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domingo, 7 de maio de 2017

UNIFESP 2016 – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA

UNIFESP 2016 – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA


Leia o trecho inicial de um artigo do livro Bilhões e bilhões do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan (1934-1996) para responder às questões de 01 a 06.

O tabuleiro de xadrez persa

Segundo o modo como ouvi pela primeira vez a história, aconteceu na Pérsia antiga. Mas podia ter sido na Índia ou até na China. De qualquer forma, aconteceu há muito tempo. O grão-vizir, o principal conselheiro do rei, tinha inventado um novo jogo. Era jogado com peças móveis sobre um tabuleiro quadrado que consistia em 64 quadrados vermelhos e pretos. A peça mais importante era o rei. A segunda peça mais importante era o grão-vizir – exatamente o que se esperaria de um jogo inventado por um grão-vizir. O objetivo era capturar o rei inimigo e, por isso, o jogo era chamado, em persa, shahmat shah para rei, mat para morto. Morte ao rei. Em russo, é ainda chamado shakhmat. Expressão que talvez transmita um remanescente sentimento revolucionário. Até em inglês, há um eco desse nome – o lance final é chamado checkmate (xeque-mate). O jogo, claro, é o xadrez. Ao longo do tempo, as peças, seus movimentos, as regras do jogo, tudo evoluiu. Por exemplo, já não existe um grão-vizir – que se metamorfoseou numa rainha, com poderes muito mais terríveis.
A razão de um rei se deliciar com a invenção de um jogo chamado “Morte ao rei” é um mistério. Mas reza a história que ele ficou tão encantado que mandou o grão-vizir determinar sua própria recompensa por ter criado uma invenção tão magnífica. O grão-vizir tinha a resposta na ponta da língua: era um homem modesto, disse ao xá. Desejava apenas uma recompensa simples. Apontando as oito colunas e as oito filas de quadrados no tabuleiro que tinha inventado, pediu que lhe fosse dado um único grão de trigo no primeiro quadrado, o dobro dessa quantia no segundo, o dobro dessa quantia no terceiro e assim por diante, até que cada quadrado tivesse o seu complemento de trigo. Não, protestou o rei, era uma recompensa demasiado modesta para uma invenção tão importante. Ofereceu joias, dançarinas, palácios. Mas o grão-vizir, com os olhos apropriadamente baixos, recusou todas as ofertas. Só desejava pequenos montes de trigo. Assim, admirando-se secretamente da humildade e comedimento de seu conselheiro, o rei consentiu.
No entanto, quando o mestre do Celeiro Real começou a contar os grãos, o rei se viu diante de uma surpresa desagradável. O número de grãos começa bem pequeno: 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1024... mas quando se chega ao 64o quadrado, o número se torna colossal, esmagador. Na realidade, o número é quase 18,5 quintilhões*. Talvez o grão-vizir estivesse fazendo uma dieta rica em fibras.
Quanto pesam 18,5 quintilhões de grãos de trigo? Se cada grão tivesse o tamanho de um milímetro, todos os grãos juntos pesariam cerca de 75 bilhões de toneladas métricas, o que é muito mais do que poderia ser armazenado nos celeiros do xá. Na verdade, esse número equivale a cerca de 150 anos da produção de trigo mundial no presente. O relato do que aconteceu a seguir não chegou até nós. Se o rei, inadimplente, culpando-se pela falta de atenção nos seus estudos de aritmética, entregou o reino ao vizir, ou se o último experimentou as aflições de um novo jogo chamado vizirmat, não temos o privilégio de saber.

* 1 quintilhão = 1 000 000 000 000 000 000 = 1018. Para se contar esse número a partir de 0 (um número por segundo, dia e noite), seriam necessários 32 bilhões de anos (mais tempo do que a idade do universo).

(Carl Sagan. Bilhões e bilhões, 2008. Adaptado.)

QUESTÃO 01 - Por ser um artigo de divulgação científica, o texto apresenta uma linguagem

(A) técnica e impessoal.      (B) hermética e mal-humorada.
(C) acessível e divertida.     (D) rebuscada e pretensiosa.        (E) inteligível e pedante.

QUESTÃO 02 - No artigo, o recurso à ironia está bem exemplificado em:

(A) “O relato do que aconteceu a seguir não chegou até nós.” (4o parágrafo)
(B) “Quanto pesam 18,5 quintilhões de grãos de trigo?” (4o parágrafo)
(C) “Ao longo do tempo, as peças, seus movimentos, as regras do jogo, tudo evoluiu.” (1o parágrafo)
(D) “Segundo o modo como ouvi pela primeira vez a história, aconteceu na Pérsia antiga.” (1o parágrafo)
(E) “Talvez o grão-vizir estivesse fazendo uma dieta rica em fibras.” (3o parágrafo)

QUESTÃO 03 - O trecho “era um homem modesto, disse ao xá” (2o parágrafo) foi construído em discurso indireto. Ao se adaptar tal trecho para o discurso direto, o verbo “era” assume a seguinte forma:

(A) serei. (B) fui. (C) seria. (D) fosse. (E) sou.

QUESTÃO 04 - Assinale a alternativa cujo excerto se afasta da lógica exposta pela fábula do tabuleiro de xadrez persa.

(A) “No presente, o tempo de duplicação da população mundial é de cerca de quarenta anos. A cada quarenta anos haverá o dobro de seres humanos. Como o clérigo inglês Thomas Malthus apontou em 1798, uma população que cresce exponencialmente – Malthus a descreveu como uma progressão geométrica – vai superar qualquer aumento concebível de alimentos.”
(B) “No momento, em muitos países o número de pessoas com sintomas de aids está crescendo exponencialmente. O tempo de duplicação é mais ou menos de um ano. Isto é, a cada ano há duas vezes mais casos de aids do que havia no ano anterior. Essa doença já nos cobrou um tributo desastroso em mortes.”
(C) “Vamos considerar primeiro o simples caso de uma bactéria que se reproduz dividindo-se em duas. Depois de certo tempo, cada uma das duas bactérias filhas também se divide. Desde que exista bastante alimento e não haja nenhum veneno no ambiente, a colônia de bactérias vai crescer exponencialmente.”
(D) “A população da Terra na época de Jesus consistia talvez em 250 milhões de pessoas. Existem 93 milhões de milhas (150 milhões de quilômetros) da Terra até o Sol. Aproximadamente 40 milhões de pessoas foram mortas na Primeira Guerra Mundial; 60 milhões na Segunda Guerra Mundial. Há 31,7 milhões de segundos num ano (como é bastante fácil verificar).”
(E) “Atualmente, há cerca de 6 bilhões de humanos. Em quarenta anos, se o tempo de duplicação continuar constante, haverá 12 bilhões; em oitenta anos, 24 bilhões; em cento e vinte anos, 48 bilhões... Mas poucos acreditam que a Terra possa suportar tanta gente.”

QUESTÃO 05 - O eufemismo (do grego euphemismós, que significava “emprego de uma palavra favorável no lugar de uma de mau augúrio”, vocábulo formado de eu, “bem” + femi, “dizer, falar”, designando, pois, “o ato de falar de uma maneira agradável”) é a figura de retórica em que há uma diminuição da intensidade semântica, com a utilização de uma expressão atenuada para dizer alguma coisa desagradável.

(José Luiz Fiorin. Figuras de retórica, 2014. Adaptado.)

Verifica-se a ocorrência desse recurso no seguinte trecho:

(A) “se o último experimentou as aflições de um novo jogo chamado vizirmat” (4o parágrafo).
(B) “O número de grãos começa bem pequeno” (3o parágrafo).
(C) “pediu que lhe fosse dado um único grão de trigo no primeiro quadrado” (2o parágrafo).
(D) “De qualquer forma, aconteceu há muito tempo” (1o parágrafo).
(E) “admirando-se secretamente da humildade e comedimento de seu conselheiro” (2o parágrafo).

QUESTÃO 06 - Considerado em seu contexto, o trecho “A razão de um rei se deliciar com a invenção de um jogo chamado ‘Morte ao rei’ é um mistério.” (2o parágrafo) sugere que

(A) o caráter misterioso das regras do xadrez decorre de sua ligação com a esfera política.
(B) a satisfação do rei com um jogo que visa sua morte é algo difícil de ser explicado.
(C) a alusão à morte presente no nome do jogo não foi compreendida pelo rei.
(D) as origens do jogo de xadrez ainda precisam ser esclarecidas.
(E) o próprio rei parecia desconhecer o funcionamento do jogo de xadrez.

Leia o soneto do poeta Luís Vaz de Camões (1525?-1580) para responder às questões de 07 a 09.

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”.

(Luís Vaz de Camões. Sonetos, 2001.)

QUESTÃO 07 - De acordo com a história narrada pelo soneto,

(A) Labão engana Jacob, entregando-lhe a filha Lia, em vez de Raquel.
(B) Labão aceita ceder Lia a Jacob, se este lhe entregar Raquel.
(C) Labão obriga Jacob a trabalhar mais sete anos para obter o amor de Lia.
(D) Jacob descumpre o acordo feito com Labão, negando-lhe a filha Raquel.
(E) Jacob morre antes de completar os sete anos de trabalho, não obtendo o amor de Raquel.

QUESTÃO 08 - Uma das principais figuras exploradas por Camões em sua poesia é a antítese. Neste soneto, tal figura ocorre no verso:

(A) “mas não servia ao pai, servia a ela,”
(B) “passava, contentando-se com vê-la;”
(C) “para tão longo amor tão curta a vida.”
(D) “porém o pai, usando de cautela,”
(E) “lhe fora assi negada a sua pastora,”

QUESTÃO 09 - Do ponto de vista formal, o tipo de verso e o esquema de rimas que caracterizam este soneto camoniano são, respectivamente,

(A) dodecassílabo e ABAB ABAB ABC ABC.
(B) decassílabo e ABAB ABAB CDC DCD.
(C) heptassílabo e ABBA ABBA CDE CDE.
(D) decassílabo e ABBA ABBA CDE CDE.
(E) dodecassílabo e ABBA ABBA CDE CDE.

Leia o excerto do “Sermão de Santo Antônio aos peixes” de Antônio Vieira (1608-1697) para responder às questões de 10 a 15.

A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. [...] Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens. Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros, muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas: vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer, e como se hão de comer. [...]
Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem, e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo se devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres é que, para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão cotidiano dos grandes: e assim como pão se come com tudo, assim com tudo, e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis. Parece-vos bem isto, peixes?

(Antônio Vieira. Essencial, 2011.)

QUESTÃO 10 - No sermão, Vieira critica

(A) a preguiça desmesurada dos miseráveis.
(B) a falta de ambição dos miseráveis.
(C) a ganância excessiva dos poderosos.
(D) o excesso de humildade dos miseráveis.
(E) o excesso de vaidade dos poderosos.

QUESTÃO 11 - Condizente com o teor do sermão está o conteúdo do seguinte provérbio:

(A) “A tolerância é a virtude do fraco.”
(B) “O homem é o lobo do homem.”
(C) “Ao homem ousado, a fortuna lhe dá a mão.”
(D) “A fome é a companheira do homem ocioso.”
(E) “Quem tem ofício, não morre de fome.”

QUESTÃO 12 - O primeiro parágrafo permite identificar o lugar em que o pregador profere seu sermão, a saber,

(A) o mar. (B) o sertão. (C) a floresta. (D) a aldeia. (E) a cidade.

QUESTÃO 13 - Em “Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros, muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos.” (1o parágrafo), os termos em destaque foram empregados, respectivamente, em sentido

(A) literal, figurado e figurado. (B) figurado, figurado e literal.
(C) literal, literal e figurado.      (D) figurado, literal e figurado. (E) literal, figurado e literal.

QUESTÃO 14 - “Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.” (1o parágrafo) Nas duas ocorrências, o termo “para” estabelece relação de

(A) consequência. (B) conformidade. (C) proporção. (D) finalidade. (E) causa.

QUESTÃO 15 - “Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe” (2o parágrafo) Reescrito em ordem direta, tal trecho assume a seguinte forma:

(A) Deus diz que os homens, senão declaradamente a sua plebe, comem não só o seu povo.
(B) Diz Deus que os homens comem não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe.
(C) Deus diz que os homens comem não só o seu povo, senão a sua plebe declaradamente.
(D) Os homens comem não só o seu povo, senão a sua plebe declaradamente, diz Deus.
(E) Os homens comem não só o seu povo, diz Deus, senão declaradamente a sua plebe.

QUESTÃO 16 - Assinale a alternativa na qual se pode detectar nos versos do poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) uma ruptura com a convenção arcádica do locus amoenus (“lugar aprazível”).

(A) “Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?”
(B) “O ledo passarinho que gorjeia
Da alma exprimindo a cândida ternura,
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:”
(C) “Se é doce no recente, ameno Estio
Ver tocar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias e os verdores,
Mole e queixoso deslizar-se o rio;”
(D) “A loira Fílis na estação das flores,
Comigo passeou por este prado
Mil vezes; por sinal, trazia ao lado
As Graças, os Prazeres e os Amores.”
(E) “Já sobre o coche de ébano estrelado,
Deu meio giro a Noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!”

QUESTÃO 17
(Pedro Américo. Tiradentes esquartejado,1893. Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora.)

A conhecida pintura de Pedro Américo (1840-1905) remete a um fato histórico relacionado à seguinte escola literária brasileira:

(A) Barroco. (B) Arcadismo. (C) Naturalismo. (D) Realismo. (E) Romantismo.

As questões 18 e 19 focalizam uma passagem da comédia O juiz de paz da roça do escritor Martins Pena (1815-1848).

JUIZ (assentando-se): Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.
ESCRIVÃO (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher”.
JUIZ: É verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
JOSÉ DA SILVA: É verdade; porém o filho me pertence, pois é meu, que é do cavalo.
JUIZ: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é aqui da mulher do senhor.
JOSÉ DA SILVA: Mas, Sr. Juiz...
JUIZ: Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão, cadeia.

(Martins Pena. Comédias (1833-1844), 2007.)

QUESTÃO 18 - O efeito cômico produzido pela leitura do requerimento decorre, principalmente, do seguinte fenômeno ou procedimento linguístico:

(A) paródia. (B) intertextualidade. (C) ambiguidade. (D) paráfrase. (E) sinonímia.

QUESTÃO 19 - O emprego das aspas no interior da fala do escrivão indica que tal trecho

(A) reproduz a solicitação de Francisco Antônio.
(B) recorre a jargão próprio da área jurídica.
(C) reproduz a fala da mulher de Francisco Antônio.
(D) é desacreditado pelo próprio escrivão.
(E) deve ser interpretado em chave irônica.

QUESTÃO 20 - O que primeiro chama a atenção do crítico na ficção deste escritor é a despreocupação com as modas dominantes e o aparente arcaísmo da técnica. Num momento em que Gustave Flaubert sistematizara a teoria do “romance que narra a si próprio”, apagando o narrador atrás da objetividade da narrativa; num momento em que Émile Zola preconizava o inventário maciço da realidade, observada nos menores detalhes, ele cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa com bisbilhotice saborosa. A sua técnica consiste essencialmente em sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida (como os ironistas do século XVIII); ou em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos fatos e a sua anormalidade essencial; ou em sugerir, sob aparência do contrário, que o ato excepcional é normal, e anormal seria o ato corriqueiro. Aí está o motivo da sua modernidade, apesar do seu arcaísmo de superfície.

(Antonio Candido. Vários escritos, 2004. Adaptado.)

O comentário do crítico Antonio Candido refere-se ao escritor

(A) Machado de Assis.                   (B) José de Alencar.
(C) Manuel Antônio de Almeida.  (D) Aluísio Azevedo.   (E) Euclides da Cunha.

QUESTÃO 21
(Bill Watterson. O mundo é mágico: as aventuras de Calvin & Haroldo, 2007. Adaptado.)

Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas da tira.

(A) Por que – à – a – porquê
(B) Porquê – a – a – por que
(C) Por que – à – à – porque
(D) Por quê – à – à – porque
(E) Por quê – a – a – porque

QUESTÃO 22 - O Simbolismo é, antes de tudo, antipositivista, antinaturalista e anticientificista. Com esse movimento, nota-se o despontar de uma poesia nova, que ressuscitava o culto do vago em substituição ao culto da forma e do descritivo.

(Massaud Moisés. A literatura portuguesa, 1994. Adaptado.)

Considerando esta breve caracterização, assinale a alternativa em que se verifica o trecho de um poema simbolista.

(A) “É um velho paredão, todo gretado,
Roto e negro, a que o tempo uma oferenda
Deixou num cacto em flor ensanguentado
E num pouco de musgo em cada fenda.”
(B) “Erguido em negro mármor luzidio,
Portas fechadas, num mistério enorme,
Numa terra de reis, mudo e sombrio,
Sono de lendas um palácio dorme.”
(C) “Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.”
(D) “Sobre um trono de mármore sombrio,
Num templo escuro e ermo e abandonado,
Triste como o silêncio e inda mais frio,
Um ídolo de gesso está sentado.”
(E) “Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...”

QUESTÃO 23 - O mundo dessa pintura, como o dos sonhos, é ao mesmo tempo familiar e desconhecido: familiar, em razão do estilo minuciosamente realista, que permite ao espectador o reconhecimento de uma figura ou de um objeto pintados; desconhecido, por causa da estranheza dos contextos em que eles aparecem, como num sonho.

(Fiona Bradley. Surrealismo, 2001. Adaptado.)

O comentário da historiadora de arte aplica-se à pintura reproduzida em:
   
A) 

B) 


C) 

D) 


E) 


QUESTÃO 24 - Uma análise mais atenta do livro mostra que ele foi construído a partir da combinação de uma infinidade de textos preexistentes, elaborados pela tradição oral ou escrita, popular ou erudita, europeia ou brasileira. A originalidade estrutural deriva, deste modo, do fato de o livro não se basear na mímesis, isto é, na dependência constante que a arte estabelece entre o mundo objetivo e a ficção; mas em ligar-se quase
sempre a outros mundos imaginários, a sistemas fechados de sinais, já regidos por significação autônoma. Esse processo, parasitário na aparência, é no entanto curiosamente inventivo; pois, em vez de recortar com neutralidade nos entrechos originais as partes de que necessita para reagrupá-las, intactas, numa ordem nova, atua quase sempre sobre cada fragmento, alterando-o em profundidade.

(Gilda de Mello e Souza. O tupi e o alaúde, 1979. Adaptado.)

Tal comentário aplica-se ao livro

(A) A cidade e as serras, de Eça de Queirós.
(B) Macunaíma, de Mário de Andrade.
(C) Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.
(D) Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
(E) Iracema, de José de Alencar.

Leia o excerto da crônica “Mineirinho” de Clarice Lispector (1925-1977), publicada na revista Senhor em 1962, para responder às questões de 25 a 30.

É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora1. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho2 do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.
Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpoe vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver.

(Clarice Lispector. Para não esquecer, 1999.)

1 facínora: diz-se de ou indivíduo que executa um crime com crueldade ou perversidade acentuada.
2 Mineirinho: apelido pelo qual era conhecido o criminoso carioca José Miranda Rosa. Acuado pela polícia, acabou crivado de balas e seu corpo foi encontrado à margem da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

QUESTÃO 25 - O tom predominante no texto é de

(A) resignação. (B) ironia. (C) melancolia. (D) indignação. (E) luto.

QUESTÃO 26 - Depreende-se da leitura do primeiro parágrafo que

(A) a cronista compartilha com sua cozinheira a dificuldade de conciliar sentimentos contrários em relação à morte de um criminoso.
(B) a cozinheira se sente incomodada com a pergunta da cronista porque acredita piamente na inocência de Mineirinho.
(C) a cronista se sente desconfortável com o fato de sua cozinheira mostrar-se dividida em relação à morte de um criminoso.
(D) a cronista provoca gratuitamente sua cozinheira com a intenção de impor seu ponto de vista sobre a morte de Mineirinho.
(E) a cronista se mostra perplexa diante da opinião de sua cozinheira de que um criminoso iria para o céu.

QUESTÃO 27 - Em “Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto” (1o parágrafo), o termo em destaque constitui

(A) um pronome. (B) uma conjunção.
(C) um advérbio. (D) um artigo. (E) uma preposição.

QUESTÃO 28 - A gradação presente no terceiro parágrafo tem a função de

(A) justificar a necessidade da violência policial.
(B) ressaltar a desproporção da ação policial.
(C) enfatizar a legitimidade da justiça humana.
(D) realçar o caráter vingativo da justiça divina.
(E) ironizar o mandamento “Não matarás”.

QUESTÃO 29 - “O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro.” (3o parágrafo)
Em relação à oração que a precede, a oração destacada tem sentido de

(A) consequência. (B) conclusão. (C) alternância.  (D) causa. (E) finalidade.

QUESTÃO 30 - “Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde  demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem.” (4o parágrafo)

Os termos “a esse” e “nos” constituem, respectivamente,

(A) objeto indireto e objeto direto.
(B) objeto indireto e objeto indireto.
(C) objeto direto preposicionado e objeto direto.
(D) objeto direto preposicionado e objeto indireto.
(E) objeto direto e objeto indireto.


GABARITO:

1 - C 2 - E 3 - E 4 - D 5 - A 6 - B 7 - A 8 - C 9 - D 10 - C 11 - B 12 - E 13 - A 14 - D
15 - C 16 - E 17 - B 18 - C 19 - A 20 - A 21 - D 22 - E 23 - C 24 - B 25 - D 26 – A
27 - E 28 - B 29 - D 30

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