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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Texto - "Meu Ideal Seria Escrever..." - Rubem Braga

Meu Ideal Seria Escrever...


    "Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse - "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria - "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Rubem Braga
    Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
    Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse - e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse - "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
    E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago - mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
    E quando todos me perguntassem - "mas de onde é que você tirou essa história?" - eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
    E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro."

sábado, 28 de maio de 2011

Cecília Meireles - Poemas

CECÍLIA MEIRELES

Biografia

Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
e não serei eu.

Repetirás o que ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
e nada disso serei eu.

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
e continuarei ausente.

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
isso seria eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente.
Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres como a cascata pelas pedras.
Que mortal nos poderia prender?


(Cecília Meireles)


Eu tinha essa alma toda iluminada, 
como as vilas fantásticas das eras 
dos dragões, salamandras e quimeras 
de um sonho remotíssimo de fada... 

Eu tenho esta alma toda de tristezas 
vestida, e luto e lágrimas e opalas... 
- Porque os Degoladores de Princesas 
por mim passaram para degolá-las...

(Cecília Meireles)


“Até quando terás, minha alma, esta doçura, 
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?”

(Cecília Meireles)

Timidez

Basta-me um pequeno gesto, 
"Story". Fatemeh Haghnejad.

feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

(Cecília Meireles)

“Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- Vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- Vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!”

(Cecília Meireles)


Recado aos Amigos Distantes

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

(Cecília Meireles, in "Poemas",1951)


As palavras estão muito ditas
"Paris, je t´aime". Andre Kohn.

e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

(Cecília Meireles)



"Nunca tive os olhos tão claros
e o sorriso em tanta loucura.
Sinto-me toda igual às arvores:
solitária, perfeita e pura.

Aqui estão meus olhos nas flores,
meus braços ao longo dos ramos:
e, no vago rumor das fontes,
uma voz de amor que sonhamos.”

(Cecília Meireles)

Canção a caminho do céu

“Foram montanhas? Foram mares?
foram os números...?— não sei.
Por muitas coisas singulares,
não te encontrei.

E te esperava, e te chamava,
e entre os caminhos me perdi.
Foi nuvem negra? Maré brava?
Era por ti.

As mãos que trago, as mãos são estas.
Elas sozinhas te dirão
se vem de mortes ou de festas
o meu coração.

Tal como sou, não te convido
a ires para onde eu for.

Tudo que tenho é haver sofrido
pelo meu sonho , alto e perdido,
e o encantamento arrependido
do meu amor.”

(Cecília Meireles)



Atitude

Minha esperança perdeu seu nome...
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

(Cecília Meireles)

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

(Cecília Meireles)

A chuva chove...

A chuva chove mansamente... como um sono
Que tranquilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente...Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine...

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono...

(Cecília Meireles)

Serenata

Repara na canção tardia 
"The Singing Butler". Jack Vettriano.

que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.

Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura

por eternidades serenas.

(Cecília Meireles)


Assovio

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
- a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

(Cecília Meirelles)

Motivo

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre, nem sou triste:
            Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
            no vento.

Se desmorono ou se edifico
Se permaneço ou me desfaço
- Não sei, não sei. Não sei se fico
            ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
            - mais nada.

(Cecília Meirelles)

Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
E ninguém que não entenda.

(Cecília Meirelles)

Renova-te

Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços, para semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

(Cecília Meireles)

Epigrama nº 7

A tua raça de aventura
quis ter a terra, o céu, o mar.

Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, não quer ir nem vir,
A minha raça quer passar.

(Cecília Meireles)

Assim moro em meu sonho:
como um peixe no mar.
O que sou é o que vejo.
Vejo e sou meu olhar.

Água é o meu próprio corpo,
simplesmente mais denso.
E meu corpo é minha alma,
e o que sinto é o que penso.

Assim vou no meu sonho.
Se outra fui, se perdeu.
É o mundo que me envolve?
Ou sou contorno seu?

Não é noite nem dia,
não é morte nem vida:
é viagem noutro mapa,
sem volta nem partida.

Ó céu da liberdade,
por onde o coração
já nem sofre, sabendo
que bateu sempre em vão.

(Cecília Meireles)

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Leia também:

quarta-feira, 25 de maio de 2011

ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA - PARTE I

ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA - PARTE I

        A Gramática é uma forma de sistematização da língua, logo, existe uma língua-padrão a ser seguida. Esse post trata justamente dos erros comuns em relação às normas vigentes da língua portuguesa. Cada vez que abordar o tema, colocarei 30 erros comuns quanto ao uso da língua. Deixarei os erros de conjugação para um post específico, assim como as palavras homônimas e parônimas já possuem o seu.

Nas tirinhas abaixo há dois exemplos com o uso correto da palavra caranguejo:


 


ERROS COMUNS NA LÍNGUA PORTUGUESA

Forma errada
Forma correta



1
Asterístico
Asterisco
2
Aterrisar
Aterrissar
3
Aviso breve
Aviso prévio
4
Bandeija
Bandeja
5
Besorro
Besouro
6
Brinjela
Berinjela
8
Cabelelero / cabelereiro
Cabeleireiro
9
Carangueijo
Caranguejo
10
Degladiar
Digladiar
11
Duzentas gramas (e suas variantes)
Duzentos gramas (a unidade de medida deve ser no masculino – o grama)
12
Entertido
Entretido
13
Estrupo
Estupro
14
Guspir
Cuspir
15
Impecilho
Empecilho
16
Iorgute
Iogurte
17
Largatixa
Lagartixa
18
Largato
Lagarto
19
Madastra
Madrasta
20
Menas
Menos
21
Mendingo
Mendigo
22
Mortandela
Mortadela
23
Padastro
Padrasto
24
Prazeiroso
Prazeroso
25
Previlégio
Privilégio
26
Rocombole
Rocambole
27
Rupreste
Rupestre
28
Salchicha
Salsicha
29
Sombrancelha
Sobrancelha
30
Vasculhante
Basculante

por Prof. Maurício Fernandes da Cunha
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Exercícios

1. A _____ é um embutido feito de carnes de diversos animais. (mortadela / mortandela)
2. Eu adoro bolo de _______ com limão. (iorgute / iogurte)
3. Meu primo conhece 15 formas de amarrar o _____. (cardaço / cadarço)
4. Sei uma receita de _______ grelhada que é uma maravilha. (salsicha / salchicha)
5. Muitos ________ vivem sob pedaços de madeiras flutuantes em algumas praias. (largatos / lagartos)
6. Após o acidente, o motorista começou a _______ sangue. (guspir / cuspir)
7. Irei cumprir o ________ e depois começarei no novo emprego. (aviso prévio / aviso breve)
8. É sob o sol do verão que as ____________ infestam a casa. (lagartixas / largatixas)
9. De fato, a farinha de __________ enxuga a barriga e emagrece. (berinjela / brinjela)
10. O _____________ de chocolate nunca faltava nas sobremesas após a ceia de Natal. (rocombole / rocambole)
11. Fiquei tão ___________ com a torcida que mal vi o gol. (entertido / entretido)
12. O sorvete de baunilha é, sem dúvida, uma das coisas mais _____________ da vida. (prazeirosas / prazerosas)
13. As antigas pinturas em cavernas são chamadas de arte ___________. (rupestre / rupreste)
14. Li no jornal que o avião ___________ com problemas no trem de pouso. (aterrissou / aterrisou)
15. A atriz Kate Hudson afirmou que seu ____________ aprovava seu futuro noivo. (padrasto / padastro)
16. Camilla Parker, a _________ do príncipe William, nunca teve a aprovação do povo inglês. (madrasta / madastra) 
17. Durante o acampamento, vimos um ________ raríssimo. (besorro / besouro)
18. Gosto das janelas ______________, pois são confeccionadas em materiais de qualidade e resistência. (basculantes / vasculhantes)
19. O Estado deveria cuidar melhor dos numerosos __________ do centro de São Paulo. (mendingos / mendigos)
20. Digite a senha no local em que aparecem esses ________________. (asterísticos / asteriscos)
21. Não estudei muito, por isso fiquei com _____ chances nos concursos. (menos / menas)
22. O preconceito é sempre um _____________ para a união dos povos. (impecilho / empecilho)
23. “Diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, é um _________, para mim, compartilhar um planeta e uma época com vocês” (Carl Sagan) – (previlégio / privilégio)
24. O julgamento do adolescente acusado de _________ será no próximo mês. (estupro / estrupo)
25. Wanderley Nunes é um dos ___________ mais famosos de São Paulo. (cabelereiros / cabeleireiros / cabeleleros)
26. Toda mulher sonha em ter uma _________ perfeita. (sobrancelha / sombrancelha)
27. Quero _______ gramas de presunto. (duzentas / duzentos)
28. Os dois irmãos viviam se ____________. (degladiando / digladiando)
29. Salomé exigiu a cabeça de João Batista em uma __________ de prata. (bandeja / bandeija)
30. Afinal, por que o _______________ anda de lado? (carangueijo / caranguejo)

Confira aqui o gabarito:

Prof. Maurício Fernandes da Cunha

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Miguel Torga - Poeta Imenso, Imenso Poeta!

Miguel Torga - Poeta Imenso, Imenso Poeta!

Um dos meus poetas favoritos. Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que tive o grande prazer da descoberta dos poemas de Miguel Torga. Daquele dia em diante, a fascinação só aumentou. Dono de uma precisão absurda, poeta de autenticidade absoluta, faz uso primoroso do léxico para criar pequenas obras-primas da língua. Espero que vocês se deleitem com a grandeza ímpar desse mestre. Seguem o perfil e alguns poemas.

- Nasceu em São Martinho de Anta, Portugal, em 1907 e faleceu em Coimbra, em 1995.
- Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra.
- É considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX.
- Obra de grande caráter humanista.
- Escreveu em prosa os “Diários”, que fizeram grande sucesso literário.
- Temas principais de sua poesia: angústia e desespero do mundo, drama da criação poética e a problemática religiosa.
- Poesia telúrica; poeta extremamente apegado a sua terra e a seu povo natal.
- Poesia social, inquieta, reflexiva e libertadora.

Um poema

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

(Miguel Torga, in “Diário XIII”)

“Canta, poeta, canta
Violenta o silêncio conformado
Cega com outra luz a luz do dia
Desassossega o mundo sossegado
Ensina a cada alma a sua rebeldia”

(Miguel Torga)


“Por que não vens agora, que te quero,
E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.”

(Miguel Torga)


Letreiro

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuizo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

(Miguel Torga)

Perenidade

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

(Miguel Torga)


Idílio

Lírica, a tarde cai
Com secura nas folhas;
Lírica, a minha vista vai
A olhar o que tu olhas…

Oliveiras de sonho
A ver nascer a lua…
Liricamente ponho
A minha mão na tua.

(Miguel Torga, in Diário I - 1941)


Ditirambo
"Les amourex de Normandie". Claude Theberge.

“É o amor que me inspira 
Amo a vida, esta bela prostituta. 
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante.

Amo-a, e canto esse gosto renovado
De uma grande paixão sobressaltada.
De um leito de soluços e suspiros
Misturados,
Ergo a voz e celebro
Os sublimados deuses
Que, divinos, me deram
O bem humano que nunca tiveram.”

(Miguel Torga)

"Gosto do mar desesperado
a bramir e a lutar
E gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar."

(Miguel Torga)

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos.)

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

(Miguel Torga)

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Pedagogia

Brinca enquanto souberes! 
"Meninos pulando carniça". Portinari.

Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

(Miguel Torga)

Parque infantil

Joga a bola, menino!
Dá pontapés certeiros
Na empanturrada imagem
Deste mundo.
Traça no firmamento
Órbitas arbitrárias
Onde os astros fingidos
Percam a majestade.
Brinca, na eterna idade
Que eu já tive
E perdi,
Quando, por imprudência,
Saltei o risco branco da inocência
E cresci.

(Miguel Torga, in Diário VII -1956)


Contemplação

Num berço de granito,
Com a manta do céu
A cobrir-lhe a nudez,
A minha infância dorme.
Nem bruxas, nem fadas
A velar-lhe o sono.
No mais puro abandono
Do passado,
Respira docemente,
Enquanto eu, inútil enviado
Do presente,
Sobre ela me debruço,
E soluço.

(Miguel Torga, in Diário VIII -1959)


Fado

Não dou paz, nem a tenho.
Os outros vão, e eu venho
Das ilusões...
No meu adeus mais puro transparece
O logro e o tédio do caminho andado...
E o sol dos corações
Arrefece
A cada encontro
Desencontrado.

(Miguel Torga, in Penas do Purgatório -1954)


Confidencial

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.

(Miguel Torga)

Exortação

“Em nome do teu nome,
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade  
— Homem, lembra-te bem —!
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;

Leva, dourado,
O sol da consciência
Às íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar...”

(Miguel Torga)

Guerra Civil

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

(Miguel Torga)


Rendição

Vem, camarada, vem
Render-me neste sonho de beleza! 
"Two Men". Caspar. D. Friedrich

Vem olhar doutro modo a natureza
E cantá-la também!

Ergue o teu coração como ninguém;
Fala doutro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!

Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei
E cobri-a de versos e de espanto.

Mas, se o facho é maior na tua mão,
Vem, camarada irmão,
Erguer sobre os meus versos o teu canto.

(Miguel Torga)

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