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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Texto - "Pato selvagem" - Rubem Alves

Pato selvagem


      “Era uma vez um bando de patos selvagens que voava nas alturas. Lá de cima se via muito longe, campos verdes, lagos azuis, montanhas misteriosas e os pores-de-sol eram maravilhosos. Mas voar nas alturas era cansativo. Ao final do dia os patos estavam exaustos. 
      Aconteceu que um dos patos, quando voava nas alturas, olhou para baixo e viu um pequeno sítio, casinha com chaminé, vacas, cavalos, galinhas… e um bando de patos deitados debaixo de uma árvore. 
      Como pareciam felizes! Não precisavam trabalhar. Havia milho em abundância.
      O pato selvagem, cansado, teve inveja deles. Disse adeus aos companheiros, baixou seu voo e juntou-se aos patos domésticos.
      Ah! Como era boa a vida, sem precisar fazer força. Ele gostou, fez amizades. O tempo passou. Primavera, verão, outono, inverno…
      Chegou de novo o tempo da migração dos patos selvagens. E eles passavam grasnando, nas alturas…
      De repente o pato que fora selvagem começou a sentir uma dor no seu coração, uma saudade daquele mundo selvagem e belo, as coisas que ele via e não via mais: os campos, os lagos, as montanhas, os pores-de-sol. Aqui em baixo a vida era fácil, mas os horizontes eram tão curtos! Só se via perto!
      E a dor foi crescendo no seu peito até que não aguentou mais. Resolveu voltar a juntar-se aos patos selvagens. Abriu suas asas, bateu-as com força, como nos velhos tempos. Ele queria voar! Mas caiu e quase quebrou o pescoço. Estava pesado demais para o voo. Havia engordado com a boa vida… E assim passou o resto de sua vida, gordo e pesado, olhando para os céus, com nostalgia das alturas…”

(Rubem Alves)



Rubem Alves
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Leia também:

Alberto de Oliveira - Poemas
"Memórias de um sargento de milícias" - Manuel Antônio de Almeida
Thiago de Mello - "Os Estatutos do Homem"
"Camelos também choram" - Affonso Romano de Sant´Anna

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Alberto de Oliveira - Poemas

Alberto de Oliveira

Horas Mortas

Breve momento, após comprido dia –
De incômodos, de penas, de cansaço,
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta à luz tardia -
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica.
Mas é tão tarde! Rápido flutuas,
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa a que escrevo apenas fica
sobre o papel - rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

(Alberto de Oliveira)

O caminho do morro

Guiava à casa do morro, em voltas, o caminho,
até lhe ir esbarrar com as orlas do terreiro;
dava-lhe o doce ingá, rachado ao sol, o cheiro,
e um rumor de maré o cafezal vizinho.

Quanta vez o subi, buscando a um guaxe o ninho,
ou, saltando, o desci com o regato ligeiro,
para voar num balanço, embaixo, o dia inteiro,
e ver girar, zonzando, as asas de um moinho!

De setembro até março, uma colcha de flores
tapetava-o. Reluz-lhe em poças de água o céu;
das folhas sobre o saibro os orvalhos escorrem.

Mas morreram na casa, em cima, os moradores,
morreu, caindo, a casa, o moinho morreu,
o caminho morreu... Até os caminhos morrem!

(Alberto de Oliveira)

O Ninho


O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
Trouxe de longe o alegre passarinho,
E um dia inteiro ao sol paciente esteve
Com o destro bico a arquitetar o ninho.

Da paina os vagos flocos cor de neve
Colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
E armado, pronto enfim, suspenso, em breve,
Ei-lo, balouça à beira do caminho.

E a ave sobre ele as asas multicores
Estende e sonha. Sonha que o áureo pólen
E o néctar suga às mais brilhantes flores;

Sonha… Porém, de súbito, a violento
Abalo acorda. Em torno as folhas bolem…
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento!

(Alberto de Oliveira)

Choro de Vagas


Não é de águas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor – ouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

São de náufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou tábua, ou pano,
Vejo-os varridos de tufões violentos;

Vejo-os na escuridão da noite, aflitos,
Bracejando, ou já mortos e debruços,
Largados das marés, em ermas plagas…

Ah! que são deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

(Alberto de Oliveira)


Que ânsia de amar
Vladimir Mukhin.

Que ânsia de  amar! E tudo a amar me ensina!
A fecunda lição decoro atento, 
Já com liames de fogo ao pensamento,
Incoercível desejo ata e domina.

Em vão procuro espairecer ao vento
Olhando o céu, o morro, a campina.
Escalda-me a cabeça e desatina,
Bate-me o coração como um tormento.

E sorrindo ardente e vaporosa
Por ela, a ainda velada, a misteriosa
Mulher que nem conheço, aflito chamo.

E sorrindo-me ardente e vaporosa
Sinto-a vir - vem-me em sonho, une-me ao seio
Junta o rosto ao meu rosto e diz-me “Eu te amo!”.

(Alberto de Oliveira)

A vingança da porta


Era um hábito antigo que ele tinha:
entrar dando com a porta nos batentes
— "Que te fez esta porta?" a mulher vinha
e interrogava... Ele, cerrando os dentes:

— "Nada! Traze o jantar." — Mas à noitinha
calmava-se; feliz, os inocentes
olhos revê da filha e a cabecinha
lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Uma vez, ao tornar à casa, quando
erguia a aldrava, o coração lhe fala
— "Entra mais devagar..." Pára, hesitando...

Nisso nos gonzos range a velha porta,
ri-se, escancara-se. E ele vê na sala
a mulher como doida e a filha morta.

(Alberto de Oliveira)

Vaso Grego


Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

Era o poeta de Teos que o suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.

Depois... Mas, o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

(Alberto de Oliveira)

Beijos do céu


Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:
- Vi-te no céu; e, enamoradamente,
de beijos, a falange resplendente
dos serafins, teu corpo inteiro ungia...

Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via,
beijavam todos o teu lábio ardente;
e, beijando-te, o próprio Onipotente,
o próprio Deus nos braços te cingia!

Nisto, o ciúme - fera que eu não domo -
despertou-me do sonho; repentino
vi-te a dormir tão plácida a meu lado...

E beijei-te também, beijei-te.., e, ai! como
achei doce o teu lábio purpurino,
tantas vezes assim no céu beijado!

(Alberto de Oliveira)

Taça de Coral


Lícias, pastor — enquanto o sol recebe,
Mugindo, o manso armento e ao largo espraia.
Em sede abrasa, qual de amor por Febe,
— Sede também, sede maior, desmaia.

Mas aplacar-lhe vem piedosa Naia
A sede d'água: entre vinhedo e sebe
Corre uma linfa, e ele no seu de faia
De ao pé do Alfeu tarro escultado bebe.

Bebe, e a golpe e mais golpe: — "Quer ventura
(Suspira e diz) que eu mate uma ânsia louca,
E outra fique a penar, zagala ingrata!

Outra que mais me aflige e me tortura,
E não em vaso assim, mas de uma boca
Na taça de coral é que se mata",

(Alberto de Oliveira)

"Chegada do Outono". Adair Payne.
Crescente de Agosto

Alteia-se no azul aos poucos o crescente,
o ar embalsama, os cirros leva, o escuro afasta;
vasto, de extremo a extremo, enche a alameda vasta
e emborca a urna de luz nas águas da corrente.

Na escumilha da teia, onde a aranha indolente
dorme, feita de orvalho, uma pérola engasta.
Faz aos lírios mais branca a flor cetínea e casta,
mais brancos os jasmins e a murta redolente.

Faz chorar um violão lá não sei onde... (A ouvi-lo,
na calada da noite um não-sei-quê me invade).
Faz que haja em tudo um como estranho espasmo e enlevo;

faz as coisas rezar, ao seu clarão tranquilo,
faz nascer dentro em mim uma grande saudade,
faz nascer da saudade estes versos que escrevo.

(Alberto de Oliveira)

A um poeta


Não têm teus versos, agora
Que se foi teu claro dia,
O ímpeto, o fogo, a harmonia
De outrora.

A ideia, porém, mais pura,
A ideia aos poucos nascida
De observar a Dora e a vida,
Fulgura.

Assim, posto o sol, os rios
Não são mais como eram dantes;
Tornam-se, em vez de brilhantes,
Sombrios.

Mas da noite o céu, com os mundos
Acesos, na água a feri-los,
Torna-os mais, sobre tranqüilos,
Profundos...

(Alberto de Oliveira)

Floresta convulsa


Floresta de altas árvores, escuta:
Em minha dor vim conversar contigo;
como no seio do melhor amigo,
descanso aqui de tormentosa luta.

Troncos da solidão intata e bruta,
sabei... Ah! que, porém, como um castigo
vos estorceis, e o som do que vos digo
vai morrer longe em solitária gruta.

Que tendes, vegetais?. . . Remorso?. . . Crime?.
Açoita-vos o vento, como um bando
de fúrias e anjos maus, que nós não vemos?

Mas explicai-vos ou primeiro ouvi-me,
que a um tempo assim braceando, assim gritando,
assim chorando não nos entendemos...

(Alberto de Oliveira)


A janela de Julieta
"Romeu e Julieta". 1870. Ford M. Brown.

Esta é a alegre janela namorada, 
Onde a meio ela à noite se reclina;
Eis o vaso com flores, a estimada
Violeta roxa, a dália purpurina...

Esta odorosa essência delicada
Vem desta móvel planta peregrina,
Que o muro vinga, o peitoril domina,
Em torsa, aérea, caprichosa escada.

Quando a lua aparece, alva e brilhante,
parte a primeira pérola formosa
Destes vidros no fúlgido diamante;

E a alma aqui se extasia e sonha e goza,
Vendo oscilar na câmara elegante
Das cortinas a forma vaporosa.

(Alberto de Oliveira)

Contraste


Junto à pedra da estreita sepultura,
Onde o último sono agora goza
Um anjo, a mãe, curvada, aflita e ansiosa,
As mãos torcendo, uma oração murmura.

E, estranha cena! maio, em flor, da escura
Mansão dos mortos faz mansão formosa,
E erra, alado e sútil, de rosa em rosa,
E, alado, em torno, o sol brilha e fulgura.

O negro cemitério é todo encanto,
E aos derradeiros sonhos, aos amores
Derradeiros envolve em flóreo manto

E a terra, a grande mãe, as fundas dores
De outra mãe desconhece e, vendo-a em pranto,
Em vez de em pranto abrir-se, – abre-se em flores.

(Alberto de Oliveira)

Lira quebrada


Tomando-a onde a deixei dependurada ao vento,
Sinto não ser mais esta a lira de outros dias,
Em que, somente a amor votado o pensamento,
Livre e acaso feliz, a descansar me ouvias.

Quebrada vem. Rouqueja apenas um lamento;
As rosas com que, ó Musa, inda há pouco a vestias,
Fanam-se nos festões, soltam-se em desalento,
Vão-se. Ironia ou dor crispa-lhe as cordas frias.

Mas inda assim lhe escuto um resquício de notas
Perpassar a gemer, corre-lhe as fibras rotas
O fantasma do som que a alma um dia lhe encheu:

Como de um velho sino o bronze espedaçado
Guarda em cada fragmento o fragmento de um brado,
O eco de um hino, a voz de um canto que morreu...

(Alberto de Oliveira)

Em caminho


Vai pálida de susto na viagem,
Sobre o cavalo contumaz que embrida
De quando em quando, a loura e bela Armida;
Sigo-a, segue-me após o lesto pajem.

Dens'umbroso sertão que a amar convida,
Ermo retiro, florida paragem,
Tudo, através da pêndula ramagem,
Cortamos, galopando a toda a brida.

Mas eis que um rio súbito aparece,
Da estrada em meio, undoso, derramado...
Susto a marcha aos corcéis, o pajem desce,

Treme a dama, eu, que avanço, encosto-a ao flanco,
Enquanto n'água o pajem salta ousado
E as rédeas toma ao seu cavalo branco.

(Alberto de Oliveira)

Última deusa


Foram-se os deuses, foram-se, em verdade;
Mas das deusas alguma existe, alguma
Que tem teu ar, a tua majestade,
Teu porte e aspecto, que és tu mesma, em suma.

Ao ver-te com esse andar de divindade,
Como cercada de invisível bruma,
A gente à crença antiga se acostuma
E do Olimpo se lembra com saudade.

De lá trouxeste o olhar sereno e garço,
O alvo colo onde, em quedas de ouro tinto,
Rútilo rola o teu cabelo esparso...

Pisas alheia terra... Essa tristeza
Que possuis é de estátua que ora extinto
Sente o culto da forma e da beleza.

(Alberto de Oliveira)

Vaso Chinês


Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

(Alberto de Oliveira)

Aparição


Horas já mortas, como andasse — em falta
De um coração qualquer para entendê-las,
A contar minhas mágoas em voz alta
Às arvores das ruas e às estrelas,

Ligeiros passos ouço de repente
Por trás de mim. Ólho e não vejo nada.
Ah! murmurei, é o vento, certamente,
Que varre as folhas secas da calçada.

Nascia a lua. O baço globo enorme
Sobe dentre os morros, pelo céu flutua.
Brilha a ardosia dos tetos, a água dorme,
Abrem-se as dálias, palpitando à lua.

E às estrelas, e às arvores, em pranto,
Eu, como um ébrio, a minha dor contava;
Quando ouvi novos passos e, entre espanto,
Vi uma sombra que me acompanhava.

(Alberto de Oliveira) 


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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA - PARTE II

ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA - PARTE II

Observem a tirinha abaixo.


Uma série de formas inadequadas: bicicreta, cocrete, cardeneta, argum, pobrema. Erros como esses são verificados todos os dias nos mais diferentes meios. Continuando o post anterior sobre esse assunto, seguem mais 30 erros comuns na língua portuguesa.


Forma errada
Forma correta



1
Adevogado
Advogado
2
Advinhar
Adivinhar
3
Aerosol
Aerossol
4
Beneficiente
Beneficente
5
Bicicreta
Bicicleta
6
Camondongo
Camundongo
7
Cardeneta
Caderneta
8
Célebro
Cérebro
9
Cocrete
Croquete
10
Compania
Companhia
11
Depedrar
Depredar
12
Desinteria
Disenteria
13
Eletrecista
Eletricista
14
Entitular
Intitular
15
Exageiro
Exagero
16
Exarcebado
Exacerbado
17
Explêndido
Esplêndido
18
Expontâneo
Espontâneo
19
Frustado
Frustrado
20
Furunco
Furúnculo
21
Mantegueira
Manteigueira
22
Meretíssimo
Meritíssimo
23
Mussarela
Muçarela / mozarela
24
Pernelongo
Pernilongo
25
Pertubar
Perturbar
26
Pobrema / probrema / ploblema
Problema
27
Reinvindicar
Reivindicar
28
Sandalha
Sandália
29
Sastifeito
Satisfeito
30
Táuba / taboa
Tábua

ps. Talvez o erro mais comum da lista acima seja a palavra muçarela. Muitos escrevem a forma errada “mussarela”, grafada equivocadamente em diversos estabelecimentos comerciais. Vale lembrar que o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) também admite a grafia mozarela, respeitando a etimologia da palavra.


por Prof. Maurício Fernandes da Cunha

Exercícios

1. Um dos melhores investimentos bancários ainda é a ________ de poupança. (cardeneta / caderneta)
2. OAB é uma sigla que significa Ordem dos __________ do Brasil. (Advogados / Adevogados)
3. Quero falar de uma coisa, _______ onde ela anda... (Milton Nascimento) – ( advinha / adivinha)
4. _______ técnicos interromperam o show no navio. (ploblemas / problemas / probremas)
5. Por que picada de ____________ coça tanto? (pernilongo / pernelongo)
6. Você me deixou _________, nunca vi deixar alguém assim... (Marisa Monte) - (sastifeito / satisfeito)
7. Engenheiros alemães criaram uma ________ de passar roupa que custará mil dólares. (táboa / táuba / tábua)
8. Mickey Mouse na verdade é um ____________ e não um rato. (camondongo / camundongo)
9. ________ é um tipo de calçado que pode ser usado por ambos os sexos. (sandalha / sandália)
10. Não é _______ que Rogério Ceni é um dos melhores goleiros de todos os tempos. (exagero / exageiro)
11. Os manifestantes ____________ lojas e bancos durante o protesto. (depredaram / depedraram)
12. Ter o ego ________ é um dos principais defeitos dos novos astros do futebol (exarcebado / exacerbado)
13. O homem foi conduzido à delegacia por __________ a vizinhança. (pertubar / perturbar)
14. Preciso contratar urgentemente um __________. (eletricista / eletrecista)
15. _________________, peço a absolvição do réu. (Meretíssimo / Meritíssimo)
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16. Os jogadores ficaram _______ após a derrota. (frustrados / frustados)
17. Comer pipoca em excesso causa _________. (desinteria / disenteria)
18. Caíram no concurso questões que exigiam alta concentração ________. (cerebral / celebral)
19. Foi um _______. (espontâneo / expontâneo)
20. Deitado eternamente em berço __________. (explêndido / esplêndido)
21. Irei participar de um leilão ____________ no domingo. (beneficiente / beneficente)
22. Ele se ___________ o paladino da verdade. (entitula / intitula)
23. O ________ deve ser tratado com o uso de antibióticos. (furúnculo / furunco)
24. Os grevistas estavam _________ aumento salarial de 10%. (reinvindicando / reivindicando)
25. O ______ de carne é muito popular em nossa cidade. (cocrete / croquete)
26. Aprendi a andar de _____ aos quatro anos. (bicicleta / bicicreta)
27.  _______ é um termo que designa um conjunto de partículas suspensas de um gás. (aerossol / aerosol)
28. O preço da _____________ baixou novamente. (manteguera / manteigueira)
29. A _______ é uma variedade de queijo de origem italiana. (mussarela / muçarela)
30. As más ______ corrompem os bons costumes. (companhias / companias)

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Prova de Língua Portuguesa e Literatura - Vestibular PUC-2010

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Texto - "Memórias de um sargento de milícias" - Manuel Antônio de Almeida

Segue o primeiro capítulo de um clássico do Romantismo brasileiro: Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS

Capítulo I – Origem, nascimento e batismo

Era no tempo do rei.
Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se mutuamente, chamava-se nesse tempo O canto dos meirinhos; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de não pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os
extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações, provarás, razões principais e finais, e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo.
Daí sua influência moral.
Mas tinham ainda outra influência, que é justamente a que falta aos de hoje: era a influência que derivava de suas condições físicas. Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes, nem no seu semblante nem no seu trajar, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos, nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição. Era terrível quando, ao voltar uma esquina ou ao sair de manhã de sua casa, o cidadão esbarrava com uma daquelas solenes figuras que, desdobrando junto dele uma folha de papel, começava a lê-la em tom confidencial! Por mais que se fizesse não havia remédio em tais circunstâncias senão deixar escapar dos lábios o terrível-Dou-me por citado.-Ninguém sabe que significação fatalíssima e cruel tinham estas poucas palavras! Eram uma sentença de peregrinação eterna que se pronunciava contra si mesmo; queriam dizer que se começava uma longa e afadigosa viagem, cujo termo bem distante era a caixa da Relação, e durante a qual se tinha de pagar importe de passagem em um sem-número de pontos; o advogado, o procurador, o inquiridor, o escrivão, o juiz, inexoráveis Carontes, estavam à porta de mão estendida, e ninguém passava sem que lhes tivesse deixado, não um óbolo, porém todo o conteúdo de suas algibeiras, e até a última parcela de sua paciência.
Mas voltemos à esquina. Quem passasse por aí em qualquer dia útil dessa abençoada época veria sentado em assentos baixos, então usados, de couro, e que se denominavam-cadeiras de campanha-um grupo mais ou menos numeroso dessa nobre gente conversando pacificamente em tudo sobre que era lícito conversar: na vida dos fidalgos, nas notícias do Reino e nas astúcias policiais do Vidigal. Entre os termos que formavam essa equação meirinhal pregada na esquina havia uma quantidade constante, era o Leonardo Pataca. Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos que viviam nesse tempo. A velhice tinha-o tornado moleirão e pachorrento; com sua vagareza atrasava o negócio das partes; não o procuravam; e por isso jamais saía da esquina; passava ali os dias sentado na sua cadeira, com as pernas estendidas e o queixo apoiado sobre uma grossa bengala, que depois dos cinqüenta era a sua infalível companhia. Do hábito que tinha de queixar-se a todo o instante de que só pagassem por sua citação a módica quantia de 320 réis, lhe viera o apelido que juntavam ao seu nome.
Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o herói desta história.
Chegou o dia de batizar-se o rapaz: foi madrinha a parteira; sobre o padrinho houve suas dúvidas: o Leonardo queria que fosse o Sr. juiz; porém teve de ceder a instâncias da Maria e da comadre, que queriam que fosse o barbeiro de defronte, que afinal foi adotado. Já se sabe que houve nesse dia função: os convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio, segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra, dançavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento favorito da gente do ofício. A princípio o Leonardo quis que a festa tivesse ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da corte. Foi aceita a idéia, ainda que houvesse dificuldade em encontrarem-se pares. Afinal levantaram-se uma gorda e baixa matrona, mulher de um convidado; uma companheira desta, cuja figura era a mais completa antítese da sua; um colega do Leonardo, miudinho, pequenino, e com fumaças de gaiato, e o sacristão da Sé, sujeito alto, magro e com pretensões de elegante. O compadre foi quem tocou o minuete na rabeca; e o afilhadinho, deitado no colo da Maria, acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio. Isto fez com que o compadre perdesse muitas vezes o compasso, e fosse obrigado a recomeçar outras tantas.
Depois do minuete foi desaparecendo a cerimônia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo. Chegaram uns rapazes de viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a romper a parte lírica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em um lugar isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito cômico vê-lo, em trajes do oficio, de casaca, calção e espadim, acompanhando com um monótono zum-zum nas cordas do instrumento o garganteado de uma modinha pátria. Foi nas saudades da terra natal que ele achou inspiração para o seu canto, e isto era natural a um bom português, que o era ele. A modinha era assim: Quando estava em minha terra, Acompanhado ou sozinho, Cantava de noite e de dia Ao pé dum copo de vinho!
Foi executada com atenção e aplaudida com entusiasmo; somente quem não pareceu dar-lhe todo o apreço foi o pequeno, que obsequiou o pai como obsequiara ao padrinho, marcando-lhe o compasso a guinchos e esperneios. À Maria avermelharam-se-lhe os olhos, e suspirou.
O canto do Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi o adeus às cerimônias. Tudo daí em diante foi burburinho, que depressa passou à gritaria, e ainda mais depressa à algazarra, e não foi ainda mais adiante porque de vez em quando viam-se passar através das rótulas da porta e janelas umas certas figuras que denunciavam que o Vidigal andava perto.
A festa acabou tarde; a madrinha foi a última que saiu, deitando a bênção ao afilhado e pondo-lhe no cimeiro um raminho de arruda.

(Manuel Antônio de Almeida, in "Memórias de um sargento de milícias")

Leia também:

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domingo, 18 de setembro de 2011

Thiago de Mello - Os Estatutos do Homem

Os Estatutos do Homem  (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony 


Thiago de Mello
Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 

abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV


Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


     Parágrafo único:

     O homem, confiará no homem
     como um menino confia em outro menino.


Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


     Parágrafo único:

     Só uma coisa fica proibida:
     amar sem amor.


Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


(Thiago de Mello, Santiago do Chile, abril de 1964)


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"Infância" - Graciliano Ramos
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