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segunda-feira, 28 de maio de 2012

António Nobre - Poemas

ANTÓNIO NOBRE

Vovó contando histórias. Ilustração de Gustave Doré.

Continua a tempestade

Aqui, sobre estas águas cor de azeite,
Cismo em meu lar, na paz que lá havia:
Carlota, à noite, ia ver se eu dormia
E vinha, de manhã, trazer-me o leite...

Aqui, não tenho um único deleite!
Talvez... baixando, em breve, à água fria,
Sem um beijo, sem uma Ave-Maria,
Sem uma flor, sem o menor enfeite...

Ah! Pudesse eu voltar à minha infância!
Lar adorado, em fumos, a distância,
Ao pé de minha irmã, vendo-a bordar...

Minha velha aia! Conta-me essa história
Que principiava, tenho-a na memória,
«Era uma vez...» Ah... deixem-me chorar!

(António Nobre)

Desobriga

Os meus pecados, Anjo! Os meus pecados!
Contar-tos para quê, se não têm fim?
Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
Mas tu és mais que santa ao pé de mim.

A ti acendo sírios perfumados,
Faço novenas, queimo-te alecrim,
Quando sofro, me vejo com cuidados…
Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

Que eu seja puro de alma e pensamento!
E que, em dia do grande Julgamento,
Minhas culpas não sejam de maior:

Pois tenho (que o Céu aponta e marca)
Um processo a correr nessa comarca,
Cujo delegado é Nosso Senhor…

(António Nobre)

O meu condado

No campo azul da alada fantasia
Edifiquei outr'ora, por meu mal,
Castelos de oiro, esmalte e pedraria,
Torres de lápis-lazúli e coral.

N'uma extensão de léguas, não havia
Quem possuísse outro domínio igual:
Tão belo, assim tão belo, parecia,
O território de um senhor feudal...

Um dia (não sei quando, nem sei d'onde),
Um vento agreste de indiferença e spleen
Lançou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado - o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso conde,
N'aquela idade em que é conde assim...

(António Nobre)

Sê de pedra

Não reparaste nunca? Pela aldeia,
Nos fios telegráficos da estrada,
Cantam as aves, desde que o sol nada,
E, à noite, se faz sol a luz cheia...

No entanto, pelo arame que as tonteia,
Quanta tortura vai, n´uma ânsia alada!
O ministro que joga uma cartada,
Alma que, às vezes, d´além-mar anseia:

—Revolução — Inútil. — Cem feridos,
Setenta mortos. — Beijo-te! — Perdidos!
—Enfim, feliz! —! — Desesperado. — Vem!

E as lindas aves, bem se importam elas!
Continuam cantando, tagarelas:
Assim, António, deves ser também. 

(António Nobre)

Paz

E a vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!

Mas a arte, o lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do Além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição.

Toda a dor pode suportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva...essa que traz.

Mas uma não: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da morte e que se chama A PAZ!

(António Nobre, in “Só”)

"A morte de Ofélia". John Everett Millais.
Enterro de Ofélia

Morreu. Vai a dormir, vai a sonhar... Deixá-la!
(Falai baixinho: agora mesmo se ficou...)
Como Padres orando, os choupos formam ala,
Nas margens do ribeiro onde ela se afogou.

Toda de branco vai, nesse hábito de opala
Para um convento: não o que Hamlet lhe indicou,
Mas para um outro, olhai! que tem por nome "Vala",
De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!

O doce Pôr-do-Sol, que era doido por ela,
Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela...

Como damas de honor, Ninfas seguem-lhe os rastros,
E, assomando no Céu, sua Madrinha, a Lua,
Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!

(António Nobre)

Soneto

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!

Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.

(António Nobre)

Elegia

Ó virgens que passais, ao sol poente,
Pelas estradas ermas, a cantar:
Eu quero ouvir uma canção ardente
Que me recorde as afeições do lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O sol que tomba, aureolando o mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

Cantai, cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desenterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me n´essa voz...  Cantai!

(António Nobre)

"A jovem mártir". 1855. Paul Delaroche.
Santa Cecília

(sobre um quadro de Delaroche)

Num rio virginal de águas puras e mansas 
Pequenino baixel, a Santa vai boiando. 
Dilui-se pouco a pouco o oiro de suas tranças 
E vai suavemente as águas aloirando. 

Circunda-a um esplendor luzente de esperanças 
Unge-lhe a face um luar sereno, untuoso e brando. 
E com a graça eterna e meiga das crianças
Santa Cecília vai boiando, vai boiando.

Os cravos e os jasmins abrem à luz da luta 
E ao verem-no passar, fantástica barquinha, 
Murmuram entre si: É um marmor que flutua! 

Ela entra, enfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar, 
A mãe do pescador rezando a ladainha
Pelos que andam, Senhor! sobre as águas do Mar…

(António Nobre, in “Revista Coleção da Semana”, 1885)

Santa Iria

(que floresceu em Nabância no século VII)

Num rio virginal d’águas claras e mansas,  
Santa Iria (Santa Irene).
Pequenino baixel, a Santa vai boiando. 
Pouco e pouco, dilui-se o oiro das suas tranças 
E, diluído, vê-se as águas aloirando.

Circunda-a um resplandecer de verdes Esperanças. 
Unge-lhe a fronte o luar (os Santos-Óleos) brando. 
E, com a Graça etérea e meiga das crianças 
Formosa Iria vai boiando, vai boiando…

Os cravos e os jasmins à luz da Lua,
E, ao verem-na passar, fantástica branquinha, 
Murmuram entre si: «É um marmor que flutua!» 

Ela entra, enfim, no Oceano... E escuta-se, ao luar,
A mãe do Pescador, rezando a ladainha
Pelos que andam, Senhor! sobre as águas do Mar…

(António Nobre, in “Só”)

Menino e moço

Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de Lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, à distância!

Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus meus ais:
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...

(António Nobre)

ps.  A se destacar a semelhança desse poema com o famosíssimo “As pombas”, de Raimundo Correia. Muito provavelmente mera coincidência, dada a proximidade das datas dos poemas:  “As pombas”  é de 1883, enquanto “Menino e moço” é de 1885.

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