primeira limita o sentido do termo antecedente (a população de Osvaldo Cruz), enquanto a segunda explica o sentido do termo antecedente (qualquer japonês).
(B) a pausa, antes e depois da primeira oração, revela seu caráter de restrição e precisão do sentido do termo antecedente, tal como se dá com a segunda oração.
(C) na primeira, a oração é indispensável para precisar o sentido da anterior, enquanto, na segunda, a oração pode ser eliminada.
(D) a primeira explica o sentido do termo antecedente (a população de Osvaldo Cruz), enquanto a segunda limita o sentido do termo antecedente (qualquer japonês).
(E) o sentido do termo “qualquer japonês”, explicado na segunda oração, é determinante para a compreensão da primeira.

10. No texto, os termos à flor da pele e eclipse trazem as ideias de, respectivamente,

(A) irritação e ressurgimento.        (B) ódio e obscurecimento.
(C) vingança e desaparecimento.   (D) nervosismo e recrudescimento.  (E) ultrassensibilidade e final.

Instrução: Leia o excerto para responder às questões de números 11 e 12.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer...
Prende-os a mesma corrente
– Férrea, lúgubre serpente –
Nas roscas da escravidão.
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite... Irrisão!...

(Castro Alves. Fragmento de O navio negreiro – tragédia no mar.)

11. Considere as seguintes afirmações.

I. O texto é um exemplo de poesia carregada de dramaticidade, própria de um poeta-condor, que mostra conhecer bem as lições do “mestre” Victor Hugo.
II. Trata-se de um poema típico da terceira fase romântica, voltado para auditórios numerosos, em que se destacam a preocupação social e o tom hiperbólico.
III. É possível reconhecer nesse fragmento de um longo poema de teor abolicionista o gosto romântico por uma poesia de recursos sonoros.

Está correto o que se afirma em

(A) I, apenas. (B) II, apenas. (C) III, apenas. (D) I e II, apenas. (E) I, II e III.

12. Nesse fragmento do poema,

(A) o poeta se vale do recurso ao paralelismo de construção apenas na primeira estrofe.
(B) o eu-poemático aborda o problema da escravidão segundo um jogo de intensas oposições.
(C) os animais evocados – leão, jaguar e serpente – têm, respectivamente, sentidos denotativo, denotativo e metafórico.
(D) o tom geral assumido pelo poeta revela um misto de emoção, vigor e resignação diante da escravidão.
(E) os versos são constituídos alternadamente por sete e oito sílabas poéticas.

Instrução: As questões de números 13 e 14 tomam por base o texto.

      Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos sonoros, túmidos de desejo; e no silêncio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amélia; o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vê-la em colete diante do toucador desfazendo as tranças; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.
      Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos a Jesus.
      – Verá, é muito bonito, de muita devoção! Disse ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.
      Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até o meio da face. Queixou-se de insônia, de palpitações.
      – E então, gostou dos Cânticos?
      – Muito. Orações lindas! respondeu.
      Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste – e sem razão, às vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue.

(Eça de Queirós. O crime do padre Amaro.)

13. O trecho em que a ação de uma personagem se demonstra impregnada de determinismo biológico e permite associar o romance de Eça de Queirós ao movimento estético denominado Naturalismo é:

(A) Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.
(B) Começara então a recomendar-lhe a leitura dos Cânticos a Jesus.
(C) (...) deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.
(D) Queixou-se de insônia, de palpitações.
(E) Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro.

14. O texto permite afirmar que

(A) o livro de orações que Amaro costumava ler desperta seu amor por Amélia.
(B) a observação diária de certas ações de Amélia desperta o desejo de Amaro.
(C) embora Amélia ache lindas as orações do livro, a obra a deixa perturbada.
(D) o livro que Amaro empresta a Amélia aumenta, aos poucos, sua religiosidade.
(E) com a leitura do livro, Amélia passa a corresponder aos sentimentos de Amaro.

Instrução: As questões de 15 a 17 tomam por base o fragmento.

      (...) Um poeta dizia que o menino é o pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
      Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce “por pirraça”; e eu tinha apenas seis anos. Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: “Cala a boca, besta!” – Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscões nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros nem a esconder-lhes os chapéus; mas opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens, isso fui; se não passei o tempo a esconder-lhes os chapéus, alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.

(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.)

15. Indique a frase que, no contexto do fragmento, ratifica o sentido de o menino é o pai do homem, citação inicial do narrador.

(A) (...) fui dos mais malignos do meu tempo (...)
(B) (...) um dia quebrei a cabeça de uma escrava (...)
(C) (...) deitei um punhado de cinza ao tacho (...)
(D) (...) fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado (...)
(E) (...) alguma vez lhes puxei pelo rabicho das cabeleiras.

16. É correto afirmar que

(A) se trata basicamente de um texto naturalista, fundado no Determinismo.
(B) o texto revela um juízo crítico do contexto escravista da época.
(C) o narrador se apresenta bastante sizudo e amargo, bem ao gosto machadiano.
(D) o texto apresenta papéis sociais ambíguos das personagens em foco.
(E) os comportamentos desumanos do narrador são sutilmente desnudados.

17. Para reforçar a caracterização do “menino diabo” atribuída ao narrador, é utilizado principalmente o seguinte recurso estilístico:

(A) amplo uso de metáforas que se reportam aos comportamentos negativos do menino.
(B) seleção lexical que emprega muitos vocábulos raros à época, particularmente os adjetivos.
(C) recurso frequente ao discurso direto para exemplificar as traquinagens do garoto.
(D) utilização recorrente de orações coordenadas sindéticas aditivas.
(E) emprego significativo de orações subordinadas adjetivas restritivas.

Instrução: Leia o texto para responder às questões de números 18 e 19.

Crescia naturalmente
Fazendo estripulia,
Malino e muito arguto,
Gostava de zombaria.
A cabeça duma escrava
Quase arrebentei um dia.

E tudo isso porque
Um doce me havia negado,
De cinza no tacho cheio
Inda joguei um punhado,
Daí porque a alcunha
De “Menino Endiabrado”.

Prudêncio era um menino
Da casa, que agora falo.
Botava suas mãos no chão
Pra poder depois montá-lo:
Com um chicote na mão
Fazia dele um cavalo.

(Varneci Nascimento. Memórias póstumas de Brás Cubas em cordel.)

18. A versão modificada, adaptada à oralidade – como usualmente se dá na produção da literatura de cordel – apresenta termos semelhantes aos do texto original de Machado de Assis, que podem ser identificados em todas as palavras da alternativa

(A) malino, botava, inda, pra.         (B) estripulia, malino, inda, pra.
(C) estripulia, zombaria, inda, daí. (D) zombaria, botava, inda, pra. (E) malino, botava, zombaria, daí.

19. Considere as seguintes afirmações:

I. Os versos do poema possuem sete sílabas poéticas.
II. O poema é composto por três sextilhas.
III. As três estrofes obedecem ao esquema de rimas ABCBDB.

Está correto o que se afirma em

(A) I, apenas.   (B) II, apenas.   (C) III, apenas.   (D) I e II, apenas.   (E) I, II e III.

20. Compare o trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, com o fragmento do poema O navio negreiro – tragédia no mar, de Castro Alves (questões 11 e 12). Indique a alternativa que apresenta aspectos observáveis nos dois textos.

(A) Tema da escravidão, contenção expressional, exploração do ritmo da frase, visão crítica da realidade.
(B) Ironia, exploração do ritmo da frase, intertextualidade explícita, denúncia de problemas sociais.
(C) Tema da escravidão, visão crítica da realidade, exploração do ritmo da frase, representação do homem como objeto do homem.
(D) Estilo apurado, visão crítica da realidade, representação do homem como objeto do homem, intertextualidade explícita.
(E) Tema da escravidão, tom arrebatado, visão crítica da realidade, estilo apurado.

Instrução: As questões de números 21 a 24 tomam por base o fragmento seguinte.

      As provocações no recreio eram frequentes, oriundas do enfado; irritadiços todos como feridas; os inspetores a cada passo precisavam intervir em conflitos; as importunações andavam em busca das suscetibilidades; as suscetibilidades a procurar a sarna das importunações. Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos. Viam Rômulo passar, lançavam-lhe o apelido:mestre-cuca!
     Esta provocação era, além de tudo, inverdade. Cozinheiro, Rômulo! Só porque lembrava culinária, com a carnosidade bamba, fofada dos pastelões, ou porque era gordo das enxúndias enganadoras dos fregistas, dissolução mórbida de sardinha e azeite, sob os aspectos de mais volumosa saúde? (...)
       Rômulo era antipatizado. Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade. Ao mais insignificante gracejo de um pequeno, atirava contra o infeliz toda a corpulência das infiltrações de gordura solta, desmoronava-se em socos. Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente.
      Para desesperá-lo, aproveitavam-se os menores do escuro.Rômulo, no meio, ficava tonto, esbravejando juras de morte,mostrando o punho. Em geral procurava reconhecer algum dos impertinentes e o marcava para a vindita. Vindita inexorável.
      No decorrer enfadonho das últimas semanas, foi Rômulo escolhido, principalmente, para expiatório do desfastio. Mestrecuca! Via-se apregoado por vozes fantásticas, saídas da terra; mestre-cuca! Por vozes do espaço rouquenhas ou esganiçadas.
      Sentava-se acabrunhado, vendo se se lembrava de haver tratado panelas algum dia na vida; a unanimidade impressionava. Mais frequentemente, entregava-se a acessos de raiva. Arremetia bufando, espumando, olhos fechados, punhos para trás, contra os grupos. Os rapazes corriam a rir, abrindo caminho, deixando rolar adiante aquela ambulância danada de elefantíase.

(Raul Pompeia. O Ateneu.)

21. Considere as seguintes afirmações.

I. A alcunha de mestre-cuca, recebida por Rômulo, advinha do fato de ter praticado, anteriormente, a arte culinária.
II. As agressões e humilhações sofridas por Rômulo eram essencialmente motivadas por sua antipatia.
III. As reações de Rômulo às provocações dos colegas variavam conforme as circunstâncias.

De acordo com o texto, está correto o que se afirma apenas em

(A) I.   (B) II.   (C) III.   (D) I e II.   (E) II e III.

22. Indique a alternativa em que os fragmentos selecionados exemplificam, respectivamente, a manifestação clara do ponto de vista do narrador e a opinião do grupo, a propósito de Rômulo.

(A) Cozinheiro, Rômulo! – Vindita inexorável.
(B) Vindita inexorável. – Cozinheiro, Rômulo!
(C) Mestre-cuca! – Vindita inexorável.
(D) Cozinheiro, Rômulo! – Mestre-cuca!
(E) Mestre-cuca! – Cozinheiro, Rômulo!

23. Sobre o texto, é correto afirmar:

(A) A atmosfera tensa presente no cotidiano do colégio era produto, sobretudo, da marcação cerrada dos inspetores, que intervinham nos muitos conflitos.
(B) Rômulo, devido às provocações que sofre, perde as certezas sobre si mesmo e assume um comportamento que oscila entre a angústia e ataques de fúria.
(C) Alguns alunos, por serem muito suscetíveis, importunavam outros colegas, puxando-lhes o cabelo ou colocando-lhes apelidos.
(D) A brutalidade física de Rômulo era a única solução que encontrava para enfrentar a chacota dos alunos mais fortes.
(E) A unanimidade dos alunos em chamar Rômulo de cozinheiro fazia com que preponderasse sua atitude de entregar-se ao acabrunhamento.

24. Tendo em vista a função sintática da palavra grifada no fragmento Para que o não manifestassem excessivamente, fazia-se temer pela brutalidade, assinale a alternativa em que o termo sublinhado exerce a mesma função:

(A) Dos mais fortes vingava-se, resmungando intrepidamente.
(B) Para desesperá-lo, aproveitavam-se os menores do escuro.
(C) Via-se apregoado por vozes fantásticas, saídas da terra.
(D) Mais frequentemente, entregava-se a acessos de raiva.
(E) Viam de joelhos o Franco, puxavam-lhe os cabelos.

Instrução: As questões de números 25 a 27 tomam por base o fragmento.

[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava “meu padrinho” e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A perna coxa se recusava a ajudá-lo. E a borracha zunia nas suas costas quando o cansaço o fazia parar. A princípio chorou muito, depois, não sabe como, as lágrimas secaram. Certa hora não resistiu mais, abateu-se no chão. Sangrava. Ainda hoje ouve como os soldados riam e como riu aquele homem de colete cinzento que fumava um charuto.

(Jorge Amado. Capitães da areia.)

25. Considere as afirmações seguintes.

I. O fragmento do romance, ambientado na cidade de Salvador das primeiras décadas do século passado, aborda a vida de uma criança em situação de absoluta exclusão social e
violência, o que destoa do projeto literário e ideológico dos escritores brasileiros que compõem a “Geração de 30”.
II. Valendo-se das conquistas do Modernismo, o romance apresenta linguagem fluente e acessível ao grande público, utilizando-se de um português coloquial, simples, próximo a um modo natural de falar, com o largo emprego da frase curta e econômica.
III. Sem-Pernas é uma personagem que, embora encarne um tipo social claramente delimitado, o do menino “pobre, abandonado, aleijado e discriminado”, adquire alguma
profundidade psicológica, à medida que seu passado e suas experiências dolorosas vêm à tona.

Conforme o texto, está correto o que se afirma apenas em

(A) I.   (B) II.   (C) III.   (D) I e II.   (E) II e III.

26. O zigue-zague temporal ligado à vida de Sem-Pernas, empregado no fragmento para a composição da personagem, é construído de maneira muito precisa, por meio da utilização alternada de diversos tempos verbais. Indique a alternativa em que há, respectivamente, um tempo verbal que expressa fatos ocorridos num tempo anterior a outros fatos do passado e um tempo verbal usado para marcar o caráter hipotético de certas ações ou o desejo de que se realizassem.

(A) Vivera na casa de um padeiro (...) – uma mão que o acarinhasse (...)
(B) Em cada canto estava um com uma borracha comprida. – Sofreu fome.
(C) Nunca tivera família. – A perna coxa se recusava a ajudá-lo.
(D) A princípio chorou muito (...) – Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora.
(E) Ele quer um carinho (...) – Um dia levaram-no preso.

27. O emprego da figura de linguagem conhecida como “prosopopeia” (ou “personificação”) põe mais em evidência a principal razão pela qual Sem-Pernas é estigmatizado. O trecho que contém essa figura é

(A) A perna coxa se recusava a ajudá-lo.
(B) Em cada canto estava um com uma borracha comprida.
(C) (...) depois, não sabe como, as lágrimas secaram.
(D) E a borracha zunia nas suas costas (...)
(E) Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora.

Instrução: Leia o texto para responder às questões de números 28 a 30.

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co’os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

(Chico Buarque. Geni e o zepelim.)

28. A partir do início do fragmento selecionado, uma série de versos consecutivos vai caracterizando a personagem Geni numa mesma direção semântica e segundo uma mesma lógica, até que um determinado verso provoca uma ruptura significativa nessa trajetória, criando uma intensa oposição de sentido no poema. Esse verso está transcrito em

(A) Dá-se assim desde menina.
(B) É a rainha dos detentos.
(C) Ela é um poço de bondade.
(D) Joga pedra na Geni.
(E) Ela dá pra qualquer um.

29. Indique a alternativa que identifica corretamente, de modo respectivo, a métrica e a natureza predominante das rimas.

(A) Heptassílabos – rima toante.
(B) Octossílabos – rima toante.
(C) Hexassílabos – rima consoante.
(D) Octossílabos – rima consoante.
(E) Heptassílabos – rima consoante.

30. Indique a alternativa que apresenta a função sintática do verso De tudo que é nego torto.

(A) Adjunto adverbial de modo.   (B) Objeto indireto.
(C) Predicativo do sujeito.            (D) Adjunto adnominal.    (E) Complemento nominal.

 GABARITO

1 – B
2 – A
3 – C
4 – B
5 – D
6 – A
7 – D
8 – C
9 – D
10 – E
11 – E
12 – B
13 – A
14 – C
15 – E
16 – B
17 – D
18 – A
19 – D
20 – C
21 – C
22 – D
23 – B
24 – E
25 – E
26 – A
27 – A
28 – D
29 – E
30 – E