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domingo, 30 de dezembro de 2012

"Receita de Ano Novo" - Carlos Drummond de Andrade

FELIZ 2013 A TODOS!


Receita de Ano Novo
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

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Leia também:

Escritores falecidos em 2012
"A hora e a vez de Augusto Matraga" - Guimarães Rosa
“Poema de Natal” – Vinicius de Moraes
“Tempo que foge!” – Ricardo Gondim

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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Escritores falecidos em 2012

A homenagem do blog “Veredas da Língua” a alguns grandes escritores luso-brasileiros que nos deixaram em 2012. Lembremo-nos das palavras de Machado quando da morte de José de Alencar:

E ao tornar este sol, que te há levado,
Já não acha a tristeza. Extinto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacável e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...




Autran Dourado 
(1926 – 2012)






Bartolomeu Campos de Queirós 
(1944 – 2012)



Décio Pignatari 
(1927 – 2012)







Ilka Brunhilde Laurito 
(1925 – 2012)


Ivan Lessa 
(1935 – 2012)




Lêdo Ivo 
(1924 – 2012)


Manuel António Pina 
(1943 – 2012)




Millôr Fernandes 
(1923 – 2012)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Texto: “A hora e a vez de Augusto Matraga – Guimarães Rosa

   Toda a inventividade e maestria de Guimarães Rosa — com neologismos, derivações, onomatopeias e personificações — aparecem na magnífica descrição do amanhecer no sertão de Minas, repleto de maitacas, periquitos e tuins. Uma celebração da beleza da natureza e da força da linguagem.

A hora e a vez de Augusto Matraga (trecho)

"Mas, afinal, as chuvas cessaram, e deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo: um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias com luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá embaixo — a manhã mais bonita que ele já pudera ver.
Estava capinando, na beira do rego.
De repente, na altura, a manhã gargalhou: um bando de maitacas passava, tinindo guizos, partindo vi­dros, estralejando de rir. E outro. Mais outro. E ainda outro, mais bai­xo, com as maitacas verdinhas, grulhantes, incapazes de acertarem, as vozes na disciplina de um coro.
Depois, um grupo verde-azulado, mais sóbrio de gritos e em fileiras mais juntas.
— Uai! Até as maracanãs!
E mais maitacas. E outra vez as maracanãs fanhosas. E não se acabavam mais. Quase sem folga: era uma revoada estrilando bem por cima da gente, e outra brotando ao norte, como pontozinho preto, e outra ― grão de verdura — se sumindo no sul.
— Levou o diabo, que eu nunca pensei que tinha tantos!
E agora os periquitos, os periquitos de guinchos timpânicos, uma esquadrilha sobrevoando outra ... E mesmo, de vez em quando, discutindo, brigando, um casal de papagaios ciumentos. Todos tinham muita pressa: os únicos que interromperam, por momentos, a viagem, foram os alegres tuins, os minúsculos de cabecinha amarela, que não levam nada a sério, e que choveram nos pés de mamão e fizeram recreio, aos pares, sem sustar o alarido — rrr!-rrri!! rrr!-rrri!! ...
Mas o que não se interrompia era o trânsito das gárrulas maitacas. Um bando grazinava alto, risonho, para o que ia na frente:
— Me espera! Me espera!... — E o grito tremia e ficava nos ares, para o outro escalão, que avançava lá atrás.
— Virgem! Estão todas assanha­das, pensando que já tem milho nas roças... Mas, também, como é que podia haver um de-manhã mesmo bonito, sem as maitacas?!...
O sol ia subindo, por cima do voo verde das aves itinerantes. Do outro lado da cerca, passou uma rapariga. Bonita! Todas as mulheres eram boni­tas. Todo anjo do céu devia de ser mulher."

(Guimarães Rosa, in “A hora e a vez de Augusto Matraga”)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"Poema de Natal" - Vinicius de Moraes

Feliz Natal a todos!


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Vinicius de Moraes)


Leia também:
"A palavra escrita no muro" - Lêdo Ivo
"Vista cansada" - Otto Lara Resende

“A hora e a vez de Augusto Matraga” – Guimarães Rosa

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domingo, 23 de dezembro de 2012

Poeta e escritor Lêdo Ivo morre aos 88 anos


Poeta e escritor Lêdo Ivo morre aos 88 anos


     O poeta, escritor e jornalista Lêdo Ivo morreu neste domingo, aos 88 anos, em Sevilha, na Espanha, onde estava a passeio. Lêdo Ivo ocupava a cadeira número 10 da Academia Brasileira de Letras (ABL) e será homenageado pelos acadêmicos em sessão extraordinária marcada para o dia 10 de janeiro. O corpo será cremado na Espanha e as cinzas serão trazidas pela família para o Rio.  
    Nota divulgada pela ABL informa que "Lêdo Ivo foi vítima de infarto às 2h e morreu nos braços do filho, o artista plástico Gonçalo Ivo, que vive em Paris e o acompanhava na visita a Sevilha".
    Nascido em Maceió (AL) em 18 de fevereiro de 1924, Lêdo Ivo estudou na cidade natal até 1940, quando mudou-se para Recife e depois para o Rio, onde cursou a Faculdade Nacional de Direito.
    Estreou na literatura com As imaginações, de poesias, em 1944. No ano seguinte, publicou Ode e elegia, que lhe rendeu o prêmio Olavo Bilac, da ABL. O romance de estreia, As alianças, foi publicado em 1947. Escreveu dois livros de memórias, Confissões de um poeta (1979) e O aluno relapso (1991). Com Finisterra, o poeta recebeu quatro prêmios, entre eles o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Lêdo Ivo também foi premiado no México, em Cuba e na Espanha.
    "Poeta e ficcionista versátil, de obra variada que abarcava vários gêneros, Lêdo Ivo gozava de uma vitalidade assombrosa para seus quase noventa anos e sua saúde frágil. Falava alto, gostava de comer bem, se esmerava em contar histórias divertidas. Nos últimos tempos, essa disposição estava sendo comprovada o tempo todo, nas sucessivas viagens que se multiplicavam , fossem para participar de festivais internacionais de poesia, fossem para receber homenagens no exterior, sobretudo nos países de língua hispânica", disse a presidente da ABL, Ana Maria Machado, na nota oficial.

do Yahoo Notícias: http://br.noticias.yahoo.com/poeta-escritor-l%C3%AAdo-ivo-morre-aos-88-anos-160700310.html

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Leia também:

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cacaso – Poemas

CACASO - POEMAS

Indefinição
 
Pois assim é a poesia
Esta chama tão distante mas tão perto de
Estar fria.

(Cacaso) 

Imagens I

Para evitar malentendidos
digamos desde já que nos amamos

(Cacaso)

Jogos florais

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

(Cacaso)

E com vocês a modernidade

Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!

(Cacaso)

Refém

Eu sempre quis requebrar
só me faltou poesia
eu nunca soube rimar
mas sempre tive ousadia
nunca joguei o destino
e nem matei a família
a minha sorte na vida
se escreve com C cedilha
Eu nunca tive ideal
nunca avancei o sinal
nem profanei minha filha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

Eu sempre quis acertar
só me faltou pontaria
eu nunca soube cantar
mas sempre tive mania
nunca brinquei carnaval
e nem saí da folia
nunca pulei a fogueira
e nem dancei a quadrilha
Eu nunca amei a ninguém
nunca devi um vintém
nem encontrei minha trilha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

Terceiro Amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou 
Pintura de Carole Beatrice Perret.

como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

lar doce lar

Minha pátria é minha infância
Por isso vivo no exílio.

(Cacaso)

Meio-Termo

Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”) 

Happy end

O meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

(Cacaso) 
Hora e Lugar

Nosso amor foi um tormento
mas eu queria voltar
com você o sofrimento
era fácil de aguentar
até mesmo o fingimento
tinha lá o seu lugar
Mas sem você é um despeito
eu não me entendo direito
saio da terra e do ar

Nosso amor foi um deserto
mas tinha tudo pra dar
faltou apenas dar certo
questão de hora e lugar
A razão me trouxe embora
mas eu queria ficar
a paixão que me devora
sei que ela vai me matar

A vida vai lá fora
preciso de respirar
mas sem você é um sufoco
eu não me mato por pouco
ando fugindo do azar

Nosso amor passou por perto
tava tão fácil de achar
só faltou ser descoberto
questão de hora e lugar

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

Surdina

Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora a Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina...
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina...

(Cacaso)

Amor Amor

Quando o mar
quando o mar tem mais segredo
não é quando ele se agita
nem é quando é tempestade
nem é quando é ventania
quando o mar tem mais segredo
é quando é calmaria
quando o amor
quando o amor tem mais perigo
não é quando ele se arrisca
nem é quando ele se ausenta
nem quando eu me desespero
quando o amor tem mais perigo
é quando ele é sincero

(Cacaso)

Cinema mudo

IV

Neste retrato de noivado divulgamos
os nossos corpos solteiros.
Na hierarquia dos sexos, transparente,
escorrego
para o passado.
Na falta de quem nos olhe
vamos ficando perfeitos e belos
Tão belos e tão perfeitos
como a tarde quando pressente
as glândulas aéreas da noite.
Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.

(Cacaso)

ah

Ah se pelo menos o pensamento
não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração
não tivesse memória!
Como seria menos linda
e mais suave minha história!

(Cacaso)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Texto: “A palavra escrita no muro” – Lêdo Ivo

A palavra escrita no muro


  Era quase um garrancho, mas o menino a leu, letra por letra.
  E disse:
  – Boa noite.
  A palavra respondeu:
  – Boa noite.
 Diante da delicadeza da resposta, o menino perguntou:
  – Quem é você?
  E ela, rindo com todas as letras do seu corpo, respondeu:
  – Sou uma palavra.
  O menino pensou que ela estivesse presa, já que não podia sair do lugar, e perguntou-lhe:
  – Mas quem pôs você de castigo aí no muro?
  A palavra retrucou:
  – Eu não estou de castigo. Estou livre. Todas as palavras que você lê nos muros da cidade são livres.
  Nenhuma delas está em cativeiro.
  – Mas você está presa.
  A palavra tornou a desmentir:
  – Eu não estou presa. Num muro uma palavra é livre como um pássaro. Menino, vou dizer-lhe uma coisa para você guardar a vida inteira. Nenhuma palavra vive em cativeiro.
  O menino lembrou-se, então, de que em sua casa havia um grande dicionário que tinha nome de gente.
  E ponderou:
  – Mas, num dicionário, as palavras estão presas.
  A palavra (seria uma palavra senhora ou senhorita?) riu, exibindo seus belos e brancos dentes feitos de sílabas, e explicou:
  – Mesmo num dicionário as palavras são livres. Um dicionário não é uma prisão. É uma praça onde a gente se reúne.
  – Pra quê? – interrogou o menino.
  – Para servir aos homens. Todos nós temos uma serventia. Estamos a serviço da vida, do amor. Uma palavra é como um sol. Esquenta as pessoas. Quem sabe palavra não sente frio!
  – Mas quem foi que pôs você aí no muro? – quis saber o menino.
  – Foi um homem. Foi a mão de um homem.
  – Foi de dia ou foi de noite? (O menino era curioso, queira saber tudo.)
  A palavra não precisou se lembrar da hora em que fora colocada no muro como se fosse uma criança que a mãe põe no colo. Sabia isso na ponta da língua, pois as palavras também têm uma língua, como gente:
  – Foi de noite. Estava muito escuro. Você sabe que a noite é nossa irmã? Muitas vezes, em certos lugares, só de noite é que a gente pode andar.
  – Mas as palavras andam?
  – Menino, as palavras andam sempre. São como os ciganos. Não podem ficar paradas em lugar nenhum, nem nos livros nem na boca dos homens. Já lhe disse que somos passarinhos. Nascemos para voar.
  – Então, como foi que você nasceu?
  – Eu não nasci. Eu estava voando. Então pousei na mão de um homem como se fosse um passarinho. Ele não precisou de gaiola para me agarrar. Era um homem que tinha vindo de um comício, o povo tinha gritado muito. Ele estava precisando de uma palavra para dizer o que queria, tudo aquilo que estava dentro do seu coração e não podia manifestar-se porque eu ainda não tinha aparecido. Então eu pousei na mão dele. Esta rua estava escura, quase ninguém passava. O homem olhou para um lado e para o outro, viu que nenhum soldado estava passando, não havia polícia por perto, e pôs-me aqui. Dia e noite as pessoas passam e, mesmo em silêncio, conversam comigo, e levam-me em suas lembranças e nos seus corações. É um pouco difícil de explicar, mas eu sou levada e no entanto fico aqui, sem sair do lugar. Você entende?
  – E como é o seu nome, palavra-passarinho? – quis saber o menino.
  – MEU NOME É LIBERDADE, MENINO.
  – A senhora tem um nome muito bonito!
  – Não me chame de senhora, chame-me de você. Eu sou você.

(Lêdo Ivo, in “O menino da noite”)