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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Texto: “O Diamante” – Luis Fernando Verissimo

O Diamante

   Um dia, Maria chegou em casa da escola muito triste. 
   - "O que foi?" perguntou a mãe de Maria. 
   Mas Maria nem quis conversa. Foi direto para o seu quarto, pegou o seu Snoopy e se atirou na cama, onde ficou deitada, emburrada. A mãe de Maria foi ver se Maria estava com febre. Não estava. Perguntou se Maria estava sentindo alguma coisa. Não estava. Perguntou se estava com fome. Não estava. Perguntou o que era, então.   
   - "Nada" disse Maria. 
   A mãe resolveu não insistir. Deixou Maria deitada na cama, abraçada com o seu Snoopy, emburrada. Quando o pai de Maria chegou em casa do trabalho a mãe de Maria avisou: 
   - "Melhor nem falar com ela..." 
   Maria estava com cara de poucos amigos. Pior, estava com cara de amigo nenhum. 
   Na mesa do jantar, Maria de repente falou: 
   - "Eu não valo nada."
   O pai de Maria disse: 
   - "Em primeiro lugar, não se diz 'eu não valo nada'. É 'eu não valho nada'. Em segundo lugar, não é verdade. Você valhe muito. Quer dizer, vale muito." 
   - "Não valho." 
   - "Mas o que é isso?" disse a mãe de Maria. "Você é a nossa filha querida. Todos gostam de você. A mamãe, o papai, a vovó, os tios, as tias. Para nós, você é uma preciosidade." 
   Mas Maria não se convenceu. Disse que era igual a mil outras pessoas. A milhões de outras pessoas. 
   - "Só na minha aula tem sete Marias." 
   - "Querida..." começou a dizer a mãe. Mas o pai interrompeu. 
   - "Maria, disse o pai, você sabe por que um diamante vale tanto dinheiro?" 
   - "Porque é bonito." 
   - "Porque é raro. Um pedaço de vidro também é bonito. Mas o vidro se encontra em toda parte. Um diamante é difícil de encontrar. Quanto mais rara é uma coisa, mais ela vale. Você sabe por que o ouro vale tanto?" 
   - "Por quê?" 
   - "Porque tem pouquíssimo ouro no mundo. Se o ouro fosse como areia, a gente ia caminhar no ouro, ia rolar no ouro, depois ia chegar em casa e lavar o ouro do corpo para não ficar suja.      
Agora, imagina se em todo o mundo só existisse uma pepita de ouro." 
   - "Ia ser a coisa mais valiosa do mundo."
   - "Pois é. E em todo o mundo só existe uma Maria." 
   - "São iguais a mim. Dois olhos, um nariz..." 
   - "Mas esta pintinha aqui nenhuma delas tem." 
   - "É..." 
   - "Você já se deu conta que em todo mundo só existe uma você?" 
   - "Mas, pai..." 
   - "Só uma. Você é uma raridade. Podem existir outras parecidas. Mas você, você mesmo, só existe uma. Se algum dia aparecer outra você na sua frente, você pode dizer: é falsa."
   - "Então eu sou a coisa mais valiosa do mundo." 
   - "Olha, você deve estar valendo aí uns três trilhões..." 
Naquela noite a mãe de Maria passou perto do quarto dela e ouviu Maria falando com o Snoopy: 
   - "Sabe um diamante?"

(Luis Fernando Verissimo)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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