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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pedro Kilkerry - Poemas

PEDRO KILKERRY


É o silêncio

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz n’algum volume sobre a mesa ...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
a pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, um passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das coisas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante, como quem sacuda
um pesadelo de papéis acima...

.................................................................................

E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E oh! minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e asas de um morcego.

(Pedro Kilkerry)

Cérbero

É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
-  Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!

É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.

Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aleia em flor que em vão, toda transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!

Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.

(Pedro Kilkerry)

Floresta Morta

Por que, à luz de um sol de primavera,
Urna floresta morta? Um passarinho
Cruzou, fugindo-a, o seio que lhe dera
Abrigo e pouso e que lhe guarda o ninho.

Nem vale, agora, a mesma vida, que era
Como a doçura quente de um carinho,
E onde flores abriram, vai a fera
— Vidrado o olhar — lá vai pelo caminho.

Ah! quanto dói o vê-la, aqui, Setembro,
Inda banhada pela mesma vida!
Floresta morta a mesma cousa lembro;

Sob outro céu assim, que pouco importa,
Abrigo à fera, mas, da ave fugida,
Há no meu peito urna floresta morta.

(Pedro Kilkerry)

O Verme e a Estrela

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?


(Pedro Kilkerry)

Sob os Ramos

É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo — sob a loira poeira
Que chove o sol — e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.

Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.

Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...

Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!


(Pedro Kilkerry)






Ritmo Eterno

Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha… Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo…

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar…
Alvor, turquesa, ondula a matéria… É veludo,

É minh’alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!

(Pedro Kilkerry)

Amor volat

Não, não é comigo que ele nasceu... A sua asa
Só a um tempo ruflou desse modo, tamanho!
Bateu-me o coração... E outro não sei que, estranho,
Rudamente o rasgou como o seu bico em brasa...

Entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casa
E em meu sangue, a cantar, fez de um boêmio no banho!
Oh! Que pássaro mau! E eu nunca mais o apanho!
Vês: estou velho já. Treme-me o passo, e atrasa...

Olha-me bem, no peito, o rubro ninho aberto!
Hoje fúnebre, a piar, uma estrige ao telhado
E o meu seio vazio! e o meu leito deserto!

E vivo só por ver, como curvo aqui fico,
Esse pássaro voar largamente, um bocado
de músculos pingando a levar-me no bico!


(Pedro Kilkerrry)


"O mundo de Cristina". Andrew Wyeth.
O Muro

Movendo os pés doirados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas 

As impalpáveis formas no ar, cheirosas...
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio... e um muro, magro, em frente,
Abrindo à tarde as órbitas musgosas.
- Vazias? Menos do que misteriosas –
Pestaneja, estremece... O muro sente!

E que cheiro sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa.
E lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa...
Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele
É onde a volúpia está de uma asa e outra asa...


(Pedro Kilkerrry)


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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Texto: "A Viajante" - Rubem Braga

A Viajante




              Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá. 
        Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique. 
        Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou. 
        Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternas e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que os das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua. 
        Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde – torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel. 
        Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você. 

(Rubem Braga, in “A Borboleta Amarela”)

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA – CARGO: AGENTE DE POLÍCIA FEDERAL

PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA – CONCURSO PÚBLICO – CARGO: AGENTE DE POLÍCIA FEDERAL (2009)


De acordo com o comando a que cada um dos itens a seguir se refira, marque, na folha de respostas, para cada item: o campo designado com o código C, caso julgue o item CERTO; ou o campo designado com o código E, caso julgue o item ERRADO.


PROVA OBJETIVA


     Nossos projetos de vida dependem muito do futuro
     do país no qual vivemos. E o futuro de um país não é
     obra do acaso ou da fatalidade. Uma nação se constrói.
4   E constrói-se no meio de embates muito intensos — e, às
     vezes, até violentos — entre grupos com visões de futuro,
     concepções de desenvolvimento e interesses distintos e
7   conflitantes.
     Para muitos, os carros de luxo que trafegam pelos
     bairros elegantes das capitais ou os telefones celulares não
10 constituem indicadores de modernidade.
     Modernidade seria assegurar a todos os habitantes
     do país um padrão de vida compatível com o pleno exercício
13 dos direitos democráticos. Por isso, dão mais valor a um
     modelo de desenvolvimento que assegure a toda a população
     alimentação, moradia, escola, hospital, transporte coletivo,
16 bibliotecas, parques públicos. Modernidade, para os que
     pensam assim, é sistema judiciário eficiente, com aplicação
     rápida e democrática da justiça; são instituições públicas
19 sólidas e eficazes; é o controle nacional das decisões
     econômicas.

Plínio Arruda Sampaio. O Brasil em construção. In: Márcia Kupstas (Org.). Identidade nacional em debate. São Paulo: Moderna, 1997, p. 27-9 (com adaptações).

Considerando a argumentação do texto acima bem como as estruturas linguísticas nele utilizadas, julgue os itens a seguir.

1Na linha 2, mantendo-se a correção gramatical do texto, pode-se empregar em que ou onde em lugar de “no qual”.

2Infere-se da leitura do texto que o futuro de um país seria “obra do acaso” (R.3) se a modernidade não assegurasse um padrão de vida democrático a todos os seus cidadãos.

3. Para evitar o emprego redundante de estruturas sintático-semânticas, como o que se identifica no trecho “Uma nação se constrói. E constrói-se no meio de embates muito
intensos” (R.3-4), poder-se-ia unir as ideias em um só período sintático — Uma nação se constrói no meio de embates —, o que preservaria a correção gramatical do texto, mas reduziria a intensidade de sua argumentação.

4. Se o terceiro parágrafo do texto constituísse o corpo de um documento oficial, como um relatório ou parecer, por exemplo, seria necessário preservar o paralelismo entre as
ideias a respeito de “Modernidade” (R.11 e 16), por meio da conjugação do verbo ser, nas linhas 11 e 17, no mesmo tempo verbal.

5. O trecho “os que pensam assim” (R.16-17) retoma, por coesão, o referente de “muitos” (R.8), bem como o sujeito implícito da oração “dão mais valor a um modelo de desenvolvimento” (R.13-14).

6. O emprego do sinal de ponto-e-vírgula, no último período sintático do texto, apresenta a dupla função de deixar claras as relações sintático-semânticas marcadas por vírgulas dentro do período e deixar subentender “Modernidade” (R.16) como o sujeito de “é sistema” (R.17), “são instituições” (R.18) e “é o controle” (R.19).


1   Na verdade, o que hoje definimos como democracia
     só foi possível em sociedades de tipo capitalista, mas não
     necessariamente de mercado. De modo geral, a
4   democratização das sociedades impõe limites ao mercado,
     assim como desigualdades sociais em geral não contribuem
     para a fixação de uma tradição democrática. Penso que temos
7   de refletir um pouco a respeito do que significa democracia.
     Para mim, não se trata de um regime com características
     fixas, mas de um processo que, apesar de constituir formas
10 institucionais, não se esgota nelas. É tempo de voltar ao
     filósofo Espinosa e imaginar a democracia como uma
     potencialidade do social, que, se de um lado exige a criação
13 de formas e de configurações legais e institucionais, por
     outro não permite parar. A democratização no século XX
     não se limitou à extensão de direitos políticos e civis. O tema
16 da igualdade atravessou, com maior ou menor força, as
     chamadas sociedades ocidentais.

Renato Lessa. Democracia em debate. In: Revista
Cult, n.º 137, ano 12, jul./2009, p. 57 (com adaptações).

Com base nas estruturas linguísticas e nas relações argumentativas do texto acima, julgue os itens seguintes.

7. Seria mantida a coerência entre as ideias do texto caso o segundo período sintático fosse introduzido com a expressão “Desse modo”, em lugar de “De modo geral” (R.3).

8. Preservam-se a correção gramatical e a coerência textual ao se optar pela determinação do substantivo “respeito” (R.7), juntando-se o artigo definido à preposição “a”, escrevendo-se ao respeito.

9. Na linha 8, a flexão de singular em “não se trata” deve-se ao emprego do singular em “um regime”.

10. Depreende-se da argumentação do texto que o autor considera as instituições como as únicas “características fixas” (R.8-9) aceitáveis de “democracia” (R.1 e 7).

11. Pela acepção usada no texto, o emprego da forma verbal pronominal “se limitou” (R.15) exige a presença da preposição “a” no complemento verbal; a substituição pela
forma não-pronominal — não limitou a extensão —, sem uso da preposição, preservaria a correção gramatical, mas mudaria o efeito da ideia de “democratização” (R.14).

12. Em textos de normatização mais rígida do que o texto jornalístico, como os textos de documentos oficiais, a contração de preposição com artigo, com em “da igualdade”
(R.16), deve ser desfeita, devendo-se escrever de a igualdade, para que o sujeito da oração seja claramente identificado.

     A visão do sujeito indivíduo — indivisível —
     pressupõe um caráter singular, único, racional e pensante em
     cada um de nós. Mas não há como pensar que existimos
4   previamente a nossas relações sociais: nós nos fazemos em
     teias e tensões relacionais que conformarão nossas
     capacidades, de acordo com a sociedade em que vivemos.
7   A sociologia trabalha com a concepção dessa relação entre
     o que é “meu” e o que é “nosso”. A pergunta que propõe
     é: como nos fazemos e nos refazemos em nossas relações
10 com as instituições e nas relações que estabelecemos com os
     outros? Não há, assim, uma visão de homem como uma
     unidade fechada em si mesma, como Homo clausus.
13 Estaríamos envolvidos, constantemente, em tramas
     complexas de internalização do “exterior” e, também, de
     rejeição ou negociação próprias e singulares do “exterior”.
16 As experiências que o homem vai adquirindo na relação com
     os outros são as que determinarão as suas aptidões, os seus
     gostos, as suas formas de agir.

Flávia Schilling. Perspectivas sociológicas. Educação & psicologia.
In: Revista Educação, vol. 1, p. 47 (com adaptações).

Julgue os seguintes itens, a respeito das estruturas linguísticas e do desenvolvimento argumentativo do texto acima.

13. Ao ligar dois períodos sintáticos, o conectivo “Mas” (R.3) introduz a oposição entre a ideia de um sujeito único e indivisível e a ideia de um sujeito moldado por teias de relações sociais.

14. A inserção do sinal indicativo de crase em “existimos previamente a nossas relações sociais” (R.3-4) preservaria a correção gramatical e a coerência do texto, tornando
determinado o termo “relações”.

15. Na linha 4, para se evitar a sequência “nós nos”, o pronome átono poderia ser colocado depois da forma verbal “fazemos”, sem que a correção gramatical do trecho fosse prejudicada, prescindindo-se de outras alterações gráficas.

16. O emprego do sinal de dois-pontos, na linha 9, anuncia que uma consequência do que foi dito é explicitar a pergunta proposta pela sociologia.

17. O emprego das aspas nos termos das linhas 8, 14 e 15 ressalta, no contexto, o valor significativo não usual desses termos.

18. O uso da forma verbal flexionada na primeira pessoa do plural “Estaríamos” (R.13) inclui autor e leitores no desenvolvimento da argumentação, de tal modo que seria
coerente e gramaticalmente correto substituir “o homem vai adquirindo” (R.16) por vamos adquirindo, no período seguinte.

19. Na linha 15, a flexão de plural em “próprias e singulares” estabelece relações de coesão tanto com “rejeição” quanto com “negociação” e indica que esses substantivos têm referentes distintos e não podem ser tomados como sinônimos.

1   O uso do espaço público nas grandes cidades é um
     desafio. Sobretudo porque algumas regras básicas de boa
     convivência não são respeitadas. Por exemplo, tentar sair de
4   um vagão do metrô com a multidão do lado de fora querendo
     entrar a qualquer preço, sem esperar e dar passagem aos
     demais usuários. Ou andar por ruas sujas de lixo, com fezes
7   de cachorro e cheiro de urina. São situações que transformam
     o convívio urbano em uma experiência ruim. A saída é a
     educação. Convencidos disso, empresas e governos estão
10 bombardeando a população com campanhas de
     conscientização — e multas, quando só as advertências não
     funcionarem. Independentemente da estratégia, o senso de
13 urgência para uma mudança de comportamento na sociedade
     brasileira veio para ficar.
     As iniciativas são louváveis. Caso a população,
16 porém, se sinta apenas punida ou obrigada a uma atitude, e
     não parte da comunidade, os benefícios não se tornarão
     duradouros.

Suzane G. Frutuoso. Vai doer no bolsão.
In: Istoé, 22/7/2009, p. 74-5 (com adaptações).


A respeito da organização das estruturas linguísticas do texto acima e da redação de correspondências oficiais, julgue os itens subsequentes.

20. Respeitam-se a coerência da argumentação do texto e a sua correção gramatical, se, em vez de se empregar “do espaço público” (R.1), no singular, esse termo for usado no plural: dos espaços públicos.

21. A fragmentação sintática de ideias coordenadas, decorrente do emprego do ponto-final antes de “Sobretudo” (R.2), de “Ou” (R.6) e de “São situações” (R.7), que é admitida em textos jornalísticos, deve ser evitada, para facilitar a objetividade e a clareza, na redação de documentos oficiais.

22. Na relação entre as ideias do texto, subentende-se ao imediatamente antes de “tentar” (R.3) e de “andar” (R.6); por isso, a inserção de ao nessas posições tornaria o texto mais claro, além de manter a sua correção gramatical.

23. Na linha 11, a presença da conjunção “e” torna desnecessário o uso do travessão, que tem apenas a função de enfatizar a aplicação de “multas”; por isso, a retirada
desse sinal de pontuação não prejudicaria a correção nem a coerência do texto.

24. A substituição de “Caso” (R.15) pela conjunção Se preservaria a correção gramatical da oração em que se insere, não demandaria outras modificações no trecho e
respeitaria a função condicional dessa oração.

GABARITO OFICIAL

1 – C
2 – E
3 – C
4 – E
5 – C
6 – C
7 – E
8 – E
9 – E
10 – E
11 – C
12 – E
13 – C
14 – E
15 – E
16 – C
17 – C
18 – E
19 – C
20 – C
21 – C
22 – E
23 – E
24 – E

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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Texto - "Persona" - Clarice Lispector

PERSONA


        Não, não pretendo falar do filme de Bergman. Também emudeci ao sentir o dilaceramento de culpa de uma mulher que odeia seu filho, e por quem este sente um grande amor. A mudez que a mulher escolheu para viver a sua culpa: não quis falar, o que aliviaria o seu sofrimento, mas calar-se para sempre como castigo. Nem quero falar da enfermeira que, se a princípio tinha a vida assegurada pelo futuro marido e filhos, absorve, no entanto, a personalidade da que escolhera o silêncio, transforma-se numa mulher que não quer nada e quer tudo – e o nada o que é? E o tudo o que é? Sei, oh sei que a humanidade se extravasou desde que apareceu o primeiro homem. Sei que a mudez, se não diz nada, pelo menos não mente, enquanto as palavras dizem o que não quero dizer. Também não vou chamar Bergman de genial. Nós, sim, é que não somos geniais. Nós que não soubemos nos apossar da única coisa completa que nos é dada ao nascimento: o gênio da vida. 
       Vou falar da palavra pessoa, que persona lembra. Acho que aprendi o que vou contar com meu pai. Quando elogiavam demais alguém, ele resumia sóbrio e calmo: é, ele é uma pessoa. Até hoje digo, como se fosse o máximo que se pode dizer de alguém que venceu numa luta, e digo com o coração orgulhoso de pertencer à humanidade: ele, ele é um homem. Obrigada por ter desde cedo me ensinado a distinguir entre os que realmente nascem, vivem e morrem daqueles que, como gente, não são pessoas.
       Persona... Tenho pouca memória, por isso já não sei se era no antigo teatro grego que os atores, antes de entrar em cena, pregavam ao rosto uma máscara que representava pela expressão o que o papel de cada um deles iria exprimir.
        Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto e que a máscara as esconde. Por que então me agrada tanto a ideia de atores entrarem no palco sem rosto próprio? Quem sabe eu acho que a máscara é um dar-se tão importante quanto o dar-se pela dor do rosto. Inclusive os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo, fabricam a própria máscara. E com muita dor. Porque saber que de então em diante se vai passar a representar um papel é uma surpresa amedrontadora. É a liberdade horrível de não ser. É a hora da escolha.
        Mesmo sem ser atriz – nem ter pertencido ao teatro grego – uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade, mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível. É, pois, menos perigoso escolher sozinho ser uma pessoa. Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é. 
        Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar. É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente – ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida, – de repente a máscara de guerra de vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem como um ruído oco no chão. Eis o rosto agora nu, maduro, sensível quando já não era mais para ser. E ele chora em silêncio para não morrer. Pois nessa certeza sou implacável: este ser morrerá. A menos que renasça até que dele se possa dizer “esta é uma pessoa”. Como pessoa teve que passar pelo caminho de Cristo.

(Clarice Lispector)


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Paulo Bomfim - Poemas

PAULO BOMFIM
Estudo de paisagem marinha com barco e céu de tempestade”, John Constable.

TRANSFIGURAÇÃO I

Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha,
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes...

Venho de longe a contornar a esmo
O cabo das tormentas de mim mesmo.

(Paulo Bomfim)

OS DIAS MORTOS

Os dias mortos, sim, onde enterrá-los?
Que solo se abrirá para acolhê-los
Com seus pés indecisos, seus cabelos,
Seu galope de sôfregos cavalos!

Os dias mortos, sim, onde guardá-los?
Em que ossário reter seus pesadelos,
Seu tecido rompido de novelos,
Seus fios graves, relva além dos valos.

Tempo desintegrado, tempo solto,
Fátuo fogo de febre e de fuligem,
Canteiro de sereia em mar revolto.

Em nossa carne, sim, em nossos portos,
Quando o fim regressar à própria origem,
Repousarão também os dias mortos!

(Paulo Bomfim)

SONETO V

"The Absinthe Drinker". Manet.
Alquimia do verbo. Em minha mente
Recriam-se palavras na hora vária,
A poesia se torna necessária
E as flores rememoram a semente.

É preciso que exista novamente
A aventura distante e temerária
De em ouro transformar a dor precária
E em nós deixar correr a lava ardente.

Que uma emoção profunda e mineral
Corra nos veios desta carne astral
E encontre em mim aquilo que procura.

Na paisagem que for, já sou nascido:
Nas formas criarei o elo perdido,
E, em lucidez, serei minha loucura.

(Paulo Bomfim)

SONETO XXV

Antes do fim o canto derradeiro
Evocando as pegadas de outra sorte,
Há de se erguer sobre o perdido porte 
E falar do sentido verdadeiro.

Há de lembrar a luta, o chão guerreiro,
A fraqueza vencendo a noite forte,
A vida que passou fronteira morte,
O céu subindo do despenhadeiro.

Antes do fim, o canto despedida
Se erguerá das nascentes do futuro
Evocando a batalha já perdida.

Depois... então se faça a nobre pausa,
Para que o canto seja além do muro
O efeito imaginando nova causa.

(Paulo Bomfim)

SONETO DOS MUITOS EUS

Um eu ficou no mar aprisionado
E deixou-me por pés as nadadeiras;
Outro ficou nas nuvens caminheiras,
Por isso bato os braços no ar parado.

Um eu partiu menino ensimesmado
E ofertou-me palavras verdadeiras,
Outro amou suas sombras companheiras,
Outro foi só, e um outro de cansado

Caminhou pelos becos. Há também
Aqueles que ficaram na poesia,
Nos bares, na rotina, o eu do bem,

Do mal, o herói, o trágico, o esquecido.
Eu gerado por mim na liturgia
De um todo para tantos dividido!

(Paulo Bomfim)

DO CAOS

Invento este soneto onde procuro
Surgir de um ventre de palavras novas,
Nascer de mim, de ti, de tantas provas
Que me iniciam como um deus futuro.

Modelo sensações num mundo escuro
Onde semeio o corpo pelas covas,
Berços de terra, fonte onde renovas
As vidas que guardaste com meu muro.

Enquanto pelo céu as grandes naves
Vão sangrando de azul as descobertas
E os anjos vão ficando inda mais graves,

Invento este soneto de granizo,
Ferindo em minhas folhas entreabertas
O caos que se transforma num sorriso.

(Paulo Bomfim)

“A terra, que tem bebido tanto sangue e devorado tantos corpos, dá flores vermelhas em noites azuis.”

(Paulo Bomfim)

"Em todo regresso, há sempre um pouco de despedida"

(Paulo Bomfim)

"Assobiei a música do vento e os pássaros cantaram nos meus braços.”

(Paulo Bomfim)

Do Menino

O menino, caminho de lembranças,
Bate a bola do mundo pela rua;
Traz cafezais nos bolsos, traz a lua,
E não encontra mais outras crianças!

Indaga das esquinas de águas mansas,
Do espectro dos sobrados, da falua,
Dos fastos que se foram, da alma nua
Que se vestia outrora de esperança.

O neto se disfarça em seus avós,
Retrato de memórias redivivas
E cantochão dos que ficaram sós.

Um menino entardece em suas fugas:
Que mãos o aprisionaram, tão esquivas,
Pássaro-tempo no alçapão das rugas!

(Paulo Bomfim)

De tudo quanto amamos

De tudo quanto amamos o que resta,
O riso desbotado dos retratos,
A talagarça dos momentos gratos
Ou a tristeza desse fim de festa?

Ficou por certo a ruga em nossa testa
Inventariando feitos e relatos,
E vozes e perfis somando fatos,
E a desfocada imagem da seresta.

E tudo o fogo afaga em canto findo,
Este porque de coisas devolutas,
E o tempo nômade que foi partindo.

Ficou de quanto amamos nos escolhos
A restinga das horas dissolutas,
E o mar aprisionado em nosso olhos!

(Paulo Bomfim)


Das Palavras

Somos palavras, quem nos pronuncia
E nos une em sentenças tão estranhas, 
"Little boy writing a letter". Norman Rockwell

Quem anda a soletrar pelas montanhas
Os nomes aquecendo a tarde fria?

Quem nos profere com melancolia,
Quem gesta nossas letras nas entranhas,
E nos faz caminhar entre tamanhas
Contradições da noite à luz do dia?

Ah! sopro que nos sopra sem ter boca,
Letras, quem ousaria assim tecê-las
No labirinto da garganta rouca?

Quem ousaria pois falar contudo,
Se o sangue das vogais vem das estrelas,
E as palavras se perdem num céu mudo!

(Paulo Bomfim)


Soneto I – Súdito da Noite

Não busco especiarias, sou apenas
Um corpo transformado na paisagem,
Barco de amor e morte, céu de penas,
Voo tinto de rumos e ancoragem.

Se pastoreio estas contradições
Que são agora carne e pensamento,
É porque trago a noite e seus violões
A percorrer os quarteirões do vento.

Dos passos estrangeiros crio o mapa
E a bússola escondida na lapela,
O resto é chuva desenhando a capa
Que jogo sobre o corpo da procela.

Não busco especiarias, sou somente
A mesa posta e o convidado ausente.

(Paulo Bomfim)

www.veredasdalingua.blogspot.com.br

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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

HOMENAGEM AOS FORMANDOS DE 2011 DO COLÉGIO POP

Homenagem aos formandos de 2011 do colégio POP

Às turmas do 3ª A, 3ªB e 3ª D do ano de 2011


Ah, é hora do adeus... Um voo termina, outro voo se inicia.

    O final de um ciclo é sempre uma etapa singular na vida de todos nós. Época de grandes decisões pessoais e profissionais: a entrada na faculdade, o fim da adolescência, novas responsabilidades, desejos, aspirações... Um tempo de doação e sacrifício, mas também de sonhos, emoções, buscas e... Esperanças. Um intenso desejo de ser, renovar, vencer...

    E hoje, com um misto de orgulho e nostalgia, contemplo mais uma turma que se vai: a turma de formandos 2011 do Colégio Pop.

   Não sei quem conheceu quem primeiro. Sei que os via sempre juntos. E entre as mais diversas personalidades havia sempre uma palavra que os unia: Amor. Pois essa é a primeira e mais marcante característica desta turma. A turma de formandos 2011 foi feita de amor. Poucos foram os lugares em que vi tanto carinho e tantas amizades tão sólidas. E isso um professor jamais esquece.

3ªA - 2011 - Colégio Pop

Ah, é hora do adeus... E sei que as lembranças da escola jamais sairão de nossas retinas...

    Dizia a escritora Adélia Prado: “Aquilo que a memória amou fica eterno.”

    Os momentos mais incríveis passados na escola...
    As provas difíceis, as noites de estudo, os livros, as lições, os simulados, a cantina, os campeonatos, o auditório, as peças, a biblioteca, as apresentações, as férias...
    A direção, os funcionários, os professores os mais diversos, o atencioso e o bravo, o exigente e o engraçado, o incansável e o companheiro, o esportivo e o dedicado...
    Os namoros e as amizades, as alegrias e as decepções, os grupinhos e as brigas, as brincadeiras, as festas, as músicas, as juras, as fotos, os instantes inesquecíveis...

    Tudo ficará na memória por muito, muito tempo... Naquele cantinho exclusivo onde repousam os momentos especiais.

    E ainda que a própria vida seja imponderável, ainda que as escolhas levem a caminhos diversos, ainda que o destino e o inexorável tempo distanciem as amizades, ainda assim... Um dia você sentirá um cheiro, ouvirá uma música, lerá uma frase, verá uma foto, coisas que irão remetê-lo a esse tempo passado e, quase inconscientemente, você dirá: “Ali, um dia, eu fui feliz...”

3ªB - 2011 - Colégio Pop


Ah, é hora do adeus... E desejo um mundo de felicidades a vocês.

    Desejo a vocês uma vida repleta de boas descobertas,
    Que vocês persigam os seus sonhos, mas não corrompam a alma...
    Que compreendam que existem segundas chances...
    Que entendam as diferenças e lutem contra as discriminações...
    Que andem na chuva e encontrem paixões que valham cada minuto de suas vidas...
    Que pela porta de vocês entre uma Primavera que jamais termine...
    Que cantem uma, duas, três, mil vezes a mesma música...
    Que enxerguem a poesia das coisas simples e cultivem violetas e jasmins...
    Que amem infinitamente a liberdade...
    Que se encham de espanto e prazer com os mundos inimagináveis dos livros...
   Que tenham fé para que possam contornar as tempestades... E que essa fé se renove continuamente pela vida afora...
  Que vocês cresçam, amadureçam, se realizem e depois... Voltem a ser crianças e se surpreendam novamente com os pequenos milagres da vida...
    Que cada dia seja mais que um novo dia, seja um verdadeiro dia de Ano Novo...
    Que tenham coragem, coragem e coragem...

3ªD - 2011 - Colégio Pop


Ah, é hora do adeus... E sei que vocês podem construir as histórias mais belas!

    Ora, dirão alguns que o texto tem clichês, que é piegas, que tem exageros... mas, que me importa?! O sentimento é real, ímpar e verdadeiro. Sumam daqui o pessimismo e a tristeza! Buscamos o sonho, a alegria, a vitória, o Bem!

    A vida também é feita de exageros, de declarações explícitas, de paixões desmedidas... E de uma coisa tenho certeza: lá de cima, toda vez que olha os formandos do colégio Pop, Deus abre um sorriso repleto de felicidade.

    Foi Ernest Hemingway quem escreveu uma vez: “Eles podem me destruir, mas eu jamais serei derrotado”. Pois, sobre os formandos do Colégio Pop, eu ergo alto o meu brinde e grito ao mundo:

     – VOCÊS JAMAIS SERÃO DERROTADOS!


Ah, é hora do adeus... Não! Não é um adeus... É apenas um até breve...

    Vinícius cantava que “a vida é a arte do encontro”.

    Definitivamente, foi uma honra encontrar vocês! E sei que um dia estaremos juntos novamente...

Prof. Maurício Fernandes da Cunha