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sábado, 31 de agosto de 2013

FUVEST 2006 – 1º Fase – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA

FUVEST 2006 – 1º FASE – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA


Texto para as questões de 01 a 06

Ele se aproximou e com voz cantante de nordestino, que a emocionou, perguntou-lhe:
 E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?
 Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de ideia.
 E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?
 Macabéa. 
 Maca  o quê? 
 Bea, foi ela obrigada a completar.
 Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.
 Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo  parou um instante retomando o fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor  pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...
 Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra.
 Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado:
 Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?
 Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de Macabéa parecia lágrimas escorrendo.

Clarice Lispector, A hora da estrela.

01 - Neste excerto, as falas de Olímpico e Macabéa

a) aproximam-se do cômico, mas, no âmbito do livro,  evidenciam a oposição cultural entre a mulher nordestina e o homem do sul do País.
b) demonstram a incapacidade de expressão verbal das personagens, reflexo da privação econômica de que são vítimas.
c) beiram às vezes o absurdo, mas, no contexto da obra, adquirem um sentido de humor e sátira social.
d) registram, com sentimentalismo, o eterno conflito que opõe os princípios antagônicos do Bem e do Mal.  
e) suprimem, por seu caráter ridículo, a percepção do desamparo social e existencial das personagens.

02 Ao dizer: “(...) promessa é questão de grande dívida de honra”, Olímpico junta, em uma só afirmação, a obrigação religiosa e o dever de honra. A personagem de Sagarana que, em suas ações finais, opera uma junção semelhante é

a) Major Saulo, de “O burrinho pedrês”.
b) Lalino, de “Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo”.
c) Primo Ribeiro, de “Sarapalha”.
d) João Mangolô, de “São Marcos”.
e) Augusto Matraga, de “A hora e vez de Augusto Matraga”.

03 Considere as seguintes comparações entre a cena do primeiro encontro de Macabéa e Olímpico, figurada no excerto, e a célebre cena do primeiro encontro de Leonardo e Maria da Hortaliça (Memórias de um sargento de milícias), a bordo do navio:

I – Na primeira cena, utiliza-se o diálogo verbal como meio privilegiado de representação, ao passo que, na segunda, a ausência notória desse diálogo responde, em  grande parte, pelo efeito expressivo do texto.
 II – Em ambas as cenas, a representação da pobreza vem acompanhada de forte sentimento de culpa que perturba o narrador e o leva a questionar a validade da própria literatura.
III – Ambas as cenas são construídas como paródias de modelos literários consagrados: na primeira, parodiam-se as cenas amorosas do Romantismo; na segunda, são parodiadas as cenas idílicas dos romances do Realismo.

Está correto apenas o que se afirma em

a) I.    b) II.    c) III.    d) I e II.    e) II e III.

04 No trecho “mas minha mãe botou ele por promessa”, o pronome pessoal foi empregado em registro coloquial. É o que também se verifica em:

a) “− E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a passear?”
b) “− E, se me permite, qual é mesmo a sua graça?”
c) “− Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?”
d) “− Me desculpe mas até parece doença, doença de pele.”
e) “− (...) pois como o senhor vê eu vinguei... pois é...”

05 No trecho que vai de “Eu também acho esquisito” a “eu vinguei... pois é...”, o autor se vale, para traduzir o estado emocional de Macabéa, do seguinte recurso expressivo:

a) omissão de vírgulas entre orações.
b) emprego reiterado de frases nominais.
c) falta de rigor na concordância verbal.
d) eliminação da maioria dos conectivos entre as orações.
e) uso de regências verbais inadequadas.

06 No trecho “Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva”, o segmento sublinhado pode ser corretamente substituído por: “Sem que nem ao menos se

a) deem as mãos”.  
b) davam as mãos”.  
c) deram as mãos”.  
d) dessem as mãos”.  
e) dariam as mãos”.

Texto para as questões de 07 a 09

o Kramer apaixonou-se por uma corista que se chamava Olga. por algum motivo nunca conseguiam encontrar-se. ele gritava passando pela casa de Olga, manhãzinha (ela dormia): Olga, Olga, hoje estou de folga! mas nunca se viam e penso que ele sabia que se efetivamente se deitasse com ela o sonho terminaria. sábio Kramer. nunca mais o vi. Há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim. e por isso passíveis de serem sonhados a vida inteira.

Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido.

Observações:

O emprego sistemático de minúscula na abertura de período é opção estilística da autora.
Corista = atriz/bailarina que figura em espetáculo de teatro musicado.

07 Na perspectiva do narrador, o Kramer é considerado sábio porque, como um bom sonhador,

a) anima-se com a possibilidade de uma feliz e prolongada realização de seu sonho.
b) percebe que a realização de seu sonho acabaria sendo uma forma de negá-lo.
c) avalia objetivamente as circunstâncias de que depende a plena realização de seu sonho.
d) sabe que os sucessivos adiamentos da realização de seu sonho acabarão por fazê-lo desistir de sonhar.
e) acredita que a impossibilidade de realização de um sonho leva a um mais rápido amadurecimento.

08 Considere as seguintes afirmações:

I – Kramer apaixonou-se por uma corista.
II – Kramer e a corista jamais se encontraram.
III – Talvez Kramer julgasse ter sido melhor assim.

As afirmações acima estão articuladas de modo coerente e correto no seguinte período:

a) Talvez Kramer tenha julgado ter sido melhor que ele e a corista por quem se apaixonou jamais se houvessem encontrado.
b) Muito embora Kramer se apaixonou por uma corista, jamais se encontraram, mesmo porque ele julgaria ter sido melhor assim.
c) Jamais se encontraram Kramer e a corista por quem se apaixonou, pois talvez Kramer julgava que é melhor ser assim.
d) Quando se apaixonou por uma corista, ainda que ambos jamais se encontraram, Kramer talvez tenha achado que assim seria melhor.
e) Desde que Kramer se apaixonou e julgou melhor assim, ele e a corista jamais teriam se encontrado.

09 No trecho “há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim.”, o recurso de estilo que NÃO ocorre é a

a) redundância.   b) inversão.   c) gradação.   d) metáfora.   e) enumeração.
10 A televisão tem de ser vista ...... um prisma crítico, principalmente as telenovelas, ..... audiência é significativa. Temos de procurar saber ..... elas prendem tanto os telespectadores.

Preenchem de modo correto as lacunas acima, respectivamente,

a) a nível de/ as quais a/ por que.
b) sobre/ que/ porquê.
c) sob/ cuja/ por que.
d) em nível de/ cuja a/ porque.
e) sob/ cuja a/ porque.

11 Os verbos estão corretamente empregados apenas na frase:

a) No cerne de nossas heranças culturais se encontram os idiomas que as transmitem de geração em geração e que assegurem a pluralidade das civilizações.
b) Se há episódios traumáticos em nosso passado, não poderemos avançar a não ser que os encaramos.
c) Estresse e ambiente hostil são apenas alguns dos fatores que possam desencadear uma explosão de fúria.
d) A exigência interdisciplinar impõe a cada especialista que transcenda sua própria especialidade e que tome consciência de seus próprios limites.
e) O que hoje talvez possa vir a tornar-se uma técnica para prorrogar a vida, sem dúvida amanhã possa vir a tornar-se uma ameaça.

Texto para a questão 12

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

Alberto Caeiro, Poesia.

12 Considerando-se este poema no contexto das tendências dominantes da poesia de Caeiro, pode-se afirmar que, neste texto, o afastamento da festa de São João é vivido pelo eu-lírico como

a) oportunidade de manifestar seu desapreço pelas festividades que mesclam indevidamente o sagrado e o profano.
b) ânsia de integração em uma sociedade que o rejeita por causa de sua excentricidade e estranheza.
c) uma ocasião de criticar a persistência de costumes tradicionais, remanescentes no Portugal do Modernismo.
d) frustração, uma vez que não experimenta as emoções profundas nem as reflexões filosóficas que tanto aprecia.
e) reconhecimento de que só tem realidade efetiva o que corresponde à experiência dos próprios sentidos.

Texto para a questão 13

PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
(...)
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

 Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
 *
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

 Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Manuel Bandeira, Libertinagem

13 No conhecido poema de Bandeira, aqui parcialmente reproduzido, a experiência do afastamento da festa de São João

a) é de ordem subjetiva e ocorre, primordialmente, no plano do sonho e da imaginação.
b) reflete, em chave saudosista, o tradicionalismo que caracterizou a geração modernista de 1922.
c) se dá predominantemente no plano do tempo e encaminha uma reflexão sobre a transitoriedade das coisas humanas.
d) assume feição abstrata, na medida em que evita assimilar os dados da percepção sensível, registrados pela visão e pela audição.
e) é figurada poeticamente segundo o princípio estético que prevê a separação nítida de prosa e poesia.

Texto para as questões 14 e 15

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para conhecer o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

Amyr Klink, Mar sem fim.

14 A repetição de “precisa viajar” acentua, no contexto, o valor daquelas experiências que

a) se traduzem na exploração de nossa plena capacidade imaginativa.
b) concretizam o aprendizado das diferenças que formam a identidade pessoal.
c) ratificam a convicção de quem julga conhecer o que apenas imaginou.
d) acabam comprovando a importância de se viver tudo o que se planejou.
e) reforçam a simplicidade do prazer de um cotidiano sem surpresas.

15 Na frase “que nos faz professores e doutores do que não vimos”, o pronome sublinhado retoma a expressão antecedente

a) “para lugares”. b) “o mundo”. c) “um homem”. d) “essa arrogância”. e) “como o imaginamos”.

16 Costuma-se reconhecer que tanto O primo Basílio quanto as Memórias póstumas de Brás Cubas possuem notável conteúdo de crítica social. Apesar das muitas diferenças que separam os dois romances, em ambos essa crítica

a) fundamenta-se em minuciosa análise das relações sociais e tem como finalidade propor soluções construtivas para os problemas detectados.
b) dá a ver um conjunto de personagens que, com raras exceções, têm como traços mais marcantes a inconsistência, a pretensão, a veleidade e outras características semelhantes, figurando assim uma sociedade globalmente medíocre.
c) assume a forma do romance de tese, próprio da estética realista, no qual se procura validar um conjunto de hipóteses científicas, verificando-se sua pertinência na vida social das personagens.
d) visa a demonstrar o prejuízo que o excesso de leituras romanescas pode trazer à formação moral dos indivíduos, em particular quando interfere na educação das mulheres, matrizes da família.
e) incide principalmente sobre as mazelas sociais derivadas da persistência da escravidão em um contexto já moderno, no qual ela não mais se justifica.

Texto para as questões de 17 a 20

   É impossível colocar em série exata os fatos da infância porque há aqueles que já acontecem permanentes, que vêm para ficar e doer, que nunca mais são esquecidos, que são sempre trazidos tempo afora, como se fossem dagora. É a carga. Há os outros, miúdos fatos, incolores e quase sem som − que mal se deram, a memória os atira nos abismos do esquecimento. Mesmo próximos eles viram logo passado remoto. Surgem às vezes, na lembrança, como se fossem uma incongruência. Só aparentemente sem razão, porque não há associação de idéias que seja ilógica. O que assim parece, em verdade, liga-se e harmoniza-se no subconsciente pelas raízes subterrâneas − raízes lógicas! − de que emergem os pequenos caules isolados − aparentemente ilógicos! só aparentemente! − às vezes chegados à memória vindos do esquecimento, que é outra função ativa dessa mesma memória.

Pedro Nava, Baú de ossos.

17 Ao analisar os processos da memória, o autor manifesta a convicção de que

a) os fatos que não são lembrados com constância cairão para sempre nos abismos do esquecimento.
b) é mais dolorosa a lembrança de fatos que pareciam para sempre esquecidos do que a dos fatos que não saem da memória.
c) os fatos que pareciam inteiramente esquecidos podem de repente surgir na memória com o aspecto de uma associação imprópria.
d) é mais prazerosa a memória assídua de fatos da infância do que a memória de fatos ocorridos mais recentemente.
e) os fatos que, quando vividos, pareciam extravagantes costumam ser depois lembrados como inteiramente lógicos.

18 A expressão “O que assim parece” tem, no contexto, o sentido de

a) o que aparenta ser uma pura lembrança.
b) o que aparenta ser uma associação de idéias.
c) o que parece harmonizado no subconsciente.
d) o que parece uma incongruência.
e) o que aparece como se fosse lógico.

19 O que Pedro Nava afirma no final do texto ajuda a compreender o título do livro Esquecer para lembrar, de Carlos Drummond de Andrade, título que contém

a) um paradoxo apenas aparente, já que designa uma das operações próprias da memória.
b) uma contradição insuperável, justificada apenas pelo valor poético que alcança.
c) uma explicação para a dificuldade de se organizar de modo sistemático os fatos lembrados.
d) uma fina ironia, pois a antítese entre os dois verbos dá a entender o inverso do que nele se afirma.
e) uma metáfora, já que o tempo do esquecimento e o tempo da lembrança não podem ser simultâneos.

20 O valor sintático-semântico do vocábulo sublinhado no trecho “Há os outros, (...) que mal se deram”, corresponde ao do mesmo termo em:

a) Vou aceitar o cargo, apesar de falar mal o português.
b) Meu livro foi mal acolhido pelos críticos de plantão.
c) Mal sabia eu o que me esperava atrás daquela porta.
d) Em público, ela mal olha para mim.
e) Mal entrei em casa, o telefone tocou.

GABARITO

1 – C      2 – E    3 –A     4 –D     5 – A    6 –D    7 – B     8 – A    9 – B  10 – C
11 – D  12 – E  13 – C  14 – B  15 – D  16 – B  17 – C  18 – D  19 – A  20 – E


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FUVEST 2003 – 1º Fase – PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA
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