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sábado, 31 de outubro de 2015

Tema de redação — ESPM — 2º Semestre de 2015

Tema de redação — ESPM — 2º Semestre de 2015

PROVA DE REDAÇÃO

TEMA 1

A vida hiperconectada

            No livro 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep ( Capitalismo tardio e os fins do sono), o autor Jonathan Crary analisa os riscos da vida hiperconectada.
            Segundo o autor, o sistema capitalista global mudou fundamentalmente a experiência humana, ao subverter todos à tirania da sintonia permanente, que subverte os ritmos naturais do sono e da vigília; as pessoas estão conectadas 24/7 (24 horas por 7 dias da semana, expressão popular em inglês para “sempre ligado”.
            Jonathan Crary caracteriza o momento em que estamos vivendo como um tempo do qual não há refúgio, não há lado de fora. Estamos sempre envolvidos em informações. De alguma forma, somos um elo da internet como um terminal de produção e consumo de conteúdo, tendo como resultado final um empobrecimento e uma privação maior por causa dessas demandas.

Capitalismo Tardio e os Fins do Sono. Jonathan Crary – Ed. Cosac Naify  

PROPOSTA: Com base nas informações do texto e em outras de seu conhecimento sobre o assunto, elabore um texto dissertativo que apresente considerações sobre a seguinte questão:

As pessoas se preocupam com a privacidade de suas informações, que podem ser vistas por agências de inteligência, mas não têm restrições nem hesitam quando expõem sua vida particular no mundo digital.    

TEMA 2

Bilionários estão doando suas fortunas

            Um movimento tem chamado atenção no país símbolo do capitalismo. Os maiores bilionários americanos decidiram que a fortuna deles não vai ficar para os herdeiros e sim para a filantropia. O presidente da Apple pretende doar a maior parte para três entidades: de combate a aids, direitos humanos e situação dos imigrantes.
            A notícia não chegou a causar espanto nos Estados Unidos. Waren Buffet garante que deixará 1% para a família, os outros 99% irão para doação. Bill Gates deixará a maior parte destinada à educação de crianças pobres no mundo.
            É cada vez maior o número de novos bilionários que estão doando suas fortunas.

Jornal Globo News – 30/3/2015

PROPOSTA: Com base nas informações do texto e em outras de seu conhecimento sobre o assunto, elabore um texto dissertativo que apresente considerações sobre a seguinte questão:

Qual seria o principal sentido que nortearia esses bilionários a abrir mão de suas fortunas?


Leia também:

Texto: "Baú de ossos" — Pedro Nava

Baú de ossos (excerto)

            O meu amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade é autor do conto “Quando minha avó morreu”. Sei por ele que é uma história autobiográfica. Aí Rodrigo confessa ter passado, aos 11 anos, por fase da vida em que se sentia profundamente corrupto. Violava as promessas feitas de noite a Nossa Senhora; mentia desabridamente; faltava às aulas para tomar banho no rio e pescar na Barroca com companheiros vadios; furtava pratinhas de dois mil-réis... 
"End of examinations". Iman Maleki.

                 Ai! de mim que mais cedo que o amigo também abracei a senda do crime e enveredei pela do furto... Amante das artes plásticas desde cedo, educado no culto do belo, eu não pude me conter. Eram duas coleções de postais pertencentes a minha prima Maria Luísa Palleta. Numa, toda a vida de Paulo e Virgínia – do idílio infantil ao navio desmantelado na procela. Pobre Virgínia, dos cabelos esvoaçantes! Noutra, a de Joana d’Arc, desde os tempos de pastora e das vozes ao da morte. Pobre Joana dos cabelos em chama! Não resisti. Furtei, escondi e depois de longos êxtases, com medo, joguei tudo fora. Terceiro roubo, terceira coleção de postais – a que um carcamano, chamado Adriano Merlo, escrevia a uma de minhas tias. Os cartões eram fabulosos. Novas contemplações solitárias e piquei tudo de latrina abaixo. 
            Mas o mais grave foi o roubo de uma nota de cinco mil-réis, do patrimônio da própria Inhá Luísa. De posse dessa fortuna nababesca, comprei um livro e uma lâmpada elétrica de tamanho desmedido. Fui para o parque Halfeld com o butim de minha pirataria. Joguei o troco num bueiro. Como ainda não soubesse ler, rasguei o livro e atirei seus restos em um tanque. A lâmpada, enorme, esfregada, não fez aparecer nenhum gênio. Fui me desfazer de mais esse cadáver na escada da Igreja de São Sebastião. Lá a estourei, tendo a impressão de ouvir os trovões e o morro do Imperador desabando nas minhas costas.
            Depois dessa série de atos gratuitos e delitos inúteis, voltei para casa. Raskólnikov. O mais estranho é que houve crime, e não castigo. Crime perfeito. Ninguém desconfiou. Minha avó não deu por falta de sua cédula. Eu fiquei por conta das Fúrias de um remorso, que me perseguiu toda a infância, veio comigo pela vida afora, com a terrível impressão de que eu poderia reincidir porque vocês sabem, cesteiro que faz um cesto... Só me tranquilizei anos depois, já médico, quando li num livro de Psicologia que só se deve considerar roubo o que a criança faz com proveito e dolo. O furto inútil é fisiológico e psicologicamente normal. Graças a Deus! Fiquei absolvido do meu ato gratuito...

(Pedro Nava. Baú de ossos. Memórias 1. p. 308 a 310.)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

"O salto" — Antonio Prata
"A descoberta do mundo" — Clarice Lispector
"O livro da solidão" — Cecília Meireles
"O carnaval e o menino" — Carlos Heitor Cony

EXERCÍCIOS DE VOCABULÁRIO - 6

EXERCÍCIOS DE VOCABULÁRIO - 6

Autarquia - Crucial - Descalabro - Eloquência - Escrutínio - Esplêndido - Fatigado - Ilibado - Ingerência - Lúdico - Mandatário - Mecenas - Obscurantismo - Paladino - Premente - Proscrição - Proselitismo - Seiva - Veleidade - Virulência

Autarquia
Entidade pública cuja administração é completamente autônoma, bem como seu patrimônio e/ou suas receitas.
Crucial
De importância excessiva; decisivo.
Descalabro
Fato que ocasiona grande dano; derrocada, ruína, desgraça, infortúnio.
Eloquência
Competência para discursar, falar, argumentar ou se expressar bem.
Escrutínio
Votação em que os votos são colocados numa urna, sufrágio, apuração; análise, investigação.
Esplêndido
Que contém esplendor; brilhante, reluzente, grandioso.
Fatigado
Cansado; que está exausto; que sente fadiga ou cansaço.
Ilibado
Sem mácula, puro, impoluto.
Ingerência
Intervenção; ação de ingerir, de intervir, buscando influenciar algo; Intrometimento; ação ou efeito de ingerir, de se intrometer.
Lúdico
Que faz referência a jogos ou brinquedos; alegre, brincalhão.
Mandatário
Representante; quem recebeu a incumbência ou a tarefa de representar algo ou alguém, agindo em nome dessa pessoa, empresa, instituição, etc.
Mecenas
Por alusão a Mecenas, conselheiro de Augusto, diz-se daquele que protege os escritores, os artistas, ou os sábios; patrocinador.
Obscurantismo
Estado de espírito refratário à razão e ao progresso. Doutrina daqueles que não desejam que a instrução penetre na massa do povo. doutrina contrária ao progresso intelectual e material. Estado completo de ignorância.
Paladino
Homem que defende com ardor as grandes causas; protetor, defensor, cavaleiro.
Premente
Urgente, imediato, iminente; que causa angústia, angustiante,aflitivo, tormentoso.
Proscrição
Abolição, extinção, proibição, condenação, reprovação; exílio, desterro.
Proselitismo
Partidarismo, sectarismo; Ação ou empenho para se fazer prosélitos; catequese, apostolado ou doutrinação: proselitismo ideológico, religioso, político etc.
Seiva
Líquido que circula pelas diversas partes dos vegetais. Fig. Vigor, força, energia.
Veleidade
Intenção pouco firme, ou dificilmente realizável; vontade injustificada; capricho, fantasia; imprudência, leviandade.
Virulento
Odioso, violento, rancoroso. Que causa doença por ser capaz de se multiplicar dentro de um organismo. Em que há vírus, veneno ou é causado por eles
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Complete com uma das palavras do quadro acima (eventuais flexões podem ser necessárias).

1. Obama, que pronunciará o discurso perante o Federal Hall de Nova York a partir das 13h10 de Brasília, se referirá também a seu compromisso "para reduzir o papel do governo no setor financeiro", após as intervenções de seu governo para impedir o __________ dos bancos, explicou a Casa Branca.Folha de São Paulo, 14/09/2009
2. Obama negou mais uma vez que houve  __________  dos Estados Unidos em assuntos iranianos. O presidente americano também pediu que Ahmadinejad dê explicações às famílias daqueles que morreram, ficaram feridos ou foram detidos nas últimas duas semanas de protestos no Irã. Folha de São Paulo, 27/06/2009
3. O documentário "Vocação do Poder" tem um título um tanto enganoso. Por razões familiares, por um certo interesse abstrato pela coisa ou por alguma  __________  meio inexplicável, as figuras retratadas no documentário não nos convence da urgência ou da inevitabilidade de suas pretensões.
4. Diouf afirmou que há "uma necessidade  __________  de novas medidas de transparência e regulamentação para lidar com a especulação sobre os mercados futuros de commodities agrícolas". Folha de São Paulo, 25/01/2011
5. Para abrir a programação, na terça, o espaço mostra a montagem "E Se...", sobre encontros e desencontros de figuras como uma criança de rua, um palhaço e um gari. O espetáculo, que ganhou o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2007, situa a história em um clima  __________  e bem-humorado.Folha de São Paulo, 14/09/2009
6. Há, no Brasil, cargos para os quais a lei exige reputação  __________ . Servem de exemplo ministros do STF.
7. O chefe da Casa Civil do governo do Rio Grande do Sul, José Alberto Wenzel, anunciou a troca no comando do Detran do Estado. Sérgio Filomena, diretor do Departamento de Modernização da Gestão Pública, na Secretaria de Planejamento e Gestão, substituirá Sérgio Buchmann, que deixou a presidência da  __________  hoje pela manhã. Folha de São Paulo, 22/07/2009
8. A _______________do principal partido oposicionista da Turquia no último dia 22 torna ainda mais distante a ambição turca de integrar-se à União Européia (UE). A Corte Suprema da Turquia ordenou a extinção do Partido da Virtude (Fazilet) por considerá-lo pró-islâmico demais e defensor de "atividades anti-seculares".
9. A crise política em Honduras que levou à detenção de Zelaya pelo Exército teve origem num enfrentamento do  __________  com os outros poderes estabelecidos do país: o Congresso, o Exército e o Judiciário. Folha de São Paulo, 29/06/2009
10. A universidade culpou pelo plágio um pesquisador associado que já teria deixado a instituição e disse que a ciência do estudo e as suas conclusões não estavam sob  __________ . Folha de São Paulo, 01/08/2009
11. Parafraseando o hino nacional, não podemos ficar eternamente deitados em berço __________________.
12. A discórdia está na expressão "católico e de outras confissões religiosas". Isso porque a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, ao falar sobre o ensino religioso, não menciona nenhuma fé específica e também veda o  __________________. Folha de São Paulo, 25/08/2009
13. O procurador da República Vladimir Aras, da Bahia, lamenta que o projeto não tenha simplificado o júri, tornando-o "compatível com a sua natureza de tribunal popular". O juiz aposentado Wálter Fanganiello Maierovitch diz que "os jurados continuam a condenar ou absolver sem dar as razões e isso é _________________ medieval". Folha de São Paulo, 02/01/2011
14. O site entra no contexto do _________________ embate que militantes políticos --pró-Dilma e pró-Aécio- deflagraram na internet. 
15. Entre a ponderação e a _________________, o estilo Obama, que se tornou familiar para o americanos durante a longa campanha eleitoral de 2007-2008, não foi necessariamente alterado por sua chegada à Casa Branca, no dia 20 de janeiro de 2009. Folha de São Paulo, 20/01/2010
16. A neurologista Wackermann ressalva que o sistema respiratório pode ficar _________________ se a pessoa não está preparada para cantar. Atividades físicas ajudam a ter um fôlego maior. E vice-versa. Folha de São Paulo, 19/04/2011
17. Um fator _________________ para o sucesso dos netbooks é o preço baixo, o que os tornou um dos poucos setores de tecnologia com vendas em alta em meio à crise econômica mundial. Folha de São Paulo, 28/06/2009
18. Em um caso clássico, Earl Warren, nomeado em 1953 pelo presidente republicano Dwight Eisenhower, se tornou um _________________ das causas liberais. "Foi o erro mais idiota que eu já cometi", dizia Eisenhower sobre a indicação. Folha de São Paulo, 04/08/2009
19. O encontro entre os dois mundos, a vida privada do compositor e a cidade que foi a _________________ de sua obra, se dá em "Trem das Onze - A Poética de Adoniran Barbosa", que vai ser lançado hoje em São Paulo, nos estertores do centenário de nascimento do músico (1910-1982). Folha de São Paulo, 15/12/2010
20. Inaugurada em 1941, na capital dos EUA, a National Gallery seria impensável sem o apoio de quatro grandes _________________ americanos. O primeiro grande doador foi o banqueiro Andrew Mellon (1855-1937), secretário do Tesouro dos presidentes Warren Harding, Calvin Coolidge e Herbert Hoover, além de embaixador em Londres. Folha de São Paulo, 01/11/2009

Prof. Maurício Fernandes da Cunha
Feira Cultural do Col. Pop, 2013. Eu e a excepcional aluna Caroline Senkiio.
Leia também:


Prova de Língua e Literatura em Língua Portuguesa – Cásper Líbero – 2013

Prova de Língua e Literatura em Língua Portuguesa – Cásper Líbero – 2013


1. Sobre Lembrança do mundo antigo, apresentado a seguir, que integra Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade, é correto afirmar que o poema:

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

a. opõe a um mundo injusto e brutal – que se cobria de sangue, quando o poeta o concebeu – a tranquilidade, os atos simples da vida que parecem mitológicos, fábulas de um passado extinto.
b. integra a fase surrealista do poeta, na qual ele elabora uma síntese de elementos quotidianos tratados como fantásticos e descreve cenas de absoluta suprarrealidade.
c. é um retrato fraternal e solidário de um tipo de experiência social vivida largamente na década de 1940, quando o poeta o concebeu. Experiência essa que desconhece a tristeza e abraça o mais veemente lirismo, calcado na experimentação linguística.
d. retrata o mundo caduco que se anunciou com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, mas o poeta entusiasma-se com uma nova ordem social que deixa de ser imaginária e se transforma em realidade palpável.
e. registra fotograficamente o cotidiano da década de 1930 – época em Sentimento do mundo foi publicado –, o terra-a-terra mais elementar, levando a fotografia a assumir elevações de símbolo.

2. Assinale a opção que caracteriza corretamente Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade:

a. Prevalecem no livro longas e densas descrições sem comentários de um mundo absurdo e sem sentido, como se os poemas fossem espelhos da vida circunstante.
b. O poeta troca o registro meramente descritivo pela acentuação do humor, presente em tantos poemas. Neles, a “vida besta” se dilui como algo exterior para interiorizar-se, fazer-se estado de espírito.
c. Há no livro um misto de condenação e de esperança: condenação do mundo errado, esperança de um mundo certo, cheio de beleza e de justiça. O mundo caduco é enterrado em numerosos poemas, e entrevê-se, utopicamente, a vida futura.
d. É um livro de suavização: embora ainda se irrite vez por outra, ou ressuscite o complexo de culpa, o poeta se entrega ao amor crepuscular, pacifica-se dos velhos ressentimentos e declara que o espetáculo do mundo pede para ser visto.
e. Mudando os próprios rumos, o poeta recrimina-se diante dos morticínios, da guerra, da trucidação coletiva e por não ter escutado “voz de gente”, isto é, por não ter participado dos problemas de seus semelhantes.

3. Sobre Til, de José de Alencar, é correto afirmar que:

a. Alencar acentua um perfil feminino esboçado sob a visão romântica, e mesmo romanesca, do comportamento afetivo e social da mulher. São passíveis e merecedores de análise, em primeiro plano, a presença da mulher numa sociedade em mudanças, marcada pela ascensão da classe burguesa de comerciantes e banqueiros enriquecidos, honesta ou inescrupulosamente, ao lado da classe aristocratizada ligada à economia rural, tanto uma quanto a outra à procura de posições de relevo na vida pública.
b. o romance se apresenta, desde as suas primeiras páginas, sob a pressão pungente da nostalgia, do fatalismo, da resignação. Seu argumento depurado ou reduzido ao essencial flui sobre inspirações líricas, também envolvendo o épico e o histórico. O herói e a heroína passam a traduzir a significação mais profunda da sentimentalidade e do destino de um povo mestiço – aquele que habitará a pátria do autor.
c. o romance, escrito em linguagem marcada por certa objetividade informativa, quebra a monotonia romântica pelos apostos caracterizadores das qualidades e virtudes das coisas descritas. Dois são os interlocutores: o homem do interior fixado na terra, conhecedor dela e de suas possibilidades, e o homem da cidade, portador da curiosidade de recém-chegado que comenta, direta ou indiretamente, o procedimento do homem do interior.
d. Alencar produz uma espécie de saga do desbravamento do interior paulista e da fixação do homem na terra, como se repetisse a aventura histórica da “penetração” sertão adentro, ainda sob a sedução do Eldorado. As personagens, verdadeiras sucessoras dos primitivos desbravadores, respiram uma atmosfera épica, mas não abrem mão das relações românticas pautadas pelas aparências de pudor e severidade de costumes da sociedade.
e. Alencar amplia o cenário da representação do Brasil, não dispensando o lendário e o mítico, embora seu objetivo fundamental seja dimensionar o homem e a paisagem interiorana, de maneira abrangente e contrastante. O meio físico no romance é cenário para o grande impulso da vida e da ação de heróis portadores de gestos cavalheirescos, movidos pelo destemor, pelas generosidades e pelo amor não raro contido, marcado pela renúncia, pela abnegação.

4. Assinale a opção que apresenta corretamente a análise crítica do romance Til, de José de Alencar:

a. “Dentro do quadro global do regionalismo antemodernista é nele que se reconhece imediatamente um valor que transcende a categoria em que a história literária sói fixá-lo. É o artista enquanto homem que tem algo de si a transmitir, ainda quando pareça fazer apenas documentário de uma dada situação cultural.” (Alfredo Bosi).
b. “No sertão, a literatura provém dele mesmo, e a que aí encontrou o autor classificou de ‘literatura pura, bela, verdadeira, real’, quer dizer, sem as deformações do racional e o prejuízo do valor primeiro da palavra. No perfil que traçaria do sertanejo, ele vê um captador da poesia que emana em torno deste improvisador, cuja criação é logo absorvida pela memória coletiva que assim a retransmite.” (José Aderaldo Castello).
c. “O cunho de novidade que lhe registraram os contemporâneos provém do realismo e certa graça com que fixou os costumes sertanejos, da descrição e, alguma vez, quase explicação dos cenários da história, da leveza e naturalidade dos diálogos espontâneos e vivos que pontuam a narrativa, alguns deles suficientes à caracterização das personagens, do registro de brasileirismos peculiares à região ou de particularidades do falar local, e, finalmente, à maneira natural e simples com que movimentou personagens e fatos do romance.” (Afrânio Coutinho).
d. “O romance desenvolve o princípio de que a vida dos homens é uma história concebida por Deus. A trama da escrita divina pressupõe contínua luta entre forças adversas, representadas pelos ímpetos da maldade e da ternura. Sendo uma alegoria metafísica, o romance possui dois aspectos distintos e complementares: por um lado, será uma estória de aventura e ódio, cuja origem se concentra num caso de violência sexual; por outro, será a fábula da conversão da filha do estupro em agente de forças positivas da natureza.” (Ivan Teixeira).
e. “Os seus livros começam por uma situação de equilíbrio e bonança, definida principalmente pela descrição eufórica da paisagem em que se vai desenrolar a ação; a partir daí, procura surpreender no personagem o nascimento da paixão, cujo percurso e estouro descreverá, mostrando que a euforia inicial é como a placidez aparente do sertão e do sertanejo.” (Antonio Candido).

5. Sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é correto afirmar que:

a. o livro explora uma estrutura revolucionária na qual estão presentes a imaginação sem fim, o telegrafismo das rupturas sintáticas, o simultaneísmo, a sincronia, as ordens do inconsciente e os neologismos copiosos. São capítulos-instantes, capítulos-relâmpagos, capítulos-sensações que propõem uma colagem rápida de signos, sob processos diretos, sem “comparações de apoio”.
b. a narrativa explora uma tensão geradora que não se concentra tanto no eu-narrador quanto nas notações irônicas do meio provinciano. Sente-se um escritor ainda ocupado na formalização da própria memória, tratada por um tipo de distanciamento que vai desaguar no romance de costumes.
c. o autor emprega o recurso do distanciamento, experimentando também outras técnicas que mostram como as possibilidades narrativas podem levar à compreensão do mundo. O livro apresenta uma estrutura informal e aberta, tecida de lembranças casuais, fatos diversos e cortes digressivos entre banais e críticos da personagem-autor, que não transcende nunca a filosofia do bom senso burguês.
d. na prosa narrativa de Machado de Assis, o que parece apenas espontâneo e instintivo é, no fundo, consciente e, não raro, polêmico. A palavra, para Machado, serve de anteparo entre o homem, as coisas e os fatos. As ocorrências da vida são narradas com uma animação tão simples e discreta que as frases jamais brilham por si mesmas, isoladas e insólitas, mas deixam transparecer naturalmente a paisagem, os objetos e as figuras humanas.
e. o romance é concebido como sintoma de uma crise de amplo espectro: crise da personagem-ego, cujas contradições já não se resolvem no casulo intimista, mas na procura consciente do supraindividual; crise da fala narrativa, afetada agora por um estilo ensaístico, indagador; crise da velha função documental da prosa romanesca.

6. Sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é correto afirmar que:

a. embora lance o leitor ao desafio, genuinamente romanesco, do confronto de ideias, não se pode classificar a obra como um “romance filosófico” ou “romance de ideias”, pois nela sobressaem as peripécias narrativas.
b. o escritor propõe um singular cruzamento da tradição do romance humorístico europeu – Laurence Sterne, Miguel de Cervantes, Denis Diderot, Almeida Garrett... – com a problematização da existência ou da condição humana.
c. trata-se de um “romance de costumes”, decerto, mas costumes sempre inseparáveis de situações particulares; ou “romance moral”, mas de uma moralidade desconjuntada pelo humor, ou seja, sem conteúdo generalizável.
d. Machado lançou mão de modelos literários anacrônicos e os recuperou em uma época de crença férrea no progresso e na ciência, tornando tais modelos, entretanto, incompatíveis com o exame – impiedoso e retrógrado – da vida, da história e da sociedade humana.
e. trata-se do último romance da chamada fase romântica do escritor. Fase, aliás, que, por muito tempo, constituiu um emblema de sua prosa romanesca, ou de seu estilo, ou de seu humor.

7. Sobre O cortiço, de Aluísio Azevedo, é correto afirmar que:

a. o autor não abandona a análise dos temperamentos individuais, mas prefere acompanhar o mecanismo de fusão no ambiente coletivo, que conduz à perda da singularidade dos seres, mutuamente entrelaçados pela vivência conjunta. Seres que integram um todo unificado, um organismo social devorador, pulsante, no qual as leis da natureza imperam.
b. a redução das criaturas ao nível animal é compatível com o código naturalista da despersonalização. Entretanto, a natureza humana – em vez de soar como uma selva onde os fortes comem os fracos, explicando toda sorte de vilanias e torpezas – é exaltada por meio de uma idealização mal disfarçada.
c. na teia da sociedade apresentada pelo romance, tudo se prende ao prestígio da riqueza, que de fora vem precisar os contornos das diferenças individuais; na trama da vida afetiva, as matrizes dos gestos e das palavras são a agressividade e a libido.
d. o esquema romanesco da obra está fundado na memória dos episódios mais cruéis da vida no cortiço, cobrindo de melancolia e amargura o perfil dos moradores e fazendo as personagens femininas mergulharem em uma atmosfera de ressentimento e desilusão.
e. o autor montou um enredo centrado em pessoas, diluindo o máximo que pôde as sequências de descrições muito precisas, nas quais cenas coletivas e tipos psicologicamente primários fazem do cortiço a personagem mais convincente do romance naturalista brasileiro. Logo, é das personagens que deriva o quadro social.


8. Sobre o naturalismo brasileiro, escola literária a que se filia O cortiço, de Aluísio Azevedo, é correto afirmar que:

a. a obsessão do naturalismo pelo novo a qualquer preço é contraponto de um discurso repleto de clichês. A poética da novidade deságua no efeito retórico-psicológico e na exploração do bizarro.
b. o determinismo reflete-se na perspectiva em que se movem os narradores ao trabalhar suas
personagens. A pretensa neutralidade não chega a ocultar o fato de que o foco narrativo carrega sempre de tons sombrios o destino das suas criaturas.
c. a literatura que se escreveu sob o signo do naturalismo representou, além de um conjunto de experiências de linguagem, uma crítica global às estruturas mentais das velhas gerações e um esforço de penetrar mais fundo na realidade brasileira.
d. o naturalismo representou um sintoma da crise do liberalismo jurídico abstrato, da sua incapacidade de planificar o progresso de um povo; e significou um passo adiante na construção de uma sociologia do povo brasileiro.
e. a natureza naturalista é expressiva. Ela significa e revela. Prefere-se a noite ao dia, pois à luz crua do sol o real impõe-se ao indivíduo, mas é na treva que latejam as forças inconscientes da alma: o sonho, a imaginação.

9. Assinale a opção cujo conteúdo é incoerente com o romance Leite derramado, de Chico Buarque:

a. O narrador é um homem de cem anos, internado à força num hospital infecto. Entre gritos, vizinhos de leito entubados e baratas andando nas paredes, ele recorda – a 80 anos de distância – o breve casamento em que foi feliz e traído (em sua opinião). De tempos em tempos a boa lembrança ainda é capaz de transformá-lo no “maior homem do mundo”.
b. Quanto mais rememora, mais Eulálio se afunda em repetições: “São tantas as minhas lembranças, e lembranças de lembranças de lembranças, que já não sei em qual camada da memória eu estava agora”. Nas páginas finais, ainda um menino de calças curtas, ele é levado pela mãe para se despedir do tetravô, que agoniza em um hospital. Um homem de rosto pastoso e memória degradada, que pode ser ele mesmo.
c. O núcleo romanesco da intriga – seu elemento de sensação – é o desaparecimento inexplicável de Matilde. Depois de se perguntar se ela se foi com o engenheiro francês, fugiu aos ciúmes do marido, caiu na vida ou pegou uma doença e quis morrer fora da vista dos seus, o narrador revela que ela morreu num acidente de carro, acompanhada de um homem. Assim, essa explicação é adotada pelo próprio marido, pela sogra, pela mãe adotiva, pela filha, pelas colegas desta, pelo pároco da Candelária e pela voz anônima da cidade.
d. A fala desarticulada do ancião, ao mesmo tempo em que preenche uma função de verossimilhança, cria dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da personagem parece espontâneo, mas o escritor explora as associações livres, as falsidades e os não-ditos, de modo que o leitor pode ler nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a personagem não consegue enfrentar.
e. A narrativa do centenário Eulálio vem borrada pelas deformações próprias da memória. E também pelos estragos que os sonhos nela produzem. “Dia desses fui buscar meus pais no parque dos brinquedos, porque no sonho eles eram meus filhos”, vacila. Do mesmo modo, a literatura não passa de um tapete estendido sobre um alçapão. Rombos, remendos, rasgões expõem uma verdade que se esfarela.

10. Sobre Leite derramado, de Chico Buarque, é correto afirmar que:

a. o romance retoma a verve naturalista de O cortiço, de Aluísio Azevedo, ao explorar a ideia de que o ciúme e o amor não se esgotam em si mesmos e estão atrelados a questões de raça e de etnia. Entre várias irmãs de tez clara, Matilde é a única de pele escura, para desgosto da sogra, que, entretanto, tem um irmão “beiçudo”. Mais adiante se saberá que a moça é filha adotiva, fruto de uma escapadela baiana do pai.
b. o romance retoma a matéria romântica presente em Til, de José de Alencar, e a ultrapassa pelo viés do realismo, ao denunciar como uma relação desigual, na qual nome de família, dinheiro e preconceito de cor e classe se articulam com desejo e ciúme e formam um padrão consistente, que vira cacoete. Seus desdobramentos mais reveladores ocorrem no hospital, onde o patriarca centenário, agora já sem tostão, faz a corte a praticamente todas as enfermeiras de turno, às quais promete casamento, roupas finas, nome ilustre, palacete e baixelas, desde que se dediquem só a ele.
c. o romance retoma a tradição da saga familiar marcada pela decadência, gênero consagrado no romance ocidental moderno de que fez uso José de Alencar em Til. Entretanto, a ordem lógica e cronológica habitual da saga é embaralhada, por se tratar de uma memória desfalecente; repetitiva, mas contraditória; obsessiva, mas fragmentada.
d. o romance estabelece um franco diálogo com Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, não somente ao apresentar um narrador em primeira pessoa que destila mediocridade e preconceitos oligárquicos como também ao explorar a desproporção entre a intensidade da vida amorosa do protagonista e a irrelevância de sua vida espiritual.
e. percorre todo o texto a paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma mulher, por meio de um viés determinista, tal como ocorre em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Os múltiplos traços de Matilde, seu “olhar em pingue-pongue”, suas corridas a cavalo ou na praia, suas danças, seus vestidos espalhafatosos, ao mesmo tempo em que determinam a paixão do marido e impregnam indelevelmente sua lembrança, ocasionam a infelicidade de ambos.

11. Assinale a opção cujo conteúdo é incoerente com O fio das missangas, de Mia Couto:

a. Embora sejam breves, os contos – cada qual composto como uma missanga – exploram densamente um conjunto de paixões humanas das mais universais: amores desfeitos, traições, vinganças, suicídios, loucura, incesto...
b. Algumas narrativas são marcadas por certa atmosfera de realismo fantástico, que remete às lendas populares de Moçambique. Em “Peixe para Eulália”, por exemplo, há barcos que remam no ar e olhos que saltam de suas órbitas.
c. Neologismos como “vizinho anoitrevido” e “saia almarrotada” revelam, para além da mera experimentação formalista, caminhos entre a oralidade do sudoeste pobre da África e a liberdade poética.
d. A presença de metáforas sobre o ato de narrar aparece não somente em “A infinita fiandeira” (em que uma aranha tece teias “inúteis”, não para enredar presas, mas por pura arte) como também em “O menino que escrevia versos”, em que um garoto é levado ao médico por gostar bastante de escrever – atividade considerada muito estranha.
e. A maioria dos contos explora com fina sensibilidade o universo infantil, dando voz e tessitura à alma de crianças condenadas à não-existência, ao esquecimento. Como objetos descartados, meninos e meninas são aqui equiparados ora a uma saia velha, ora a um cesto de comida, ora, justamente, a um fio de missangas.

12. A personagem-narradora de O cesto, que integra O fio das missangas, de Mia Couto, era desprezada pelo marido. Assinale a opção em que a passagem do texto NÃO caracteriza o estado de submissão e passividade vivido por ela:

a. “Hoje será como todos os dias: lhe falarei, junto ao leito, mas ele não me escutará. Não será essa a diferença. Ele nunca me escutou.”
b. “Onde vivo não é na sombra. É por detrás do sol, onde toda a luz há muito se pôs.”
c. “Agora, pelo menos, já não sou mais corrigida. Já não recebo enxovalho, ordem de calar, de abafar o riso.”
d. “Amanhã, tenho que me lembrar para não preparar o cesto da visita.”
e. “Como a pedra, que não tem espera nem é esperada, fiquei sem idade.”

Leia o texto a seguir e responda às questões de 23 a 28.

Jeitinho e jeitão: uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro

                Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.
                Recordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado (rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por sinal um conterrâneo seu. Este, vendo-me por perto, e julgando que eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez. Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana. A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão “sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedida qualquer coisa, já que é obrigação do dominado servir ao dominante.
                Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento, impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
                A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista. Nele, o corpo dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno.
                O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje. Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo capitalismo que avança.
                Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia para quase nada.
                Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos. Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Tratado dos Viventes, depois de décadas de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos Sexagenários.
           O que parecia cautela e previsão era, na verdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento.
          Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar uma industrialização de matriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os excedentes populacionais cresceram exponencialmente.
                Assim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.
                Quando o trabalhador ou trabalhadora que têm consciência dos seus direitos recusam o emprego sem carteira, às vezes, escutam “malandro, não quer trabalhar”. Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram sua profissão periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas.
                O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância: “Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do moderno atraso brasileiro.

(Francisco de Oliveira, revista piauí n. 73, outubro 2012, excerto).

23. Quanto ao texto, trata-se de:

a. um artigo de viés sociológico que aborda um fenômeno reproduzido sistemicamente nas relações sociais e que repercute nas instituições, normas, leis e valores brasileiros.
b. uma crônica satírica por meio da qual o autor explica a natureza do fenômeno do jeitinho brasileiro, desde o período escravista até o governo do presidente Lula.
c. um texto memorialístico, construído em torno de uma singular ocorrência lembrada pelo autor, a partir da qual é apresentada uma visão crítica da sociedade brasileira.
d. uma crônica leve e bem-humorada que apresenta algumas razões de ser do jeitinho brasileiro, sem condenar ou reprovar a prática de antemão.
e. um artigo de cunho político que aborda o jeitinho como um problema a ser combatido não somente nas relações sociais no Brasil, mas, sobretudo, na economia do País.

24. Assinale a opção que identifica corretamente o argumento central do texto:

a. O jeitinho brasileiro nasceu durante a escravidão, quando o corpo dos negros era propriedade dos senhores e podia ser tocado e usado, dando origem a uma série de gestos e costumes que persistiram ao longo do século XX, no qual o capitalismo brasileiro se estabeleceu.
b. O trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro, regulando a taxa de salários e desrespeitando as normas trabalhistas criadas por Getúlio Vargas. A origem desse processo remonta ao fim da escravidão, quando burlar as normas passou a ser permitido e estimulado.
c. As regras não escritas do jeitinho brasileiro são seguidas de maneira tão rigorosa pela sociedade brasileira que todo aquele que se recusa a praticá-lo acaba sendo tachado de pedante, arrogante ou ignorante.
d. Com a modernização da sociedade brasileira, a industrialização, de matriz exógena, privilegiou a economia do trabalho, levando os excedentes populacionais a um crescimento desordenado que lhes causou a falta de emprego formal.
e. O jeitinho – cuja origem remonta às contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade escravista e pode ser explicada pela incompletude das relações mercantis capitalistas – transformou-se em código geral das relações sociais no Brasil.

25. Assinale a opção em cuja frase a palavra “caráter” tem o mesmo sentido daquele empregado no título do texto:

a. Aquele homem tem um caráter nobre.
b. Homens e mulheres bailaram o minueto vestidos a caráter.
c. O autor se aventura pelos caminhos das raízes do caráter nacional.
d. Esta criança tem um caráter péssimo: só vive choramingando.
e. A obra tem caráter puramente científico.

26. Assinale a opção que apresenta, respectivamente, o significado das palavras “grei”, “exógena” e “periclitar”, conforme elas são empregadas no texto:

a. partido - estranha - ser ameaçada.
b. categoria - exterior - correr perigo.
c. laia - interior - oferecer risco.
d. distinção - superficial - oscilar.
e. espécie - norte-americana - desaparecer.

27. Assinale a opção que caracteriza corretamente a regra de concordância nominal empregada em “garotos e garotas negros”:

a. Quando um só adjetivo qualifica mais de um substantivo, vindo posposto a eles, concorda com o elemento mais próximo.
b. Quando o adjetivo vem posposto aos substantivos e funciona como predicativo, vai para o plural.
c. Quando o adjetivo vem anteposto aos substantivos, concorda, por norma, com o elemento mais próximo.
d. Quando um só adjetivo qualifica mais de um substantivo, vindo posposto a eles, vai para o plural, dando prioridade ao masculino.
e. Quando o adjetivo anteposto for um predicativo (do sujeito ou do objeto), poderá concordar com o substantivo mais próximo ou ir para o plural.

28. Em “Quando o trabalhador ou trabalhadora (...) recusam o emprego sem carteira...”, o verbo “recusar” não estaria flexionado no plural se a conjunção “ou” criasse uma relação de:

a. alternância b. retificação c. explicação d. ênfase e. explicação


Prova de Língua e Literatura em Língua Portuguesa – Cásper Líbero – 2012

Prova de Língua e Literatura em Língua Portuguesa – Cásper Líbero – 2012



Leia o texto a seguir e responda às questões de 1 a 6:

Ser ou não ser

            Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade, pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico.
            Seria em decorrência disso que a incerteza é o que se delineia efetivamente como o futuro real para os jovens, em todos os quadrantes do mundo. É preciso destacar, antes de tudo, que a possibilidade de experimentação foi o que passou a caracterizar a condição da adolescência no Ocidente, desde o final do século 18, quando as idades da vida foram construídas em conjunção com a família nuclear burguesa, em decorrência da emergência histórica da biopolítica.
            Nesse contexto, a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre a infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar para reproduzir efetivamente as linhas de força da família nuclear burguesa. Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões.
            Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. Em seguida, porque o deslocamento das mulheres da posição exclusivamente materna foi o primeiro combate decisivo contra o patriarcado, que forjou nossa tradição desde a Antiguidade. Finalmente, a construção do modelo neoliberal da economia internacional, em conjunção com seu processo de globalização, teve o poder de incidir preferencialmente em dois segmentos da população, no que tange ao mercado de trabalho. De fato, foram os jovens e os trabalhadores da faixa etária dos 50 anos os segmentos sociais mais afetados pela voragem neoliberal. Com isso, se os primeiros passaram a se inserir mais tardiamente no dito mercado, os segundos passaram a ser descartados para ser substituídos por trabalhadores jovens e mais baratos, pela precariedade que foi então estabelecida no mercado de trabalho.
            Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando então os jovens fora do espaço social formal e lançados perigosamente numa terra de ninguém. Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho, a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico, prolongando-se efetivamente, não tendo mais qualquer limite tangível para seu término. Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade.
            Esse processo ocorre não apenas no Brasil e na América Latina, mas também em escala internacional. Pode-se depreender aqui a constituição de uma cultura agonística* na juventude de hoje. Assim, a violência juvenil transformou-se em delinquência, inserindo-se efetivamente no registro da criminalidade. No Brasil, os jovens de classe média e das elites passaram a atacar gratuitamente certos segmentos sociais com violência. De mulheres pobres confundidas com prostitutas até homossexuais, passando pelos mendigos, a violência disseminou-se nas grandes metrópoles do país.
            Ao fazerem isso, no entanto, seus gestos delinquentes inscrevem-se numa lógica social precisa e rigorosa. Com efeito, tais segmentos sociais representam no imaginário desses jovens a decadência na hierarquia social, sendo, pois, os signos do que eles poderão ser efetivamente no futuro, na ausência do reconhecimento social e simbólico que os marca. A cultura da força empreende-se regularmente em academias de ginástica, onde os jovens cultuam os músculos, não apenas para se preparar para os combates cotidianos da vida real, mas para forjar também um simulacro de força na ausência efetiva de potência, isto é, na ausência de reconhecimento social e simbólico, lançados que estão aqueles no desamparo.
            É nesse registro que se deve inscrever a disseminação do bullying na contemporaneidade. É preciso dizer, no que concerne a isso, que a provocação e a violência entre os jovens e crianças é uma prática social antiga. O que é novo, contudo, é a ausência de uma autoridade que possa funcionar como mediação no combate entre estes e aqueles, o que incrementou bastante a disseminação dessa prática de violência.
            Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. A juventude seria então a condensação simbólica de todas as potencialidades existenciais. Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizou a adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade. Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental, onde se busca pelo desejo a possibilidade de novos laços amorosos e novas modalidades de realização existencial.

(Joel Birman, revista Cult n. 157, maio 2011).

*agonística: relativo a luta, conflito, combate.

1. Assinale a opção correta:

a. Trata-se de um texto que aborda a representação da juventude na literatura e na filosofia contemporâneas.
b. Trata-se de um texto no qual o autor explica a natureza do fenômeno do bullying, desde sua origem na década de 1950.
c. Trata-se de um texto no qual o autor reflete sobre como era ser jovem há 50 anos e como é ser jovem hoje.
d. Trata-se de um texto que analisa o papel da mídia na construção do mito da juventude.
e. Trata-se de um texto que mostra como a juventude é um objeto de desejo da sociedade contemporânea, examinando questões comportamentais, políticas e econômicas.

2. Assinale a opção que identifica corretamente o argumento central do texto:

a. A adolescência é um dos períodos mais turbulentos e potencialmente problemáticos da existência humana.
b. Por causa de sua ausência no mercado de trabalho, a juventude foi destituída de
reconhecimento social e simbólico.
c. A revolução feminista, o neoliberalismo e a globalização deslocaram o lugar do jovem na sociedade atual e criaram o imperativo do desejo sem fim.
d. Lançados de maneira perigosa numa terra de ninguém, os jovens podem apenas dispor de seu corpo e de sua força física.
e. O bullying é um fenômeno tipicamente adolescente e suas causas estão localizadas na ideia de que a juventude é um mito contemporâneo.

3. Assinale a opção cuja frase justifica corretamente o título do texto:

a. A imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza.
b. Foram os jovens e os trabalhadores da faixa etária dos 50 anos os segmentos sociais mais afetados pela voragem neoliberal.
c. A violência juvenil transformou-se em delinquência, inserindo-se efetivamente no registro da criminalidade.
d. O código de experimentação que caracterizou a adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade.
e. A possibilidade de experimentação foi o que passou a caracterizar a condição da adolescência no Ocidente.

4. Assinale a opção que apresenta o significado da palavra “figuração”, conforme ela é empregada no texto:

a. Participação.   b. Apresentação.   c. Dedução.   d. Distinção.   e. Representação.

5. Em “Esse processo ocorre não apenas no Brasil e na América Latina, mas também em escala internacional”, a série “não apenas... mas também” exprime valor de:

a. Oposição.   b. Alternativa.   c. Comparação.   d. Adição.   e. Concessão.

6. O sujeito de “Finalmente, a construção do modelo neoliberal da economia internacional, em conjunção com seu processo de globalização, teve o poder de incidir preferencialmente em dois segmentos da população, no que tange ao mercado de trabalho” é:

a. A construção do modelo neoliberal da economia internacional.
b. A construção do modelo neoliberal da economia internacional em conjunção com seu processo de globalização.
c. O modelo neoliberal da economia internacional em conjunção com seu processo de globalização.
d. Mercado de trabalho.
e. Em conjunção com seu processo de globalização.

31. Assinale a opção que caracteriza corretamente os versos do poema Maçã, que integra a coletânea 50 poemas escolhidos pelo autor, de Manuel Bandeira, apresentados a seguir:

Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda
[o cordão placentário
És vermelha como o amor divino
Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente
E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

a. Logo à primeira vista, o poema chama a atenção pelo aspecto gustativo. A figura da maçã impõe-se ao leitor, desde o princípio, como um objeto para o paladar.
b. A figura da maçã impõe-se ao leitor, desde o princípio, como um objeto para o olhar. O efeito geral é o de um quadro estático, onde apenas se desloca o olhar e palpita a vida
latente – espécie de natureza morta.
c. A maçã é vista unicamente por fora, mediante comparações em que se distinguem, antes, suas formas por lados opostos; em seguida, a plenitude de sua cor.
d. A maçã é vista unicamente por dentro, até a intimidade das sementes e a latência de vida em seu interior.
e. A maçã é olhada diversas vezes, por partes, no todo e por dentro, até ser situada no tempo histórico, em relação a alguns eventos importantes para o poeta.

32. Assinale a opção que caracteriza corretamente os versos do poema Consoada, que integra a coletânea 50 poemas escolhidos pelo autor, de Manuel Bandeira, apresentados a seguir:

Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

a. À primeira vista, o leitor se encontra diante do mero registro de um momento banal. Trata-se do instante do repousar de um sujeito solitário em seu quarto, numa noite escura e serena, quando tudo parece convidar ao recolhimento e à prolongação do repouso.
b. A matéria do poema parece ter passado por um processo de simplificação para virar poesia. A morte indesejada de um pobre-diabo, logo depois de esbaldar-se, tem, pela natureza do assunto e dos dados escolhidos, o ar da ocorrência banal, contada a seco, sem comentário ou explicação.
c. O poema trata de uma aparição da Morte aos olhos de um sujeito, que, estático, desfruta o momento, impulsionado pelo vislumbre da relação sensorial, intelectual e afetiva que ele estabeleceu até aquele momento com a vida.
d. A musicalidade do poema suscita o livre devaneio diante da Morte: segue o movimento natural do sono, induzindo ao sonho e evocando, através dele, o mito, que religa em imagem os elementos materiais do cotidiano.
e. O poema parece consistir num pequeno quadro da espera de uma ceia ou refeição noturna: um Eu aguarda, com algumas expectativas, a chegada, ao cair da noite, de uma visita esperada. A convidada imaginária, que ele não sabe como tratar, é obviamente a Morte, a que alude apenas de forma oblíqua, mas decide recebê-la com naturalidade.


33. Sobre Laços de família, de Clarice Lispector, é correto afirmar que:

a. A autora trata de uma realidade criada, acidentalmente situada em uma região precisa, através da qual os personagens são vistos como seres fatalmente cercados pela violência e pela desgraça.
b. O conflito espiritual e a introspecção compreendem a tônica dos contos, nos quais os personagens desnudam-se diante do leitor, arrancados que foram de sua dolorosa solidão.
c. A autora articula os problemas sociais do tempo com os grandes e eternos problemas do homem, voltando seus olhos para a burguesia, classe que vive cotidianamente a experiência do ódio, da piedade, da caridade e do egoísmo.
d. Os contos expressam uma visão penetrante das situações familiares, sobre as quais a autora projeta um olhar simultaneamente demorado e instantâneo, procurando captar as reações íntimas das personagens.
e. Contista da linha introspectiva, levando a problemática do homem ao extremo limite, a autora explora enredos de aparência simples, no geral acontecendo no meio do agreste, mas de grande complexidade subjetiva e simbólica.

34. Sobre Laços de família, de Clarice Lispector, é correto afirmar que:

a. O conto “Amor” trata do sentido do espanto de Ana perante o cego. Na narrativa, a palavra diária capta essa apreensão dos atos e das coisas falsamente estáticas e parece confirmar sua insignificância.
b. Em “A imitação da rosa”, Armanda pressente o perigo da beleza das rosas, mas não se desvencilha delas, guardando-as como a um troféu. Maneira eficaz de converter um perigo em prova de gentileza consigo mesma.
c. No conto “Feliz aniversário”, a autora, em vez de retratar a falsa alegria que trazem os parentes da velha aniversariante – com palavras, gestos e animação simulados –, prefere explorar o silêncio interior da anciã amargurada.
d. Em “O búfalo”, a personagem adota a prática anarquista do amor cristão ante a dificuldade de odiar.
e. No conto “Uma galinha”, a personagem escapa da sua situação de mediocridade confortável ao lutar contra a domesticação de si mesma e da natureza.

35. Sobre Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, é correto afirmar que:

a. A figura dramática do Parvo serve para tornar mais clara a baixeza das outras personagens que aparecem no cais, já que ele, o único provido de juízo, é capaz de reconhecer que o que elas fizeram em vida não lhes dá direito de embarcar para a Glória.
b. A peça procura endossar algumas crenças bastante comuns na época, apontando, por exemplo, que ouvir missas ou pedir para que estas fossem rezadas garantiam, às vezes, a salvação daqueles que se esquecessem de viver de acordo com os preceitos cristãos.
c. Ao representar tipos humanos considerados baixos, a peça parece querer alertar para a necessidade urgente de se corrigirem os costumes de acordo com a tradição cristã. Para tanto, nada melhor do que representar os vícios em sua forma mais vil, através da ridicularização das personagens que o cometeram.
d. A disputa que se dá entre as personagens e os representantes das barcas revela a necessidade de se conhecer a compaixão, e esta se torna urgente para os espectadores que ainda têm a possibilidade de entrar na barca do Anjo, se tiverem uma vida correta, sem pecados.
e. Através do riso, propiciado pela falta de decoro e pela ridicularização da cegueira dos personagens, que admitem que seus atos sejam considerados dignos de censura, o espectador é levado a reconhecer quais ações impedirão que seja aceito na barca do Anjo.

36. Sobre Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, é correto afirmar que:

a. A obra cativa pelo lirismo, ao mesmo tempo em que intriga pela estrutura caprichosamente montada, dando ensejo a uma abordagem doutrinal que incorpora, ao lado dos elementos poéticos, comédia, drama de costumes e bucolismo.
b. A transposição de um plano a outro – do político ao litúrgico – é perfeitamente adequada à peça, e toda a discussão acerca da figura do Anjo aponta, então, para seu caráter religioso, seu papel de representante de Deus na Terra.
c. O tema do juízo final é exposto já no monólogo inicial da peça, definindo com clareza a aversão à morte – em tom de comédia ligeira – por parte de todos os personagens, à exceção do Judeu.
d. Como em toda alegoria, o tema tratado em tom solene – a vida em sua dimensão profana e religiosa – logo é reinterpretado no estilo das comédias de costumes, à luz das experiências mais prosaicas.
e. A qualidade essencial da arte vicentina – o lirismo – falta completamente nessa obra. A peça vale pela palpitante atualidade com que o autor passou em revista a sociedade de seu tempo, espectadora da própria representação, e advertida dos pecados que a privam da salvação eterna.

39. Assinale a opção que apresenta corretamente a análise crítica do romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida:

a. Passando abruptamente do primitivo solene à crônica jocosa e desta ao distanciamento da paródia, o autor jogou sabiamente com níveis de consciência e de comunicação diversos, justificando plenamente o título de “rapsódia”, mais do que “romance”, que emprestou à obra. (Alfredo Bosi).
b. Mantém a característica autobiográfica, começando pela evocação da infância (...). Prossegue, passando da adolescência para o casamento e as aventuras amorosas (...). E combina formas narrativas com poesia, algo picaresco, entre a rotina e a revolta, talvez ânsia de ilusão e luta contra a solidão, contudo, preenchidas pelas aventuras sexuais. (José Aderaldo Castelo)
c. As suas personagens não apresentam mais uma estrutura moral unificada e típica. São antes seres divididos consigo mesmos, embora sem lutas violentas, já naquele estado em que a cisão interna entra no declive dos compromissos e da instabilidade de caráter. (Afrânio Coutinho).
d. A literatura do autor seguramente apresenta um brasileirismo desta espécie interior, que até certo ponto dispensa a cor local. (...) Digamos sumariamente que, em vez de “elementos” de identificação, o autor buscava “relações formais”. A feição nacional destas é profunda, sem ser óbvia. (Roberto Schwarz).
e. O tempo não atua sobre os tipos fixos desse romance horizontal, onde o que importa é o acontecimento, mais que o protagonista. Diferente do simples romance de aventuras, o acontecimento importa aqui, todavia, na medida em que revela certas formas de convivência e certas alterações na posição das pessoas, umas em relação às outras. (Antonio Candido).

40. A respeito da natureza do herói das Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, é correto afirmar que:

a. O autor explora um personagem típico da comédia clássica: o sujeito subalterno que centraliza as ações, conduz o enredo e manipula a vida dos demais personagens.
b. A linguagem é de farsa assumida e o protagonista é um personagem típico: o bufão que faz da malandragem e da leveza de caráter sua principal ferramenta de ação.
c. O autor dá preferência ao herói modesto, que se defende das hostilidades do mundo com o improviso de embustes e ardis, aproximando-o das tradições do malandro e do pícaro.
d. Ora burlesco, ora grave, o herói acaba por se revelar para si mesmo um personagem patético. Como o país em que vive.
e. O protagonista explora a comicidade pela via do desentendimento e da ruptura, oferecendo às demais personagens uma total falta de pudor e um inquietante amoralismo.

43.Sobre o excerto de Dois irmãos, de Milton Hatoum, apresentado a seguir, é correto afirmar que:

“Omissões, lacunas, esquecimento. O desejo de esquecer. Mas eu me lembro, sempre tive sede de lembrança, de um passado desconhecido, jogado sei lá em que praia de rio”.

a. Situado entre o Oriente e o Amazonas, o relato é a busca de um mundo perdido, que se reconstrói nas falas alternadas, longínquos ecos da tradição oral dos narradores orientais.
b. A narrativa exerce fascínio especial por explorar uma prova evocativa, traçada com raro senso plástico e pendor filosófico: viagem encantada por meandros de frases longas e herméticas, num ritmo de recorrências e revelações.
c. O narrador deixa-se contaminar pela visão de “um paraíso terrestre” encarnado na simplicidade bucólica, tentando uma adaptação, que se sabe desde o início frustrada, na grande cidade.
d. Um dos temas do romance é a passagem do tempo. Vasculhando os restos de outras histórias, o narrador tenta reconstituir os estilhaços do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros.
e. É através da sua infância – coisa real, palpada, sentida – que o narrador sente a força de qualquer infância, e inventa-a, e descobre-a; e reinventa-a, e redescobre-a. É através da paisagem que o circunda que ele apreende a beleza da terra em que os homens avançam, amam, morrem.

44. Sobre o excerto de Dois irmãos, de Milton Hatoum, apresentado a seguir, é correto afirmar que:

“Manaus cresceu assim: no tumulto de quem chega primeiro. Desse tumulto participava Halim, que vendia coisas antes de qualquer um”.

a. A narrativa trata de fatos vividos em um plano doméstico, sem se esquecer de articulá-los, de tempos em tempos, a um pano de fundo histórico, que dá conta do crescimento da região norte do País, na segunda metade do século XX.
b. A narrativa trata de fatos vividos em um plano doméstico, sem se esquecer de articulá-los, de tempos em tempos, a um pano de fundo social, procurando investigar as causas da pobreza que atinge até hoje o norte do País.
c. A narrativa trata de fatos vividos em um plano político, sem se esquecer de articulá-los, de tempos em tempos, a um pano de fundo doméstico, voltado à exploração da memória e das reminiscências do núcleo familiar.
d. A narrativa trata de fatos vividos em um plano mítico, sem se esquecer de articulá-los, de tempos em tempos, a um pano de fundo sociocultural, que dá conta da presença indígena no norte do País.
e. A narrativa trata de fatos vividos em um plano político, sem se esquecer de articulá-los, de tempos em tempos, a um pano de fundo ideológico, que dá conta do crescimento da luta armada contra o regime militar, no final da década de 1960.

48. Sobre Os da minha rua, de Ondjaki, é correto afirmar que:

a. O narrador das 22 histórias explora um quadro da infância vivida num período em que a precariedade das condições materiais não interditava a experiência da comunhão, estimulando a utopia presente na luta contra o colonialismo e na ideia de uma sociedade mais justa.
b. Os dois narradores que participam das 22 histórias vivem, sempre em dupla, um conjunto de fatos marcados pela crueldade infantil da qual não escapam os professores cubanos, os tios e as tias, os pequenos animais e o quase mitológico abacateiro.
c. O narrador das 22 histórias mergulha no tempo histórico e o relaciona a sua própria experiência, convidando o leitor a compartilhar a dinâmica de uma África mítica e ancestral, que pode ser vista tanto como hostil quanto como hospitaleira.
d. Os diversos narradores das 22 histórias resistem à destruição causada pela experiência colonial, inventando para si mesmos uma infância que não existiu. Desse modo, cada história dialoga com a tradição literária angolana, retomando tópicos e renovando propostas fundamentais no percurso literário que se consolida.
e. Os diversos narradores das 22 histórias se fecham sempre aos estímulos exteriores, optando por explorar com acentuada ambiguidade as facilidades do mundo colonial e a violência que o caracterizou. Assim, revelam-se as contradições de uma sociedade que vive entre o peso do colonialismo e a euforia causada pela independência.

49. Sobre o excerto de Os da minha rua, de Ondjaki, apresentado a seguir, é correto afirmar que:

“Uma pessoa quando é criança parece que tem a boca preparada para sabores bem diferentes sem serem muito picantes de arder na língua. São misturas que inventam uma poesia mastigada tipo segredos de fim da tarde. Era assim, antigamente, na casa da minha avó. No tempo da Madalena Kamussekele”.

a. O tempo tende a estabilizar-se no passado, mas o uso constante dos verbos nas formas do presente coloca em dúvida o que está sendo dito.
b. A infância é responsável pela visão lúdica das personagens, não importando se o presente aponta para os descompassos gerados pela modernidade.
c. A evocação do tempo passado mantém o universo encantado da infância, pleno de poesia.
d. A opção pelo presente revela o intenso diálogo do autor com os meios de comunicação de massa.
e. O tempo passado se mescla continuamente à perspectiva histórica, levando ao registro de uma Angola imemorial.