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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Texto: “Encontro com Bandeira” – Affonso Romano de Sant'Anna

Encontro com Bandeira

Eu tinha uns 17 anos. E Manuel Bandeira era, então, considerado o maior poeta do país. E com 17 anos é não só desculpável, mas aconselhável que as pessoas façam a catarse de seus sentimentos em forma de versos. Os reincidentes, é claro, continuam vida afora e podem pelos versos chegar à poesia.
Morando numa cidade do interior, eu olhava o Rio de Janeiro onde resplandecia a glória literária de alguns mitos daquela época. Então fiz como muito adolescente faz: juntei os meus versos, saí com eles debaixo do braço e fui mostrá-los a Bandeira e Drummond. 
Toda vez que, hoje em dia, algum poeta iniciante me procura, me lembro do que se passou comigo em relação a Manuel Bandeira. Para alguns tenho narrado o fato como algo, talvez, pedagógico. Se todo autor quer ver sua obra lida e divulgada, o jovem tem urna ansiedade específica. Ele não dispõe de editoras, e, ainda ninguém, precisa do aval do outro para se entender. E espera que o outro lhe abra o caminho e reconheça seu talento.
Ser jovem é muito dificultoso.
O fato foi que meu irmão Carlos, no Rio, conseguiu um encontro nosso com Bandeira. E um dia desembarco nesta cidade pela primeira vez, pela primeira vez vendo o mar, pela primeira vez cara a cara com os poetões da época.
Encurtarei a estória. De repente, estou subindo num elevador ali na Av. Beira-Mar, onde morava Bandeira. Eu havia trazido um livro com centenas de poemas, que um amigo encadernou. Naquela época escrevia muito, trezentos e tantos poemas por ano. E não entendia por que Bandeira ou Drummond levavam cinco anos para publicar um livrinho com quarenta e tantos poeminhas. A necessidade de escrever era tal, que dormia com papel e lápis ao lado da cama ou, às vezes, com a própria máquina de escrever. Assim, quando a poesia baixava nos lençóis adolescentes, bastava pôr os braços para fora e registrar. E assim podia dormir aliviado.
Mas o poeta havia pedido aos intermediários que eu fizesse urna seleção dos textos. O que era justo. E Bandeira tinha sempre urna exigência: o estreante deveria trazer algum poema com rima e métrica, um soneto, por exemplo. Era urna maneira de ver se o candidato havia feito opção pelo verso livre por incompetência ou com conhecimento de causa.
Abriu-se a porta do apartamento. Eu nunca tinha estado em apartamento de escritor. A rigor não posso nem garantir se havia visto algum escritor de verdade assim tão perto, e não estava em condições emocionais de reparar em nada. Fingia urna tensa naturalidade mineira. O irmão mais velho ali ao lado para garantir.
A conversa foi curta. Tudo não deve ter passado de dez ou quinze minutos. Me lembro que Bandeira estava preparando um café ou chá e nos ofereceu. Havia urna outra pessoa, um vulto cinza por ali, com o qual conversava quando chegamos. Bandeira se levantava de vez em quando para pegar urna coisa ou outra. E tossia. Tossia, talvez já profissionalmente, corno tuberculoso convicto.
Lá pelas tantas, ele disse: pode deixar aí os seus versos. Não precisa deixar todos, escolha os melhores. Vou ler. Se não forem bons, eu digo, hein?!
- Claro, é isso que eu quero respondi juvenilmente, certo de que ele ia acabar gostando.
Voltei para Juiz de Fora. Acho que não esperava que o poeta respondesse. Um dia chega uma carta. Envelope fino, papel de seda, umas dez linhas. Começava assim:
"Achei muito ruins os teus versos". A seguir citava uns três poemas melhores e os versos finais do "Poema aos poemas que ainda não foram escritos". Oh! Gratificação!
Ele copiara com sua letra aqueles versos: "saber que os poemas que ainda não foram escritos virão como o parente longínquo, como a noite e como a morte". Não fiquei triste ou chocado com sua crítica sincera. Olhei as bananeiras do quintal vizinho com um certo suspiro esperançoso. Levantei-me, saí andando pela casa, com um ar de parvo feliz. Eu havia feito quatro versos que agradaram ao poeta grande.
A poesia, então, era possível.

(Affonso Romano de Sant'Anna)


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TEMA DE REDAÇÃO – FATEC 2012 – 1º Semestre

TEMA DE REDAÇÃO – FATEC 2012 – 1º Semestre



É consenso pensar em network como uma rede de relações sociais, no mundo virtual ou real, que favorece  o auxílio mútuo entre pessoas que sejam amigas. Essas redes sociais promovem o apoio mútuo para a ascensão no trabalho, para o acesso a espaços de lazer e para a solução de problemas diversos do  cotidiano.
Os textos I e II, abaixo apresentados, trazem reflexões sobre o papel da amizade fora das redes virtuais.  São ideias antigas que podem ser lidas nesta nova era da Internet.

Texto I

Muitas pessoas, por ausência de discernimento, para não dizer por imprudência, querem ter um amigo tal como não saberiam ser elas próprias: gostariam de receber de seus amigos o que não lhes dão. [...] É, portanto, um erro pernicioso de certas pessoas imaginar que em amizade a porta está aberta a todos os abusos e a todos os atos indignos: a amizade nos foi dada pela natureza como auxiliar de nossas virtudes, não
como cúmplice de nossos vícios, a fim de que a virtude, não podendo alcançar sozinha o soberano bem, o alcance ligada e apoiada na virtude de outrem

(Cícero, Marco túlio. A amizade. Porto Alegre: L&PM, 2002. Adaptado)

Texto II

A amizade é um contrato pelo qual nos comprometemos a prestar pequenos serviços a alguém a fim de que ele nos preste grandes serviços futuramente.

(Montesquieu. Apud Dicionário Universal de Citações. São Paulo: Círculo do Livro, 1985. Adaptado)

PROPOSTA

Elabore uma redação dissertativa sobre a relação entre a amizade e o papel das redes sociais na vida moderna.

Instruções:

1. Selecione, organize e relacione argumentos, fatos e opiniões para sustentar suas ideias e pontos de vista.
2. Não copie os textos dados.
3. empregue em seu texto apenas a variedade culta da língua portuguesa.
4. Não redija o texto em versos; organize-o em parágrafos.
5. Dê um título a seu texto.
6. A versão definitiva da redação deve ser apresentada em folha específica e a tinta.

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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TEMA DE REDAÇÃO – FATEC 2012 – 2º Semestre

TEMA DE REDAÇÃO – FATEC 2012 – 2º Semestre



     Dizem que estar zen é criar um espaço de equilíbrio entre corpo e mente de tal modo que aflorem atitudes positivas. Quando empregamos a palavra zen, evocamos a ideia de transcendência à própria existência, ao próprio sofrimento, à própria condição, enfim.
     Tornar o cotidiano mais leve com atitudes de tolerância e de busca pela harmonia pode ser considerada uma atitude zen.

Leia os textos a seguir e reflita sobre a concepção de zen.

Texto I

Ser zen é ser livre e saber os seus limites. É servir, cuidar, respeitar, compartilhar. Ser zen é está envolvido nos problemas da cidade, da rua, da comunidade. É oferecer soluções, ter criatividade. Ser zen é fluir com o fluir da vida.

(Monja Cohen. Disponível em ttp://www.humaniversidade.com.br/boletins/ser_zen.htm Acesso em: 12.05.2012. Adaptado.)

Texto II

Em qualquer lugar do mundo, a solução para valorizar um espaço geográfico seria a transferência do povo pobre para que megaprojetos se instalassem. Em Londres, a história não foi essa. Prédios e casas centenárias foram mantidos e convivem harmonicamente com os prédios luxuosos que lá foram erigidos. Na verdade, a comunidade local participou do projeto de implantação, inclusive não concordando com o projeto previsto para o local pelo empreendedor original. Não saiu, ficou! Não perdeu, ganhou! O bairro valorizou. Boa parte do conteúdo do projeto está relacionada ao impacto social do empreendimento. É interessante ressaltar que as dimensões das edificações foram pensadas de tal forma a não agredir os moradores locais e para tanto foram projetadas diversas escalas de prédio a partir do mais baixo, o dos locais, até o espigão do empreendimento, passando por prédios de alturas intermediárias, exatamente uma curva de Gauss.

(KLAVDIANOS, Dionyzio. Disponível em http://paraconstruir.wordpress.com/2012/03/22/viagem-a-londres-convivencia-harmonica/ Acesso em: 02.04.2012. Adaptado.)

Texto III

Um torcedor do Palmeiras foi morto na noite de domingo durante uma briga entre integrantes das torcidas Mancha Alviverde e Gaviões da Fiel. Ele foi baleado na cabeça e encaminhado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos, que provocaram perda de massa encefálica. O conflito, envolvendo cerca de 300 torcedores do Palmeiras e do Corinthians, ocorreu na zona norte da capital paulista, bem antes do clássico entre as duas equipes e distante do local do jogo, o Pacaembu, na zona oeste. Para o promotor Thales César de Oliveira, coordenador do Plano de Ação de Jogos de Futebol do Ministério Público Estadual, trata-se de uma questão de intolerância. “A nossa sociedade é, muitas vezes, intolerante com a diversidade, com opções diferentes das suas e, no futebol, isso é potencializado pela paixão que a pessoa tem, não necessariamente pelo time pelo qual torce, mas pela torcida organizada.”

(MOREIRA, Marli. Disponível em http://noticias.br.msn.com/ Acesso em: 02.04.2012. Adaptado.)

PROPOSTA

Com base nas ideias dos textos apresentados e na concepção de zen, redija um texto dissertativo sobre o seguinte tema:

Ações tolerantes, construção de uma nova sociedade.

Instruções:

1. Selecione, organize e relacione argumentos, fatos e opiniões para sustentar suas ideias e pontos de vista.
2. Não copie os textos dados.
3. Empregue em seu texto apenas a variedade culta da língua portuguesa.
4. Não redija o texto em versos; organize-o em parágrafos.
5. Dê um título a seu texto.
6. A versão definitiva da redação deve ser apresentada em folha específica e a tinta.


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TEMA DE REDAÇÃO – FATEC 2013

TEMA DE REDAÇÃO – FATEC 2013


Leia o texto, a seguir, que servirá de base para sua redação.

Robôs versus humanos

Na fábrica da Philips, na costa chinesa, centenas de operários usam as mãos e ferramentas especializadas para montar barbeadores elétricos. Esse é o modo antigo de trabalhar.
Numa fábrica da mesma empresa em Drachten, na Holanda, 128 braços robóticos realizam o mesmo trabalho com flexibilidade digna de iogues*. Câmeras de vídeo os guiam para realizar façanhas que superam a capacidade do humano mais hábil que exista.
Trabalhando sem parar, um braço robótico forma três dobras perfeitas em dois fios conectores e os insere em furos tão pequenos que são quase invisíveis. Os braços trabalham tão rapidamente que precisam ficar fechados em gaiolas de vidro para que as pessoas que os supervisionam não se machuquem. E eles fazem tudo isso sem uma pausa para tomar um café, trabalhando três turnos por dia, 365 dias por ano.
A fábrica holandesa tem ao todo algumas dezenas de operários humanos por turno – mais ou menos um décimo do número visto na fábrica chinesa.
Isso é o futuro. Uma nova onda de robôs, muito mais sofisticados que os robôs já empregados hoje por montadoras de automóveis e por outros setores manufatureiros pesados, está substituindo trabalhadores humanos em todo o mundo.
Fábricas, como a da Holanda, formam um contraponto marcante com as fábricas e empresas gigantes de eletrônicos que empregam, em busca de baixo custo, centenas de milhares de operários pouco qualificados.
“Com estas máquinas, podemos produzir qualquer eletrônico de consumo do mundo”, disse Binne Visser, gerente da linha de montagem da Philips em Drachten.

(John Markoff, The New York Times, publicado pela Folha de S. Paulo em 27.08.2012. Adaptado)

*iogue: praticante de ioga

Fazendo uma reflexão sobre o atual mundo do trabalho, redija um texto dissertativo sobre o tema:

Adequação do perfil dos profissionais a um mercado de trabalho que vem sendo, gradualmente, ocupado por robôs.

Instruções:

1. Selecione, organize e relacione argumentos, fatos e opiniões para sustentar suas ideias e pontos de vista.
2. Não copie o texto dado.
3. Empregue em seu texto apenas a variedade culta da língua portuguesa.
4. Não redija o texto em versos; organize-o em parágrafos.
5. Dê um título a seu texto.
6. A versão definitiva da redação deve ser apresentada em folha específica e a tinta.


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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Tema de Redação – FGV – 2011 – Economia – 2º fase

Tema de Redação – FGV – 2011 – Economia – 2º fase





REDAÇÃO

Instrução: Leia os textos e reflita sobre as questões por eles suscitadas.

Texto 1

Neste cenário de extrema mobilidade das configurações familiares, novas formas de convívio vêm sendo improvisadas em torno da necessidade – que não se alterou – de criar os filhos, frutos de uniões amorosas temporárias, não importa que se trate de uma mãe solteira com seu único filho ou de uma família resultante de três uniões desfeitas e refeitas, com meia dúzia de filhos vindos de uniões anteriores de ambos os cônjuges, ou ainda de um par homossexual que conseguiu adotar legalmente uma criança. Seja como for, cabem aos adultos que assumiram o encargo das crianças o risco e a responsabilidade de educá-las.
Deste lugar mal sustentado, é possível também que os adultos não compreendam no que consiste sua única e radical diferença em relação às crianças e adolescentes, que é a única ancoragem possível da autoridade parental no contexto contemporâneo. Esta é, exatamente, a diferença dos lugares geracionais. É porque os pais ocupam, desde o lugar da geração adulta, as funções de pai e mãe (seja qual for o grau de parentesco que mantenham com as crianças que lhes cabe educar) que eles estão socialmente autorizados a mandar nessas crianças.
Educar, no contexto contemporâneo, é assumir riscos ante a geração seguinte. É claro que, na adolescência dos filhos, os riscos assumidos pelos pais serão cobrados – mais uma vez, nem sempre de forma justa. Mas é possível responder à cobrança adolescente a partir do lugar da responsabilidade: “eu assumi o encargo de cuidar de você e te educar; prefiro correr o risco de errar do que te abandonar”. Este enunciado fundamenta-se no desejo de paternidade ou de maternidade. No limite, o adulto está dizendo: “eu assumo educar você porque eu quis ser seu pai (ou mãe, etc.)”.
Fora isso, sabemos que todos os “papéis” dos agentes familiares são substituíveis – por isso é que os chamamos de papéis. O que é insubstituível é um olhar de adulto sobre a criança, a um só tempo amoroso e responsável, desejante de que esta criança exista e seja feliz na medida do possível – mas não a qualquer preço. Insubstituível é o desejo do adulto que confere um lugar a este pequeno ser, concomitante com a responsabilidade que impõe os limites deste lugar. Isto é que é necessário para que a família contemporânea, com todos os seus tentáculos esquisitos, possa transmitir parâmetros éticos para as novas gerações.

(www.mariaritakehl.psc.br/agenda.php. Adaptado.)

Texto 2

De posse de currículo envernizado por carimbos de boas universidades e em meio a uma carreira que, não raro, segue trajetória ascendente, um grupo de mulheres brasileiras tem chamado atenção por uma recente e radical mudança de comportamento. 
Na contramão de suas antecessoras, que lutaram por décadas para fincar espaço num universo eminentemente masculino, elas estão hoje abdicando do trabalho para cuidar única e exclusivamente dos filhos – opção não livre de conflitos, mas que boa parte delas descreve como “libertadora”.

(Veja, 14.07.2010.)

A partir do conteúdo dos textos reproduzidos e obedecendo às regras da norma-padrão da língua portuguesa, escreva uma redação de gênero disssertativo sobre o tema:

Os desafios da educação dos filhos diante do quadro social contemporâneo


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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Texto: “O médico e o monstro” – Paulo Mendes Campos

O médico e o monstro

Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo, grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinha um estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhe passa.
O avental na verdade é uma camisa de homem adulto a bater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por sua irmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhos cerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome de Rosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem duma caixinha de brinquedos.
 Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquanto trabalham, a enfermeira presta informações:
 – Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nem de vitamina, mas a irmãzinha dela adora. 
O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da boca de Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá. Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médico apanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca uma receita, enquanto a enfermeira continua: 
– O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar de qualquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vai ficar muito magrinha que até o vento carrega. 
 O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em torno do pescoço da boneca, diagnosticando: 
– Mordida de leão.
– Mordida de leão? – pergunta, desapontada, a enfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro do outro faz-de-conta. – Eu já disse tanto, meu Deus, para essa garota não ir na floresta brincar com Chapeuzinho Vermelho...
Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana de acarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve, um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas de vários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e até mesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira. 
De repente, o médico diz que está com sede e corre para a cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor de filho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas: tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. O famoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidável droga.
– Tem de tomar, senão quem acaba no médico é você mesmo, doutor.
 Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copo é levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provada com uma careta. Em seguida, propõe um trato: 
– Só se você depois me der um sorvete.
A terrível mistura é sorvida com dificuldade e repugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgo devolve o restinho. A operação durou um quarto de hora.
A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória e aplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada com a ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como não podia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médico em monstro. 
Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental são atirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigo médico resta um lindo bigode azul. De máscara preta e espada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeira continua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo o consultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa, termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo se derrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror e começa a chorar nervosamente. O monstro, exultante, espeta-lhe a espada na barriga e brada:
– Eu sou o Demônio do Deserto! 
Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escura do mal, desatento a qualquer autoridade materna ou paterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhando terror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divã massacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir no ouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que se despenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o doce derramado, a torneira inundando o banheiro, a revista nova dilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dum apartamento carioca. 
Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante, senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura que conte uma história ou lhe compre um carneirinho de verdade.
E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num lar ameaçado pelas forças do mal.

(Paulo Mendes Campos)