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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Texto: “Entre aspas” – Fabrício Carpinejar

Entre aspas

Trechos e obras de grandes escritores são publicados em livros de resumos e redes sociais, muitas vezes falsos ou fora do contexto original

O livro que Mario Quintana mais vendeu em vida foi sua agenda poética, triste zombaria a um dos poetas mais amados do país. Era um agourento sinal da tempestade que estava apenas começando. Com o apogeu dos vestibulares, os livros se tornaram resumos. Com o declínio dos vestibulares, eles viraram sentenças. Não havia limites para a retração. Grandes e imensas obras foram se transformando em quadrinhos, trechos e frases, publicados em blogs e perfis do Twitter do Facebook.
O sueco Henrik Lange ironizou o momento dissecando referências literárias em rápidas caricaturas. Em “90 livros clássicos para apressadinhos”, as mil páginas do monumental “Dom Quixote de la Mancha”  acabaram reduzidas a cinco linhas: “Dom Quixote, na época em que não tinha TV, lia pra cacete e ficou com umas ideias malucas. Ele ataca moinhos que pensa serem gigantes e até o cavalo dele acha que ele é louco. Ele descobre que não tem mais lugar pra heróis no mundo e resolve voltar pra casa. O cavalo dá graças a Deus (e os moinhos também)”.
Seguindo a mesma compressão descolada, o transcendental enredo de “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, pode ser abreviado à esquálida sinopse: “Ex-jagunço Riobaldo assume a liderança do bando com a morte de Joca Ramiro, seu chefe, assassinado por Hermógenes, líder de grupo rival. Riobaldo busca vingar a morte de Joca Ramiro, para ele uma questão de honra. Nessa intenção, tenta um pacto com o demônio para obter proteção e força”.
Gozação? Não, preguiça. Ler ganhou a solenidade de estudo. Difícil, demorado. As redes sociais e os aplicativos passaram a converter autores em gurus. A moda é extrair trechos de caudalosas narrativas para bombarem na internet. Hoje, uma frase irônica é deslocada do seu contexto, a ponto de parecer um elogio. Pensamentos provisórios recebem ares definitivos de epitáfios. Romancistas como Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Ernest Hemingway viram dublês dos fãs e são condenados a uma condição secundária de frasistas.
Uma descrição de apoio, sem nenhuma relevância fora da trama, é emoldurada pelo bronze das aspas. O twitter fake de Virginia Woolf (@Woolf_Virginia), com mais de oito mil seguidores, por exemplo, aproveita para postar uma frase da escritora inglesa: “Tão logo essa palavra ‘amor’ lhe ocorreu, ela a rejeitou”. A gratuidade beira a insanidade. Ela quem? De onde foi retirado o fragmento? Qual a lógica dessa observação?
Banalidades têm contornos de iluminação profética. A grife (autoria) reveste platitudes de falsa densidade. O raciocínio é o seguinte: se Virginia Woolf escreveu, só pode ser profundo. Um pouco mais, teremos a autoria de vírgulas e travessões.
Inspirado pela Wikipédia, o leitor tomou a iniciativa de editar sua biblioteca e alimentar a intensa e tumultuada convivência digital com máximas edificantes (não importam os meios). O gosto pela frase de efeito vem resultando na produção em série de frases de defeito, pondera o crítico Antonio Carlos Secchin. “Há um desvio da direção do original, um desapontamento do destino. ‘Leia isso e se torne feliz em dez segundos’ é a tônica dos propagadores internéticos, que pretendem veicular por meio de pensamentos pinçados a esmo e nem sempre transcritos com fidelidade na obra de autores consagrados”, lamenta.
Talvez seja o fim dos tempos. As trágicas horas de Nietzsche são agora eufóricos minutos de sabedoria. Seus pensamentos sequestrados soam como conselhos de padre: “Pobre do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o canteiro de suas plantas” e “De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar, como um gato?”.
Toda contestação e fúria migram para um sentimentalismo ingênuo de sermão. Não há citação da fonte, muito menos qualquer referência bibliográfica, o que piora o cenário. “Existe uma tropa de imitadores sem alma desidratando o pensador, logo ele, que pregava o amor aos fatos”, comenta o psicoterapeuta gaúcho Paulo Sergio Rosa Guedes, autor de “O sentimento de culpa”.
Thalita Rebouças, especialista em sucessos adolescentes como “Ela disse,ele disse” e ‘Fala sério, filha”, 13 livros publicados e mais de 1 milhão de exemplares vendidos, defende o jogo de cintura e a cabeça fresca hoje em dia. Tampouco pretende controlar suas criações na internet: “Ficaria paranoica”, ri. A autora é da tese de que, depois de escrito, o livro é do leitor e cada um tem o direito de entender a história do seu jeito.
A autora não sofre de onipotência virtual, a ponto de se “googlar” para verificar o alcance do seu nome. Ri dos enganos como se fossem necessários para o aprendizado do ofício. Relaxa e quase goza: “Dei uma entrevista em que a última pergunta era sobre a minha primeira vez (já que estava lançando “Era uma vez minha primeira vez”). Respondi: Tinha 18 anos, foi bacana e sem traumas. Na capa do jornal online, a manchete era: ‘Thalita Rebouças conta como perdeu a virgindade’ (risos). Tem como não rir? A matéria estava entre as cinco mais lidas do jornal. E eu não contei nada! Só que foi bacana e sem traumas. Agradeci ao repórter. Se fosse ‘Thalita Rebouças fala sobre livro novo’ tenho certeza de que ficaria entre as cinco menos lidas do jornal.”
Já Martha Medeiros, best-seller com “Feliz por nada”, não é presa contumaz do Ctrl+C/ Ctrl+V. Suas mortes literárias são de distinta ordem, não menos dolorosas. “Não acontece muito de pescarem uma frase e a tirarem do contexto. Sou campeã em outra modalidade: passarem meus textos adiante cheios de enxertos e finais melosos. Eca. Fica uma churumela de doer. O pessoal faz sua ‘colaboração’ sem o menor constrangimento e repassa mantendo a minha assinatura.”
Famosa pelo romance “Divã”, adaptado em cinema e televisão, Martha tem que aturar o troca-troca do crédito de seus textos. É ghost writer involuntária de uma enciclopédia. “O texto é meu, porém assinado por Pablo Neruda, Verissimo, Mario Quintana, Pedro Bial, Miguel Falabella...”
A ficcionista gaúcha conta apenas com a vigilância dos leitores fiéis e fanáticos, que avisam, e procuram esclarecer confusões e, diante de uma versão apócrifa, mandam a cópia correta. “Isso é um pingo d´água dentro de um transbordamento de estelionatos autorais. E ainda existem os casos de má-fé, que julgo como crime: em época de campanha eleitoral, já infiltraram o nome de um candidato no meio de minha crônica, como se eu declarasse o apoio”, relata Martha.
O negócio é refazer a Arca de Noé: proteger os livros e enfrentar o dilúvio. E abandonar os papagaios, os carrapatos e as serpentes pelo caminho.

(Fabrício Carpinejar, in “Revista da Cultura”, fevereiro de 2012)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Leia também:

“Vinte e uma coisas que aprendi como escritor” – Moacyr Scliar
João Cabral de Melo Neto – Poemas
“Fita Verde no Cabelo” – Guimarães Rosa
Ana Cristina César – Poemas

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

Um comentário:

  1. Confesso que já fui (e as vezes ainda peco) de pegar frases ou mensagens e não verificar se o autor é realmente o autor. Hoje, ainda mais com a facilidade em poder pesquisar, faço isso, antes de publicar ou passar algo pra frente.

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