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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Texto: “O Coronel e o Lobisomem” – José Cândido de Carvalho

O Coronel e o Lobisomem

Em vão tentei retirar de mim tais quebrantos. Por dentro do luar, de rédea perdida, viajei tempo sem conta. Ao dar acordo de Ponciano, já o ventão da costa andava longe e um jeito de alma penada imperava nos ermos. Nesse entrementes, tive a atenção chamada por uns pés de cuité, onde um vulto parecia escondido. Freei no supetão, não fosse uma tocaia armada contra a minha pessoa. Cocei as armas, pronto para limpar a estrada a fogo de garrucha. Mas o luar pulou na frente e desbaratou o vulto da cuitezeira, que não passava de um mal-entendido da noite. Aliviado, catuquei a mula de sobre-leve. Não acusou roseta. Piquei de novo, e quem disse que ela arredava casco da estrada? Orelha em pé como bicho em presença de perigo, a teimosa fincou as patas no calhau. Mais uma vez risquei espora na barriga dela e de novo a bichinha rejeitou as ordens. Conhecedor das manhas dos escuros, não quis fazer prevalecer a vontade do coronel, embora tivesse poder para tanto. Deixei de lado esse direito e procurei entrar em entendimento com a birrenta: 
        – Que faniquito é esse? Respeite a patente e deixe de ficar sestrosa.
Foi quando, sem mais nem menos, deu entrada no meu ouvido aquele assovio fininho, vindo não atinei de onde. Podia ser cobra em vadiagem de luar. Se tal fosse, a mula andava recoberta de razão. Por isso, dei prazo de espera para que a peçonha saísse no claro. Nisso, outro assobio passou rentoso de minha barba, com tanta maldade que a mula estremeceu da anca ao casco, ao tempo em que sobrevinha do mato um barulho de folha pisada. Inquiri dentro do regulamento militar:
– Quem vem lá?
De resposta tive novo assobio. Num repente, relembrei estar em noite de lobisomem – era sexta-feira. Tanto caçoei do povo de Juca Azeredo que o assombrado tomou a peito tirar vingança de mim, como avisou o Sinhozinho. Pois muito pesar levava eu não poder, em tal estado, dar provimento ao caso dele. Sujeito de patente, militar em serviço de água benta, carecia de consentimento para travar demanda com lobisomem ou outra qualquer penitência dos pastos, mesmo que fosse uma visagenzinha de menino pagão. Sempre fui cioso de lei e não ia em noite de batizado manchar, na briga de estrada, galão e patente:
– Nunca!
A mulinha, a par de tamanha responsabilidade, que mula sempre foi bicho de grande entendimento, largou os cascos na poeira. Para a frente a montaria não andava, mas na direção do Sobradinho corria de vento em popa. Já um estirão era andado quando, numa roça de mandioca, adveio aquele figurão de cachorro, uma peça de vinte palmos de pelo e raiva. Na frente de ostentação tão provida de ódio, a mulinha de Ponciano debandou sem minha licença por terra de dormideira e cipó, onde imperava toda a raça de espinho, caruru-de-sapo e roseta-de-frade. 
O luar era tão limpo que não existia matinho desimportante para as suas claridades – tudo vinha à tona, de quase aparecer raiz. Aprovei a manobra da mula na certeza de que lobisomem algum arriscava sua pessoa em tamanho carrascal. Enganado estava eu. Atrás, abrindo caminho e destorcendo mato, vinha o vigancista do lobisomem. Roncava como porco cevado. Assim acuada, a mulinha avivou carreira, mas tão desinfeliz que embaralhou a pata do coice numas embiras-de-corda. Não tive mais governo de sela e rédea. Caí como sei cair, em posição militar, pronto para repelir qualquer ofendimento. Digo, sem alarde, que o lobisomem bem podia sair da demanda sem avaria ou agravo, caso não fosse um saco de malquerença. Estando eu em retirada, pelo motivo já sabido de ser portador de galão e patente, não cabia a mim entrar em arruaça desguarnecido de licença superior. Disso não dei conta ao enfeitiçado, do que resultou a perdição dele. Como disse, rolava eu no capim, pronto a dar ao caso solução briosa, na hora em que o querelante apresentou aquela risada de pouco caso e deboche:
– Quá-quá-quá...
Não precisou de mais nada para que o gênio dos Azeredos e demais Furtados viesse de vela solta. Dei um pulo de cabrito e preparado estava para a guerra do lobisomem. Por descargo de consciência, do que nem carecia, chamei os santos de que sou devocioneiro:
– São Jorge, Santo Onofre, São José!
Em presença de tal apelação, mais brabento apareceu a peste. Ciscava o chão de soltar terra e macega no longe de dez braças ou mais. Era trabalho de gelar qualquer cristão que não levasse o nome de Ponciano de Azeredo Furtado.
Dos olhos do lobisomem pingava labareda, em risco de contaminar de fogo o verdal adjacente. Tanta chispa largava o penitente que um caçador de paca, estando em distância de bom respeito, cuidou que o mato estivesse ardendo. Já nessa altura eu tinha pegado a segurança de uma figueira e lá de cima, no galho mais firme, aguardava a deliberação do lobisomem. Garrucha engatilhada, só pedia que o assombrado desse franquia de tiro. Sabidão, cheio de voltas e negaças, deu ele de executar macaquices que nunca cuidei lobisomem pudesse fazer. Aquele par de brasas espiava aqui e lá na esperança de que eu pensasse ser uma súcia deles e não uma pessoa sozinha. O que o galhofista queria era que eu, coronel de ânimo desenfreado, fosse para o barro denegrir a farda e deslustrar a patente. Sujeito especial em lobisomem como eu não ia cair em armadilha de pouco pau. No alto da figueira estava, no alto da figueira fiquei. Diante de tão firme deliberação, o vingativo mudou o rumo da guerra. Caiu de dente no pé de pau, na parte mais afunilada, como se serrote fosse:
– Raque-raque-raque.
Não conversei – pronto dois tiros levantaram asa da minha garrucha. Foi o mesmo que espalhar arruaça no mato todo. Subiu asa de tudo que era bicho da noite e uma sociedade de morcegos escureceu o luar. No meio da algazarra, já de fugida, vi o lobisomem pulando coxo, de pernil avariado, língua sobressaída na boca. Na primeira gota de sangue a maldição desencantava, como é de lei e dos regulamentos dessa raça de penitentes. No raiar do dia, sujeito que fosse visto de perna trespassada, ainda ferida verde, podia contar, era o lobisomem.

(José Cândido de Carvalho, in “O Coronel e o Lobisomem”)


Leia também:
"Tormento não tem idade" - Moacyr Scliar
Mário de Sá-Carneiro - Poemas
"A repartição dos pães" - Clarice Lispector

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