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domingo, 30 de dezembro de 2012

"Receita de Ano Novo" - Carlos Drummond de Andrade

FELIZ 2013 A TODOS!


Receita de Ano Novo
 
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

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Leia também:

Escritores falecidos em 2012
"A hora e a vez de Augusto Matraga" - Guimarães Rosa
“Poema de Natal” – Vinicius de Moraes
“Tempo que foge!” – Ricardo Gondim

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Escritores falecidos em 2012

A homenagem do blog “Veredas da Língua” a alguns grandes escritores luso-brasileiros que nos deixaram em 2012. Lembremo-nos das palavras de Machado quando da morte de José de Alencar:

E ao tornar este sol, que te há levado,
Já não acha a tristeza. Extinto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacável e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flor, o encanto...




Autran Dourado 
(1926 – 2012)






Bartolomeu Campos de Queirós 
(1944 – 2012)



Décio Pignatari 
(1927 – 2012)







Ilka Brunhilde Laurito 
(1925 – 2012)


Ivan Lessa 
(1935 – 2012)




Lêdo Ivo 
(1924 – 2012)


Manuel António Pina 
(1943 – 2012)




Millôr Fernandes 
(1923 – 2012)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Texto: “A hora e a vez de Augusto Matraga – Guimarães Rosa

   Toda a inventividade e maestria de Guimarães Rosa — com neologismos, derivações, onomatopeias e personificações — aparecem na magnífica descrição do amanhecer no sertão de Minas, repleto de maitacas, periquitos e tuins. Uma celebração da beleza da natureza e da força da linguagem.

A hora e a vez de Augusto Matraga (trecho)

"Mas, afinal, as chuvas cessaram, e deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo: um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias com luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá embaixo — a manhã mais bonita que ele já pudera ver.
Estava capinando, na beira do rego.
De repente, na altura, a manhã gargalhou: um bando de maitacas passava, tinindo guizos, partindo vi­dros, estralejando de rir. E outro. Mais outro. E ainda outro, mais bai­xo, com as maitacas verdinhas, grulhantes, incapazes de acertarem, as vozes na disciplina de um coro.
Depois, um grupo verde-azulado, mais sóbrio de gritos e em fileiras mais juntas.
— Uai! Até as maracanãs!
E mais maitacas. E outra vez as maracanãs fanhosas. E não se acabavam mais. Quase sem folga: era uma revoada estrilando bem por cima da gente, e outra brotando ao norte, como pontozinho preto, e outra ― grão de verdura — se sumindo no sul.
— Levou o diabo, que eu nunca pensei que tinha tantos!
E agora os periquitos, os periquitos de guinchos timpânicos, uma esquadrilha sobrevoando outra ... E mesmo, de vez em quando, discutindo, brigando, um casal de papagaios ciumentos. Todos tinham muita pressa: os únicos que interromperam, por momentos, a viagem, foram os alegres tuins, os minúsculos de cabecinha amarela, que não levam nada a sério, e que choveram nos pés de mamão e fizeram recreio, aos pares, sem sustar o alarido — rrr!-rrri!! rrr!-rrri!! ...
Mas o que não se interrompia era o trânsito das gárrulas maitacas. Um bando grazinava alto, risonho, para o que ia na frente:
— Me espera! Me espera!... — E o grito tremia e ficava nos ares, para o outro escalão, que avançava lá atrás.
— Virgem! Estão todas assanha­das, pensando que já tem milho nas roças... Mas, também, como é que podia haver um de-manhã mesmo bonito, sem as maitacas?!...
O sol ia subindo, por cima do voo verde das aves itinerantes. Do outro lado da cerca, passou uma rapariga. Bonita! Todas as mulheres eram boni­tas. Todo anjo do céu devia de ser mulher."

(Guimarães Rosa, in “A hora e a vez de Augusto Matraga”)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"Poema de Natal" - Vinicius de Moraes

Feliz Natal a todos!


Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Vinicius de Moraes)


Leia também:
"A palavra escrita no muro" - Lêdo Ivo
"Vista cansada" - Otto Lara Resende

“A hora e a vez de Augusto Matraga” – Guimarães Rosa

domingo, 23 de dezembro de 2012

Poeta e escritor Lêdo Ivo morre aos 88 anos


Poeta e escritor Lêdo Ivo morre aos 88 anos


     O poeta, escritor e jornalista Lêdo Ivo morreu neste domingo, aos 88 anos, em Sevilha, na Espanha, onde estava a passeio. Lêdo Ivo ocupava a cadeira número 10 da Academia Brasileira de Letras (ABL) e será homenageado pelos acadêmicos em sessão extraordinária marcada para o dia 10 de janeiro. O corpo será cremado na Espanha e as cinzas serão trazidas pela família para o Rio.  
    Nota divulgada pela ABL informa que "Lêdo Ivo foi vítima de infarto às 2h e morreu nos braços do filho, o artista plástico Gonçalo Ivo, que vive em Paris e o acompanhava na visita a Sevilha".
    Nascido em Maceió (AL) em 18 de fevereiro de 1924, Lêdo Ivo estudou na cidade natal até 1940, quando mudou-se para Recife e depois para o Rio, onde cursou a Faculdade Nacional de Direito.
    Estreou na literatura com As imaginações, de poesias, em 1944. No ano seguinte, publicou Ode e elegia, que lhe rendeu o prêmio Olavo Bilac, da ABL. O romance de estreia, As alianças, foi publicado em 1947. Escreveu dois livros de memórias, Confissões de um poeta (1979) e O aluno relapso (1991). Com Finisterra, o poeta recebeu quatro prêmios, entre eles o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Lêdo Ivo também foi premiado no México, em Cuba e na Espanha.
    "Poeta e ficcionista versátil, de obra variada que abarcava vários gêneros, Lêdo Ivo gozava de uma vitalidade assombrosa para seus quase noventa anos e sua saúde frágil. Falava alto, gostava de comer bem, se esmerava em contar histórias divertidas. Nos últimos tempos, essa disposição estava sendo comprovada o tempo todo, nas sucessivas viagens que se multiplicavam , fossem para participar de festivais internacionais de poesia, fossem para receber homenagens no exterior, sobretudo nos países de língua hispânica", disse a presidente da ABL, Ana Maria Machado, na nota oficial.

do Yahoo Notícias: http://br.noticias.yahoo.com/poeta-escritor-l%C3%AAdo-ivo-morre-aos-88-anos-160700310.html

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Leia também:

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cacaso – Poemas

CACASO - POEMAS

Indefinição
 
Pois assim é a poesia
Esta chama tão distante mas tão perto de
Estar fria.

(Cacaso) 

Imagens I

Para evitar malentendidos
digamos desde já que nos amamos

(Cacaso)

Jogos florais

I

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

II

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.

Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

(Cacaso)

E com vocês a modernidade

Meu verso é profundamente romântico.
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores ciganos.

Ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!

(Cacaso)

Refém

Eu sempre quis requebrar
só me faltou poesia
eu nunca soube rimar
mas sempre tive ousadia
nunca joguei o destino
e nem matei a família
a minha sorte na vida
se escreve com C cedilha
Eu nunca tive ideal
nunca avancei o sinal
nem profanei minha filha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

Eu sempre quis acertar
só me faltou pontaria
eu nunca soube cantar
mas sempre tive mania
nunca brinquei carnaval
e nem saí da folia
nunca pulei a fogueira
e nem dancei a quadrilha
Eu nunca amei a ninguém
nunca devi um vintém
nem encontrei minha trilha
Eu me perdi muito além
sendo meu próprio refém
na solidão de uma ilha

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

Terceiro Amor

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou 
Pintura de Carole Beatrice Perret.

como passam os afluentes
como passam as correntes
que desencontram do mar
Como qualquer atitude
também passa a juventude
que nem findou de chegar

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam os espelhos
como passam os conselhos
ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
e tantos muitos amigos
sem deixar nenhum sinal

O primeiro amor já passou
o segundo amor já passou
como passam as gaivotas
as vitórias as derrotas
fantasias carnavais
as inocências perdidas
como passam avenidas
corredores temporais
A correnteza dos rios
como passam os navios
que a gente acena do cais

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

lar doce lar

Minha pátria é minha infância
Por isso vivo no exílio.

(Cacaso)

Meio-Termo

Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”) 

Happy end

O meu amor e eu
nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente

(Cacaso) 
Hora e Lugar

Nosso amor foi um tormento
mas eu queria voltar
com você o sofrimento
era fácil de aguentar
até mesmo o fingimento
tinha lá o seu lugar
Mas sem você é um despeito
eu não me entendo direito
saio da terra e do ar

Nosso amor foi um deserto
mas tinha tudo pra dar
faltou apenas dar certo
questão de hora e lugar
A razão me trouxe embora
mas eu queria ficar
a paixão que me devora
sei que ela vai me matar

A vida vai lá fora
preciso de respirar
mas sem você é um sufoco
eu não me mato por pouco
ando fugindo do azar

Nosso amor passou por perto
tava tão fácil de achar
só faltou ser descoberto
questão de hora e lugar

(Cacaso, in “Mar de mineiro: poemas e canções”)

Surdina

Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora a Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina...
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina...

(Cacaso)

Amor Amor

Quando o mar
quando o mar tem mais segredo
não é quando ele se agita
nem é quando é tempestade
nem é quando é ventania
quando o mar tem mais segredo
é quando é calmaria
quando o amor
quando o amor tem mais perigo
não é quando ele se arrisca
nem é quando ele se ausenta
nem quando eu me desespero
quando o amor tem mais perigo
é quando ele é sincero

(Cacaso)

Cinema mudo

IV

Neste retrato de noivado divulgamos
os nossos corpos solteiros.
Na hierarquia dos sexos, transparente,
escorrego
para o passado.
Na falta de quem nos olhe
vamos ficando perfeitos e belos
Tão belos e tão perfeitos
como a tarde quando pressente
as glândulas aéreas da noite.
Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.

(Cacaso)

ah

Ah se pelo menos o pensamento
não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração
não tivesse memória!
Como seria menos linda
e mais suave minha história!

(Cacaso)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Texto: “A palavra escrita no muro” – Lêdo Ivo

A palavra escrita no muro


  Era quase um garrancho, mas o menino a leu, letra por letra.
  E disse:
  – Boa noite.
  A palavra respondeu:
  – Boa noite.
 Diante da delicadeza da resposta, o menino perguntou:
  – Quem é você?
  E ela, rindo com todas as letras do seu corpo, respondeu:
  – Sou uma palavra.
  O menino pensou que ela estivesse presa, já que não podia sair do lugar, e perguntou-lhe:
  – Mas quem pôs você de castigo aí no muro?
  A palavra retrucou:
  – Eu não estou de castigo. Estou livre. Todas as palavras que você lê nos muros da cidade são livres.
  Nenhuma delas está em cativeiro.
  – Mas você está presa.
  A palavra tornou a desmentir:
  – Eu não estou presa. Num muro uma palavra é livre como um pássaro. Menino, vou dizer-lhe uma coisa para você guardar a vida inteira. Nenhuma palavra vive em cativeiro.
  O menino lembrou-se, então, de que em sua casa havia um grande dicionário que tinha nome de gente.
  E ponderou:
  – Mas, num dicionário, as palavras estão presas.
  A palavra (seria uma palavra senhora ou senhorita?) riu, exibindo seus belos e brancos dentes feitos de sílabas, e explicou:
  – Mesmo num dicionário as palavras são livres. Um dicionário não é uma prisão. É uma praça onde a gente se reúne.
  – Pra quê? – interrogou o menino.
  – Para servir aos homens. Todos nós temos uma serventia. Estamos a serviço da vida, do amor. Uma palavra é como um sol. Esquenta as pessoas. Quem sabe palavra não sente frio!
  – Mas quem foi que pôs você aí no muro? – quis saber o menino.
  – Foi um homem. Foi a mão de um homem.
  – Foi de dia ou foi de noite? (O menino era curioso, queira saber tudo.)
  A palavra não precisou se lembrar da hora em que fora colocada no muro como se fosse uma criança que a mãe põe no colo. Sabia isso na ponta da língua, pois as palavras também têm uma língua, como gente:
  – Foi de noite. Estava muito escuro. Você sabe que a noite é nossa irmã? Muitas vezes, em certos lugares, só de noite é que a gente pode andar.
  – Mas as palavras andam?
  – Menino, as palavras andam sempre. São como os ciganos. Não podem ficar paradas em lugar nenhum, nem nos livros nem na boca dos homens. Já lhe disse que somos passarinhos. Nascemos para voar.
  – Então, como foi que você nasceu?
  – Eu não nasci. Eu estava voando. Então pousei na mão de um homem como se fosse um passarinho. Ele não precisou de gaiola para me agarrar. Era um homem que tinha vindo de um comício, o povo tinha gritado muito. Ele estava precisando de uma palavra para dizer o que queria, tudo aquilo que estava dentro do seu coração e não podia manifestar-se porque eu ainda não tinha aparecido. Então eu pousei na mão dele. Esta rua estava escura, quase ninguém passava. O homem olhou para um lado e para o outro, viu que nenhum soldado estava passando, não havia polícia por perto, e pôs-me aqui. Dia e noite as pessoas passam e, mesmo em silêncio, conversam comigo, e levam-me em suas lembranças e nos seus corações. É um pouco difícil de explicar, mas eu sou levada e no entanto fico aqui, sem sair do lugar. Você entende?
  – E como é o seu nome, palavra-passarinho? – quis saber o menino.
  – MEU NOME É LIBERDADE, MENINO.
  – A senhora tem um nome muito bonito!
  – Não me chame de senhora, chame-me de você. Eu sou você.

(Lêdo Ivo, in “O menino da noite”)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

TJ SP - Concurso Público: Escrevente Judiciário - 2006

Prova de Língua Portuguesa - TJ SP - Concurso Público: Escrevente Judiciário - 2006

Leia o texto para responder às questões de números 01 a 10.

Policiais paulistanos

    Sempre fui fã de romances policiais. Conheço pessoas para quem a leitura só pode ser séria, para quebrar a cabeça. Penso o contrário. Um bom livro também ajuda a relaxar. Até agora fãs de mistérios como eu eram obrigados a deglutir penhascos ingleses ou correrias por Los Angeles e Nova York. Há algum tempo surgiu uma safra de romances policiais cujo cenário é São Paulo, com seus bairros e tipos humanos. O último é Morte nos Búzios, de Reginaldo Prandi. Não nego. Conheço o Reginaldo há uns... puxa, trinta anos! (É nessas horas que vejo como o tempo passa.) Para mim, sempre foi o tipo acabado do intelectual. Professor titular de sociologia da USP, passou anos estudando as religiões afrobrasileiras. Fez teses. Há uns meses, encontrei-me com ele em um evento literário.
    – Vou lançar um policial! – contou-me.
    Estranhei. Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives. Quanto mais escrever! Assim que saiu, enviou para minha casa. Não nego, sou exigente. Adolescente, já era fã de Sherlock Holmes. Mas adorei Morte nos Búzios. Reginaldo misturou seus conhecimentos sobre as religiões afras com a imaginação. Os crimes acontecem a partir das previsões de uma mãe-de-santo da Freguesia do Ó. Aos poucos, o delegado Tiago Paixão começa a descobrir suspeitos entre os frequentadores do terreiro.

(Walcir Carrasco. Veja São Paulo, 20.09.2006)

01. Assinale a alternativa correta quanto à concordância verbal.

(A) Há algum tempo surgiu vários romances policiais cujo cenário é São Paulo.
(B) Já fazem uns trinta anos que conheço o Reginaldo!
(C) É nessas horas que vejo com que rapidez passa os dias.
(D) Até agora, obrigavam-se fãs de mistérios a deglutir penhascos ingleses.
(E) Conheço pessoas para quem a leitura têm de ser séria.

02. Quanto ao emprego de pronome, segundo a norma culta, a frase – ... encontrei-me com ele em um evento literário. – pode ser reescrita da seguinte forma:

(A) ...encontrei-no em um evento literário.
(B) ...encontrei ele em um evento literário.
(C) ...encontrei-o em um evento literário.
(D) ...encontrei-lhe em um evento literário.
(E) ...encontrei-lo em um evento literário.

03. Assinale a alternativa em que o termo em destaque tem a mesma função sintática que a expressão destacada na frase: – Vou lançar UM POLICIAL!

(A) Penso o contrário.
(B) ... contou-me.
(C) Sempre fui fã de romances policiais.
(D) ... surgiu uma safra de romances policiais.
(E) Um bom livro também ajuda a relaxar.

04. Articulando as duas orações do período – Não nego, sou exigente. – obtém-se, sem perda do significado:

(A) Não nego, mas sou exigente.
(B) Não nego que sou exigente.
(C) Não nego em que sou exigente.
(D) Não nego de que sou exigente.
(E) Não nego qual sou exigente.

05. Analise os períodos.

I. É nessas horas que vejo como o tempo passa.
II. Assim que saiu, enviou para minha casa.

A oração destacada em I exerce função sintática de ________; a destacada em II expressa circunstância de  _______. Os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, com

(A) sujeito ... conseqüência
(B) complemento nominal ... conformidade
(C) aposto ... causa
(D) predicativo ... condição
(E) objeto direto ... tempo

06. Analise as afirmações.

I. O substantivo fã tem o mesmo emprego que o substantivo vítima na forma masculina e na feminina.
II. Está correta, quanto à grafia, a frase: Um bom livro também ajuda a relaxar, mas se fosse um mal livro, isso não aconteceria.
III. O plural de mãe-de-santo é mães-de-santo. Está correto o que se afirma apenas em

(A) I.     (B) II.    (C) III.    (D) I e II.    (E) II e III.

07. Intelectuais em geral não confessam sequer que lêem histórias de detetives. Quanto mais escrever!
Assinale a alternativa em que a frase, reescrita numa linguagem formal, mantém os sentidos propostos no texto.

(A) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, tanto que não lhes escrevem.
(B) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, mas que não as escrevem.
(C) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, embora que não lhes escrevem.
(D) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, porque não as escrevem.
(E) Intelectuais em geral não confessam sequer que leem histórias de detetives, muito menos que as escrevem.

08. ... passou anos estudando as religiões afro-brasileiras. Os termos que fazem o plural da mesma forma que religião (religiões) são

(A) capitão e mamão.
(B) cirurgião e negação.
(C) limão e pão.
(D) mão e pão.
(E) mamão e cidadão.

09. Assinale a frase correta quanto ao uso do sinal indicativo da crase.

(A) Reginaldo associou seus conhecimentos sobre as religiões afras à imaginação.
(B) Tão logo o livro foi publicado, chegou à mim.
(C) Pouco à pouco, o delegado Tiago Paixão descobriu suspeitos entre os freqüentadores do terreiro.
(D) Não acreditei que Reginaldo se dedicasse à um livro policial.
(E) À vida passa rápido, já conheço Reginaldo há uns trinta anos.

10. Assinale a alternativa correta quanto à regência verbal.

(A) Não sabia que Reginaldo aspirava por uma carreira de escritor de policiais.
(B) Ansiava a ler logo o policial de Reginaldo.
(C) Pensei que Reginaldo preferisse mais temas acadêmicos do que histórias de detetive.
(D) Não residimos a lugares do exterior para que os policiais os tenham como ambiente.
(E) Assistia ao delegado Tiago Paixão o direito de investigar os frequentadores suspeitos do terreiro.

Para responder às questões de números 11 a 13, leia a frase de Luciano Pavarotti, publicada na revista Veja, de 20.09.2006:

Não quero mais me ouvir. Se você me convidar para jantar tocar uma de minhas gravações para me agradar, juro que vou embora. Se _______ que eu _______, coloque um disco de Placido Domingo.

11. Os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, com

(A) quizer … fico
(B) querer … fique
(C) quizer … ficarei
(D) quiser … fique
(E) quiser … fico

12. Analise as frases.

I. Se tu me convidares para jantar e tocares uma de minhas canções para me agradar, juro que vou embora.
II. Se Vossa Excelência me convidais para jantar e tocais uma de minhas canções para me agradares, juro que vou embora.
III. Se Sua Senhoria me convidardes para jantar e tocardes uma de minhas canções para me agradardes, juro que vou embora.

Quanto à forma de tratamento e a flexão verbal, está(ão) correta(s) apenas

(A) I.     (B) II.     (C) III.     (D) I e II.     (E) I e III.

13. As relações de sentido estabelecidas pelas conjunções Se e e são, respectivamente, de

(A) causa e adversidade.
(B) condição e adição.
(C) modo e adição.
(D) tempo e alternância.
(E) condição e consequência.

As questões de números 14 a 20 baseiam-se na história em quadrinhos de Hagar.

14. Considerando a regência do verbo e o emprego de pronomes, a frase Vou virar você pelo avesso! pode ser substituída por

(A) Vou lhe virar pelo avesso.
(B) Vou te virar pelo avesso.
(C) Vou virá-lo pelo avesso.
(D) Vou virar-no pelo avesso.
(E) Vou virar-lho pelo avesso.

15. A resposta que Hagar recebe do inglês contém formas verbais que a tornam menos rude e agressiva. De forma mais incisiva, o inglês diria:

(A) Será melhor que não o faz.
(B) Era melhor que não o fizesse.
(C) Foi melhor que não o fizesse.
(D) É melhor que não o faça.
(E) Fosse melhor que não o fará.

16. No contexto, o feminino de cavalheiro é

(A) mulher.     (B) amazona.     (C) senhora.     (D) matrona.     (E) garota.

17. Sobre a vírgula que separa o termo cavalheiro, é correto afirmar que

(A) está bem empregada, pois separa, na oração, o vocativo.
(B) está mal empregada, pois separa o sujeito da oração do verbo.
(C) está bem empregada, pois, nesse caso, seu uso é facultativo.
(D) está mal empregada, pois não se separa o aposto do termo a que se refere.
(E) está bem empregada, pois separa o objeto direto do verbo.

18. A oração que completa o sentido de Seria melhor funciona sintaticamente como seu

(A) complemento nominal.
(B) predicativo.
(C) objeto direto.
(D) sujeito.
(E) aposto.

19. Na primeira pessoa do plural, a frase Prepare-se para morrer assume a seguinte forma:

(A) Preparem para morrermos!
(B) Preparemo-nos para morrer!
(C) Preparem-se para morrermos!
(D) Preparamos-nos para morrer!
(E) Preparemos-nos para morrermos!

20. A frase de Hagar, no segundo quadrinho, deve-se iniciar com

(A) Por quê sinto-me.
(B) Por quê o sinto.
(C) Porque me sinto.
(D) Porquê sinto.
(E) Por que me sinto.

Leia o trecho a seguir, para responder às questões de números 21 a 25.

    O retrato, às oito e meia da noite daquela segunda-feira fatídica, era desolador. São Paulo, quarta maior metrópole do mundo, 20 milhões de moradores, estava vazia. Traumatizada. Acuada sob um toque de recolher informal. Debaixo das ordens do chamado Primeiro Comando da Capital, o PCC, que controla os presídios e estende seu poder sobre o tráfico de drogas, de armas e o contrabando, nada menos que 36 policiais foram assassinados nas ruas da cidade durante o final de semana. Trinta ônibus arderam em chamas.

(Istoé Online, 24.05.2006)

21. Em – ... 36 policiais foram assassinados nas ruas da cidade durante o final de semana. – as expressões nas ruas da cidade e durante o final de semana indicam, respectivamente, circunstância de

(A) lugar e tempo.
(B) modo e lugar.
(C) lugar e lugar.
(D) modo e causa.
(E) lugar e condição.

Observe os dois trechos a seguir para responder às questões de números 22 e 23.

I. O retrato, às oito e meia da noite daquela segunda-feira fatídica, era desolador.
II. São Paulo, quarta maior metrópole do mundo, 20 milhões de moradores, estava vazia.

22. Os termos desolador e vazia, sintaticamente, exercem função de

(A) sujeito.
(B) complemento nominal.
(C) objeto direto.
(D) vocativo.
(E) predicativo do sujeito

23. Empregam-se vírgulas em I e II, respectivamente, para intercalar

(A) aposto e aposto.
(B) adjunto adverbial e aposto.
(C) adjunto adverbial e vocativo.
(D) adjunto adverbial e adjunto adverbial.
(E) aposto e adjunto adverbial.

24. Assinale a alternativa correta quanto à concordância nominal.

(A) As pessoas estavam acuada, sob toques de recolher informal.
(B) As ordens do PCC eram firme e os moradores de São Paulo ficaram alertas.
(C) O PCC agiu com violência em São Paulo, sem meias palavras.
(D) A cidade de São Paulo ficou meio desorientado após os ataques do PCC.
(E) Ruas e avenidas vazios eram o cenário de São Paulo após os ataques do PCC.

25. Assinale a frase correta quanto à pontuação.

(A) Trinta ônibus em São Paulo, arderam em chamas na segunda-feira.
(B) Trinta ônibus na segunda-feira, arderam em chamas em São Paulo.
(C) Na segunda-feira arderam em chamas, trinta ônibus em São Paulo.
(D) Em São Paulo, trinta ônibus, na segunda-feira, arderam em chamas.
(E) Arderam em chamas, trinta ônibus, na segunda-feira, em São Paulo.

26. Considere as frases:

I. Eu fiquei fora de si, quando vi os ataques do PCC em São Paulo.
II. Ele ficou fora de si, quando viu os ataques do PCC em São Paulo.
III. Nós ficamos fora de si, quando vimos os ataques do PCC em São Paulo.

O emprego de pronome está correto apenas em

(A) I.     (B) II.     (C) III.     (D) I e II.     (E) I e III.

27. Assinale a alternativa correta quanto à regência nominal.

(A) Os paulistanos sentiam medo por estarem sujeitos nos ataques ao PCC.
(B) Não foi nada agradável dos paulistanos viver os ataques do PCC.
(C) Os paulistanos estão conscientes de que é preciso mais segurança para todos.
(D) A vontade em sair daquele momento de horror era grande aos paulistanos.
(E) A crença a que estamos sempre seguros foi quebrada com os ataques do PCC.

28. Quem chegasse _____ São Paulo após os ataques do PCC, veria o povo intimidado, ______ e com medo. Segundo a norma culta, os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, com

(A) à … confuso
(B) em … confuzo
(C) à … confuzo
(D) a … confuzo
(E) a … confuso

Leia a charge para responder às questões de números 29 e 30.

29. Relacionando a charge com o texto anterior, entende-se que o diminutivo no nome do símbolo da cidade de São Paulo denota

(A) ironia.
(B) afetividade.
(C) pequenez.
(D) alegria.
(E) agressividade.

30. O substantivo símbolo possui uma forma derivada que se grafa com z: simbolizar. Assim como ela, está corretamente grafado com z o verbo

(A) parafrazear.
(B) avizar.
(C) paralizar.
(D) amenizar.
(E) aparafuzar.

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GABARITO

1 - D     2 - C      3 - A     4 - B     5 - E      6 - C     7 - E      8 - B     9 - A 10 - E
11 - D  12 - A   13 - B    14 - C   15 - D   16 - C   17 - A   18 - D   19 - B 20 - E
21 - A   22 - E   23 - B   24 - C    25 - D   26 - B   27 - C   28 - E   29 - A 30 - D

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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Texto: “Vista cansada” – Otto Lara Resende

Vista cansada

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

(Otto Lara Resende)


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