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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Texto: “O chefe da nação morreu” – Henfil

O chefe da nação morreu

Mãe,

       O chefe da nação morreu e não declararam luto oficial, as bandeiras não ficaram a meio-pau e os governos estrangeiros não vieram ao funeral.
     O chefe da nação morreu e as rádios não mudaram sua programação habitual, continuaram tocando animados bailes de carnaval. 
     O chefe da nação morreu e os jornais não publicaram sua biografia, não saíram edições extraordinárias e nem escreveram editoriais destacando as qualidades do grande homem, grande patriota, grande chefe e amantíssimo pai.
O chefe da nação morreu e as escolas não suspenderam suas aulas, as fábricas não paralisaram suas máquinas e os bancos e repartições públicas funcionaram normalmente.
O chefe da nação morreu e a seleção nacional sequer respeitou um minuto de silêncio antes da partida sensacional.
O chefe da nação morreu, mas as igrejas não repicaram seus sinos, os padres não vestiram seus paramentos roxos e nenhuma missa foi celebrada em sufrágio de sua alma imortal.
O chefe da nação morreu e deputado algum, vereador nenhum pediu que o novo aeroporto, aquela pracinha, o grande estádio de futebol, eternizassem seu nome para todo o sempre.
Perdoai-os não, cacique Apoena. Eles sabem o que fazem.

(Henfil, in “Cartas da mãe”, 1980)

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